Entrevista

Novos episódios de violência devem ocorrer, diz jurista sobre morte em Minneapolis, nos EUA

Para Paulo Abrão, papel de agentes de imigração americana foi distorcido com adoção de práticas militarizadas contra civis, com aval e estímulo de Trump

10/01/2026 às 06:00 · Atualizado há 8 meses
Retrato de Renée Nicole Good colado em um poste perto do local onde ela foi morta em Minneapolis. A mulher de 37 anos, cidadã americana e mãe de três filhos, foi morta por um agente do ICE (Foto: Stephen Maturen/Getty Images via AFP)

A política migratória de Trump deixou de ser apenas uma promessa eleitoral para se tornar uma política de Estado permanente, com métodos violentos que têm provocado uma crise de legitimidade institucional nos Estados Unidos. A avaliação é do jurista Paulo Abrão, ex-secretário nacional de Justiça e diretor-executivo da ONG Washington Brazil Office.

Segundo ele, o papel do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) foi profundamente distorcido, com a adoção de práticas militarizadas em contextos urbanos contra populações civis, o que amplia o abismo entre comunidades locais e forças federais.

Na última quarta-feira (7), um agente do ICE atirou e matou Renee Nicole Good, uma cidadã americana de 37 anos, durante uma operação de fiscalização migratória em Minneapolis, nos EUA. O episódio gerou protestos e acusações de uso excessivo de força por parte de autoridades federais e locais.

Caso tem potencial de mobilizar um ‘antes e depois’

Na visão de Abrão, a operação em Minneapolis tende a se tornar um caso emblemático, com potencial de produzir um “antes e depois” semelhante ao impacto simbólico do caso George Floyd, ainda que em um contexto distinto, uma vez que no caso de Floyd havia um forte componente de racismo institucional.

Outra diferença central, segundo o analista, é que agora se trata de uma violência decorrente de uma política oficialmente assumida pelo governo, e não de um desvio pontual de conduta policial.

Já o assassinato de George Floyd, em maio de 2020, se tornou um símbolo global contra a violência policial após um agente, também em Minneapolis, ter pressionado seu joelho no pescoço de Floyd por mais de oito minutos. A morte truculenta criou uma onda de protestos contra racismo e abuso de poder no país e no mundo.

Segundo Abrão, a insistência na meta de deportar ao menos um milhão de imigrantes por ano indica que novos episódios de violência devem ocorrer, mantendo o tema no centro do debate político-eleitoral, inclusive nas eleições locais, que são diretamente afetadas pelo conflito entre autoridades federais, estaduais e municipais.

Paulo Abrão, diretor-executivo do Washington Brazil Office e ex-secretário nacional de Justiça

Leia trechos da entrevista da Paulo Abrão ao Matinal desta sexta-feira (9):

Paulo, queria começar te ouvindo sobre o caso de Minneapolis, que reacendeu críticas à política migratória do governo Trump após a morte de uma cidadã americana durante uma ação do ICE. Você vê possibilidade de mudança nessa política diante da pressão social?

A política migratória já vinha gerando uma tensão social acumulada nos Estados Unidos. Não podemos esquecer que ela é a principal promessa eleitoral de Trump. O ICE atua hoje para cumprir a meta de retirar ao menos um milhão de imigrantes indocumentados por ano, mas isso tem produzido consequências muito graves para a história institucional do país. A agência, que deveria ter um caráter administrativo, passou a operar de forma militarizada, em ações urbanas contra populações civis e desarmadas, o que gera um desgaste crescente de legitimidade.

Esse caso pode ter impacto político semelhante ao assassinato de George Floyd, em 2020?

Há semelhanças e diferenças. No caso de George Floyd, houve uma sequência de episódios de violência policial associados ao racismo institucional, tratados oficialmente como excessos. Aqui, estamos falando de uma política de Estado assumida pelo governo, com métodos violentos e respaldados por um discurso nacionalista extremo. Isso tende a produzir repercussões duradouras, porque a política continuará sendo executada, e novos casos devem surgir.

Você acredita que esse cenário pode, paradoxalmente, fortalecer o trumpismo eleitoralmente?

Trump aposta nisso. Ele acredita que a retórica de “lei e ordem” pode gerar dividendos eleitorais. Mas essa aposta também amplia conflitos federativos, desgasta relações com comunidades urbanas e aprofunda a polarização social. É uma estratégia de alto risco institucional.

Mudando de tema, como você avalia a decisão dos EUA de abandonar organismos internacionais ligados a direitos humanos e outras agendas multilaterais?

Há coerência entre discurso e prática. Trump já havia adotado medidas semelhantes no primeiro mandato. A diferença agora é a ampliação da lista de organizações, o que enfraquece esses organismos, já que os EUA são historicamente seus principais financiadores. Trata-se menos de uma avaliação técnica e mais de uma reorientação ideológica da política externa, marcada por uma visão nacionalista e soberanista.

Essa postura enfraquece a posição dos EUA em disputas comerciais, especialmente com a China?

Sim. Ao deslegitimar o multilateralismo, os Estados Unidos enfraquecem os próprios instrumentos que usavam para sustentar sua liderança global, inclusive em temas como comércio justo e segurança internacional. Isso tem impactos econômicos, diplomáticos e reputacionais, muitos deles difíceis de reverter.

E na América Latina, qual é o papel da OEA nesse contexto?

A OEA atravessa uma crise profunda. No caso da Venezuela, a organização produziu narrativas que acabaram legitimando soluções artificiais, como o reconhecimento de governos paralelos, sem conseguir mediar uma saída política real. Hoje, a OEA tem pouco espaço para atuar diante dessa nova postura intervencionista dos Estados Unidos.

Você vê riscos de interferência dos EUA nas eleições brasileiras?

Vejo, sim. Trump tem falado abertamente sobre apoiar candidatos em diferentes países. No Brasil, temas de política externa devem entrar no centro do debate eleitoral pela primeira vez. Há risco de influência, de desgaste do ambiente democrático e de fortalecimento de narrativas extremistas, independentemente do resultado final da eleição.

Assista à íntegra da entrevista de Paulo Abrão ao Matinal desta sexta-feira (9):

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