Embaixadora da UE no país afirma que Brasil e Europa nunca estiveram tão próximos
Em entrevista de despedida ao Lisboa Connection, a embaixadora da União Europeia no Brasil avalia efeitos da era Trump na relação entre os dois blocos

A fragmentação do comércio global, o retorno de Donald Trump à Casa Branca e as pressões que recaem sobre Europa e Brasil reforçaram os laços entre eles. É essa a leitura da embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf, que classificou como justa a avaliação de que o momento geopolítico atual aproximou Brasil e Europa como nunca antes. Ela deu a entrevista ao Lisboa Connection, videocast do Amado Mundo, gravada durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
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A conversa marcou uma das últimas aparições de Schuegraf à frente da representação europeia no país, antes de deixar o cargo. Segundo a embaixadora, o recém-implementado acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja negociação foi concluída antes da eleição de Trump, já demonstrava, por si só, a complementaridade entre os dois blocos. Mas o cenário internacional turbulento, argumentou, deu à parceria uma dimensão adicional.
“O acordo teria acontecido de qualquer forma. Isso fortalece a base da nossa cooperação, mas o cenário geopolítico atual acrescenta uma dimensão diferente a ele”, disse.
Para Schuegraf, o momento exige que os países repensem as próprias bases da cooperação internacional, já que, em sua avaliação, as formas antigas de diálogo estão em boa medida superadas. Ela defendeu uma relação “entre pares”, pautada por confiança e por um interesse genuíno no crescimento mútuo, o que chamou de necessidade de um “novo kit de ferramentas” nas relações entre nações.
Ainda que reconheça o Brasil como um país ancorado em sua região, a embaixadora afirmou que a União Europeia enxerga o papel brasileiro de forma mais ampla, com protagonismo global. Ela destacou a atuação brasileira na presidência de diferentes organismos internacionais nos últimos anos, citando o G20, a COP30, o Brics e o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.
Schuegraf disse ainda torcer para que, em 10 anos, o Brasil seja mais conhecido por seu poder brando do que por commodities, e se consolide como líder global em sustentabilidade, dado seu potencial em energias renováveis e recursos hídricos.
O ‘novo instrumento de poder’ geopolítico
Para Schuegraf, as novas tecnologias redefinem o poder geopolítico. Segundo ela, os fatores que antes definiam essa força eram o poderio militar, um assento no Conselho de Segurança da ONU ou a posição no comércio exterior, critérios hoje complementados pela liderança tecnológica em inteligência artificial, física quântica e biotecnologia, que se tornaram componentes centrais da disputa entre as grandes potências.
A embaixadora também citou a força das sociedades, sua coesão, capacidade de inovação e solidariedade, como um critério em que os países “figuram de forma muito diferente”, e chamou a atenção para o fato de que indivíduos ligados a grandes empresas de tecnologia hoje acumulam riqueza superior ao PIB de vários países. Ela defendeu que esse tipo de poder só encontra contrapeso em parcerias legítimas entre democracias.
“Em uma autocracia, a convicção vem apenas do chefe de Estado. Mas quando a população discute essas questões, esse é o valor das democracias. E, nesse sentido, acho que nós [Brasil e Europa] combinamos perfeitamente.”
Embaixadora diz que Brasil é subvisitado
Para Schuegraf, o Brasil é um país pouco visitado, e ela defende que mais pessoas deveriam conhecê-lo. Depois de viajar por praticamente todos os estados brasileiros, ela destaca a diversidade do país e aposta no turismo sustentável como uma das grandes oportunidades para o futuro.
Schuegraf fez um balanço mais pessoal de sua passagem pelo Brasil, país que definiu como “uma terra de descobertas”. Ela citou uma temporada de convivência com o povo indígena Wapichana como um dos aprendizados que leva do país. “Aprendi sobre a relação com a natureza, sobre como a humanidade se baseia nela. Não podemos viver só de tecnologia”, disse.
A representante da UE também reservou elogios à culinária brasileira, em especial à tapioca, da qual disse não conseguir mais abrir mão, e a pratos amazônicos, como tacacá, bobó e vatapá. Ela defendeu que a gastronomia da região tem potencial para se tornar uma das grandes cozinhas do mundo.
Schuegraf ainda citou shows a que assistiu no país, como o de Gilberto Gil, e lembrou que já havia estado no Brasil como estudante, e falou da admiração por Caetano Veloso. Ela também elogiou o cinema brasileiro, que, segundo ela, está ficando mais conhecido no exterior, e colocou a produção audiovisual do país ao lado da gastronomia como uma das frentes de um soft power que, em sua avaliação, o Brasil ainda está longe de explorar por completo.
Assista ao Lisboa Connection com Marian Schuegraf: