Campos Neto teve 100% de responsabilidade nos casos Master e Digimais, diz jornalista
Gestão de Campos Neto no Banco Central permitiu que Master e Digimais crescessem sem fiscalização adequada, argumenta Consuelo Dieguez

A Polícia Federal deflagrou na terça-feira (23/6) uma operação contra o Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, investigada por suspeitas de manipulação de balanços, superavaliação de ativos e outras irregularidades apontadas em relatórios do Banco Central. A Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 670 milhões em bens dos investigados.
Em entrevista ao Matinal desta quarta-feira (24/6), a jornalista Consuelo Dieguez, da revista “piauí“, que revelou meses atrás série de problemas no banco, afirmou que a responsabilidade pela demora na fiscalização – tanto do Digimais quanto do Banco Master – recai principalmente sobre a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central, e não sobre a atual presidência, de Gabriel Galípolo.
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Segundo a jornalista, ambas as instituições financeiras operavam segundo a mesma lógica: inflar artificialmente o patrimônio com ativos sem valor real — de títulos da década de 1930 a terrenos superavaliados — para emitir mais CDBs, com rentabilidades muito acima do mercado, usando a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como isca para atrair investidores.
Dieguez também relatou o assédio judicial que enfrentou após a publicação da reportagem na “piauí” e defendeu que as entidades de jornalismo articulem uma resposta coletiva a esse tipo de pressão sobre a imprensa.
Confira os principais trechos da entrevista:
O Digimais, desde maio, afirma que as denúncias publicadas pela imprensa eram inverídicas. Três meses depois da sua reportagem, a PF fez uma operação contra o banco com base em relatórios do Banco Central, confirmando muito do que você já tinha adiantado. O que você pensou ao ler essa nota na época, e o que passou pela sua cabeça ontem?
Eu acho que essa é uma discussão que nós, jornalistas, vamos ter que enfrentar. As entidades de jornalismo, nossos representantes, precisam comecar a pensar numa ação para reagir a esse tipo de comportamento das empresas. Porque essa nota foi o de menos: nós sofremos um assédio judicial que eu nunca tinha experimentado na minha vida, e agora entendo o que muitas pessoas já sofreram, como a Elvira Lobato, que denunciou as estações de rádio da Record, ou o que o “Intercept” e a “Pública” estão sofrendo.
Está na hora de a gente reagir, porque fica praticamente impossível trabalhar quando você faz esse tipo de denúncia e tem uma equipe de advogados em cima da revista. Você responde dez perguntas, eles mandam mais 20, depois mais 60. Fiquei um mês paralisada respondendo questionamentos básicos, como por que eu afirmava que o banco ganhou o capital total em 2020 — o que de fato aconteceu na gestão de Roberto Campos. Isso te tira um tempo enorme, porque você não só tem que responder, mas provar, mostrar documentação.
E acho que não aconteceu só com a gente, acontece com vários colegas e veículos. Tirando isso, quando li ontem que a PF tinha entrado no Digimais, minha vontade foi perguntar: e agora, vocês vão nos pedir desculpas? Porque estava tudo absolutamente correto.

A sua reportagem mostrava vários pontos de contato entre a fraude do Master e a fraude do Digimais, com sinais de um buraco bilionário. O que mais chamou sua atenção durante essa investigação?
O que me assusta nesse modelo, que copia o do Master, é como o FGC — um fundo criado para proteger o investidor de bancos que venham a quebrar — passou a ser usado para cometer fraude. As plataformas, como XP e BTG, vendiam CDBs do Master, do Digimais e de outros bancos pequenos oferecendo rentabilidades de até 140% do CDI, quando o normal seria algo como 98%.
Como você explica um banco do tamanho do Master, com patrimônio de R$ 4 bilhões na época em que fiz a matéria, ter R$ 40 bilhões de CDBs na praça? E o que lastreava isso? Fundos com empresas quebradas, sem nada de real por trás. Pela lei de Basileia, um banco pode ter até dez vezes o seu capital em operações, então, se você infla esse capital artificialmente, pode emitir muito mais CDB. Era exatamente assim que o Digimais também operava.
Vorcaro tinha uma rede de influência em Brasília. Edir Macedo é dono de um banco, de um dos maiores grupos de mídia do país, fundador de uma das maiores igrejas evangélicas e figura central do Republicanos. Em que medida essa teia de influência política atrasou o trabalho do Banco Central nos dois casos?
Eu acho que isso fica muito claro. No caso do Master, havia uma rede de políticos protegendo o banco. Não é possível que o Banco Central já tenha liquidado bancos enormes e, nesse caso, tenha feito vista grossa para uma instituição de R$ 4 bilhões de patrimônio. O Master começa a operar em 2019 com R$ 2 bilhões de CDBs na praça e pula para 7, depois 14, depois 20, depois 40 bilhões, quase metade do patrimônio total do FGC. Em algum momento isso tinha que preocupar o Banco Central.
Não tenho como comprovar que houve pressão política direta, mas, quando você vê as conversas e a rede envolvida com Daniel Vorcaro, não tem como não fazer essa associação. O próprio Ciro Nogueira defendeu o Master no Congresso e queria aumentar a cobertura do FGC para R$ 1 milhão e, se já tivemos um rombo de R$ 60 bilhões com o limite (coberto) de R$ 250 mil, com um milhão isso poderia chegar a 200 ou 300 bilhões, criando uma crise sistêmica que o sistema não teria como pagar.

Quem teve mais responsabilidade nesse cenário: Roberto Campos Neto ou Gabriel Galípolo?
Sem dúvida, Roberto Campos Neto, porque foi quem deixou esses bancos operarem. Havia um sentimento de que era preciso aumentar a competição no mercado, já que cerca de 80% dele está concentrado em cinco ou seis bancos grandes. A ideia era ampliar o acesso da população a serviços bancários. Mas uma coisa é abrir para a competição, outra é deixar bandido entrar na praça.
Quando fui apurar o Master em 2024, o Daniel Vorcaro já estava envolvido em dezenas de irregularidades, já tinha fraudado fundos de pensão de cidades do interior operando o então Banco Máxima, vendendo cotas de fundos imobiliários que não valiam nada para fundos de pensão de servidores públicos. Tinha até uma obra de hotel em Belo Horizonte, com incentivo de R$ 100 milhões da prefeitura na época da Copa, que nunca foi concluída.
A lei exige reputação ilibada para alguém comandar um banco. Será que isso não foi examinado? O Vorcaro nunca tinha trabalhado em banco antes, vinha do mercado imobiliário. No caso do Digimais, o problema foi semelhante: o presidente era um bispo da Igreja Universal, sem nenhuma experiência para operar uma instituição financeira. A responsabilidade nesse caso específico é 100% da gestão de Campos Neto. Agora cabe ver como Galípolo vai administrar esse e outros casos parecidos daqui para frente.
Há indícios de que fintechs ligadas ao escândalo também funcionaram como lavanderia para crime organizado, conectadas ao Master. Isso revela um problema regulatório mais amplo no sistema financeiro?
Sim, e acho que tem muitos sinais de que existe um problema estrutural no sistema. Se houver controle, eu acredito que sim, é possível caminhar para um ambiente mais estável, mas isso passa por estabelecer limites claros do que o FGC vai cobrir, para não estimular esse tipo de fraude. Conversei com o advogado Marcelo Trindade, ex-CVM, que defende justamente isso: se a ideia é aumentar a competição, é preciso fiscalização proporcional sobre quem está oferecendo CDBs a 140% do CDI.
Hoje o FGC, que tinha R$ 132 bilhões antes da fraude do Master, já está em R$ 70 bilhões e ainda existe o caso do BRB, com rombo de R$ 17 bilhões, em negociação com o Supremo. O controle precisa ser muito maior. Nós, jornalistas, temos limite de investigação: precisamos quase implorar por documentos. Já o Banco Central e a CVM têm acesso a todo o balanço dessas instituições.
Não é possível que o mercado inteiro não soubesse e não tenha denunciado antes, e que tenha precisado da “piauí” para isso virar público. Isso é o que tem de mais trágico nessa história.
Assista à entrevista completa: