Trump faz com a Fifa o que tem feito com Otan e ONU: se uma regra incomoda, azar da regra
Caso Balogun mostra como Trump lida com qualquer regra que não o favoreça: uma ligação, um artigo de exceção e uma decisão que desaparece

Não é preciso entender profundamente de geopolítica para captar o que aconteceu nos bastidores da Fifa nesse fim de semana. Basta acompanhar futebol. Folarin Balogun, artilheiro dos Estados Unidos na Copa do Mundo, recebeu cartão vermelho direto – do árbitro brasileiro Raphael Claus – na vitória norte-americana sobre a Bósnia e Herzegovina, depois de pisar no tornozelo de um adversário, em lance revisado pelo VAR. Pela regra, suspensão automática de uma partida, sem margem para recurso. Até aí, nada de diferente do que já aconteceu com diversos outros jogadores em tantas edições do torneio.
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O diferente veio depois. Donald Trump ligou pessoalmente para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e pediu uma revisão do caso. Horas depois, a entidade anunciou que a suspensão de Balogun ficaria suspensa por um período probatório de um ano, com base em um artigo do próprio código disciplinar que permite à Fifa flexibilizar punições. Na prática, o jogador ficou livre para enfrentar a Bélgica nesta segunda-feira (6), justamente a partida eliminatória para a qual estaria impedido.
A Fifa não deu qualquer explicação pública sobre os critérios usados para abrir essa exceção. E o motivo é simples: não existe critério. Existe uma ligação.
Fifa cruzou ‘uma linha vermelha’
A reação do futebol europeu foi imediata. A Uefa (União das Associações Europeias de Futebol) classificou a decisão como um cruzamento de “uma linha vermelha”, chamando-a de “inédita, incompreensível e injustificável”. Segundo a entidade, uma suspensão automática após cartão vermelho não é uma opção discricionária nem exige decisão de um órgão competente para valer — é regra escrita, sem exceções, ainda mais em pleno torneio, quando outros atletas já cumpriram punições idênticas. Para a Uefa, quando quem deveria garantir as regras passa a driblá-las, a credibilidade de toda a competição fica comprometida.
A Federação Belga também reagiu. A seleção enfrenta os Estados Unidos nesta segunda-feira e cobrou explicações formais da Fifa, alegando que a decisão contraria diretamente o próprio regulamento da Copa. O técnico Rudi Garcia debochou da entidade, comparando o anúncio a uma pegadinha de primeiro de abril, e disse que a federação não estava ali para defender o time, mas para defender o futebol.
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Mesmo quem já ocupou o comando da Fifa se manifestou. O ex-presidente da entidade Sepp Blatter, hoje figura desgastada por escândalos de corrupção, afirmou em uma publicação no X que “cartões vermelhos não são revertidos por ligações políticas. Eles são revertidos por regras, evidências e órgãos independentes”. E questionou: “Se um presidente dos EUA intervém com o presidente da Fifa — e um jogador é subitamente absolvido antes de uma partida eliminatória da Copa do Mundo —, a questão é inevitável: ‘Para onde você vai, Fifa'”.
Autoridades europeias também entraram no debate. Uma secretária de Estado do Esporte da Alemanha afirmou que política não tem lugar dentro de campo. O chanceler da Bélgica chamou a decisão de incompreensível e disse que, se de fato um telefonema explica esse desfecho, isso equivale a solapar as regras mais elementares do esporte. Até a Comissão Europeia entrou na conversa, defendendo que decisões esportivas devem caber às entidades esportivas, não a políticos.
Do lado americano, é claro, a leitura é outra. Trump comemorou publicamente a decisão como a correção de uma injustiça e, nesta segunda, confirmou ele mesmo ter pedido a revisão, ao mesmo tempo em que insinuou, sem provas, alguma suspeita sobre o árbitro brasileiro que expulsou o jogador. O técnico da seleção dos Estados Unidos também saiu em defesa da decisão, classificando a expulsão original como desproporcional.
CONCORDA COM A DECISÃO DO CLAUS? 🤔
— SportsCenter Brasil (@SportsCenterBR) July 2, 2026
Após expulsão de Balogun na partida entre Estados Unidos contra a Bósnia, o árbitro brasileiro Raphael Claus foi duramente criticado por parte da imprensa do país.
O VAR recomendou a revisão de uma falta do atacante, autor de um dos gols da… pic.twitter.com/sJFku9XH27
O modus operandi de Trump
O que há de mais revelador nesse episódio não é o futebol em si. É o quanto ele expõe, de forma didática, o modo como Trump se relaciona com qualquer estrutura de regras que não o favoreça. Trocando a Fifa pela Otan, pela ONU ou por qualquer outro organismo multilateral, a lógica é sempre a mesma: normas existem até incomodarem. Quando incomodam, resolve-se no telefone, entre autoridades, sem prestação de contas.
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O caso Balogun tem a vantagem de ser simples de explicar a qualquer torcedor, mesmo aquele pouco interessado em política internacional. Não é um debate abstrato sobre soberania ou tratados. É um cartão vermelho que deveria valer para todo mundo, uma regra escrita, revisada por VAR e por um árbitro reconhecido — e que, mesmo assim, se dissolveu depois de uma ligação.
Funciona como uma tradução, em linguagem de estádio, de um comportamento que os analistas de política internacional vinham descrevendo há tempos e que boa parte do público não conseguia visualizar com tanta clareza: caso o organismo internacional não faça o que o mais poderoso quer, o mais poderoso liga e resolve pessoalmente, e a regra que valia para os outros deixa de valer. Se a Fifa abriu esse precedente para o cartão de Balogun, resta saber qual será o próximo artigo do código disciplinar a ser reinterpretado por telefone.
Neymar, ou o retrato de uma época
Falando em símbolos do momento do futebol, é impossível não comentar o caso Neymar. Não é sobre desempenho técnico — o jogador deixou de viver como atleta de alto rendimento há anos, sem a rotina, a dieta e a disciplina física que hoje sustentam craques da idade dele. O problema é de exemplo.
Fazer propaganda de casa de apostas logo após ser convocado, ou aproveitar uma folga da seleção para comprar um relógio de um milhão de dólares, são escolhas que pesam quando se fala de um atleta observado por milhões de crianças e jovens. Comparado a um Pelé, cuja imagem sempre foi construída com outro cuidado, Neymar carrega hoje uma postura individualista que resume, tristemente, o momento do futebol brasileiro: um esporte cada vez mais capturado pela lógica do ganho pessoal em detrimento do coletivo. Ele não é uma má influência por acaso — é, infelizmente, o retrato mais nítido desse tempo.
Com informações da AFP
Confira o Matinal desta segunda-feira (6/7) na íntegra: