Entrevista

Eliana Alves Cruz: ‘Calçar os sapatos de outras pessoas é um exercício de empatia’ 

Vencedora do Prêmio Guimarães Rosa por 'Meridiana', Eliana Alves Cruz fala ao Papo Amado sobre escrita, memória familiar e a literatura como forma de compreender o país

Publicado em 26/07/2026 às 06:00
Eliana Alves Cruz no Papo Amado (Foto: Amado Mundo)

Em “Meridiana”, romance publicado pela Companhia das Letras, seis personagens de uma mesma família negra narram, cada um à sua maneira, as transformações provocadas pela ascensão social, pelas relações e diferentes formas de pertencimento. Para construir esse mosaico de vozes, Eliana Alves Cruz afirma que precisou habitar o universo de cada personagem e aprender a enxergar o mundo pelos olhos de cada um deles.

“Calçar os sapatos de outras pessoas é, ao fim e ao cabo, um exercício de empatia”, afirmou a escritora e jornalista em entrevista ao Papo Amado, do canal Amado Mundo.

Na conversa, Eliana explicou por que evita transformar seus personagens em porta-vozes de conceitos, refletiu sobre o impacto do jornalismo em sua literatura e falou sobre o esvaziamento de palavras como “racismo”, “liberdade” e “amor” nas redes sociais.

“‘Meridiana’ é sobre uma família negra, mas fala também de pertencimento, migração, pressão estética, envelhecimento, homossexualidade, caminhos da vida… Tantas coisas que dizem respeito a todos nós, independentemente de ser pessoa negra ou não”, refletiu.

A escritora recebeu, na quinta-feira, 23, o Prêmio Guimarães Rosa, da Academia Brasileira de Letras (ABL), concedido ao melhor livro de ficção publicado no Brasil em 2025 por “Meridiana”. Durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), participou da Caixa de Histórias, espaço de programação cultural independente e gratuita, organizado pelo Amado Mundo, pela editora map lab e pela Janela Livraria.

Na ocasião foi apresentado o teaser de “Escreviventes”, documentário dirigido por Estevão Ribeiro e coproduzido pelo Amado Mundo. O filme reúne Eliana e Conceição Evaristo em uma conversa sobre literatura, memória e ancestralidade.

Leia também: Amado Mundo se torna coprodutor de filme sobre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz

A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo ao final do texto. Na versão completa, Eliana Alves Cruz reflete sobre memória familiar, ancestralidade, referências literárias e o lugar das escritoras negras na literatura brasileira.

“Meridiana” é um livro encantador porque traz vozes muito diferentes e muito fortes. Como você consegue fazer isso?
“Meridiana” é um caminho. É fruto de todos os outros livros [meus]. É um exercício de escrita que foi muito difícil para mim. Tive que encarnar os personagens e começar a olhar o mundo como eles. Calçar os sapatos de outras pessoas, é um exercício, ao fim e ao cabo, de empatia. É diferente de tudo que já escrevi. 

Assim como “Solitária”, “Meridiana” consegue trazer o leitor para dentro da cena. É intencional e um trabalho artesanal de escritora. Mas, você também é jornalista. No que a profissão te ajudou?
A não tirar conclusões precipitadas. A gente precisa olhar o máximo de ângulos possíveis daquele fato, daquela realidade. A ter um senso de urgência e a ter curiosidade para além de mim. Me ajudou a entender que tudo passa e tudo volta. Me ensinou a ter método, poder de síntese, a olhar entre as linhas e a entender o que está sendo dito e o que não está. Isso, para o escritor, é ouro puro.

Como escritora publicada, você tem 10 anos de carreira. Em que momento resolveu virar uma ficcionista?
Fui publicada pela primeira vez em 2016 com ‘Água de Barrela’ pelo concurso da Fundação Cultural Palmares. [Foi uma iniciativa de incentivo à publicação de romances escritos por mulheres negras] Sentei para escrever esse livro seis anos antes. É um recorte de 170 anos da história do Brasil e um paralelo com a história da minha família. Eu tinha uma angústia e pensei: ‘Não posso deixar todas essas histórias se perderem, preciso reuni-las em um livro’. Comecei com 44 anos e, em 2016, [aos 50], veio a oportunidade do concurso. 

Quais os desafios dessa mudança?
Tudo, para nós, pessoas negras, especialmente para mulheres, é mais complicado, demora para acontecer. O mercado [editorial] é difícil, pequeno e afunilado para todo mundo. Quebrar essa barreira é difícil, até porque escrever demanda tempo. Qual é a mulher negra no Brasil que tem tempo para escrever um romance de 300 páginas? Toma tempo da vida. 

Nesses 10 anos de carreira, foram cinco livros publicados, quatro deles premiados, e você é um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Gente como o Milton Hatoum e Luiz Alfredo Garcia-Roza também começaram tarde. Já parou para pensar sobre isso?
Somos frutos de muita coisa. Neste tempo em que não estava escrevendo, eu estava lendo. Tudo o que li também me formou. 

E quem são seus pais?
Meu pai se chama Eloá dos Santos Cruz. É um nome feminino, e ele fica muito irado quando chamam “senhora Eloá”. O senhor Eloá tem 85 anos e é advogado, formado pela Faculdade Nacional de Direito. Minha mãe, Lina Maria Alves Cruz, era professora do que hoje é o ensino fundamental. Depois, fez serviço social. São duas pessoas que deram muito valor à educação. Os dois são baianos, e as famílias vieram para o Rio de Janeiro. A minha primeira foto no “Escreviventes” é a da minha mãe comigo no colo, ao lado de uma estante. Só fui reparar, quando adulta, que todas as fotos da minha infância têm livros no cenário. 

Leia também: Conceição Evaristo na Caixa de Histórias: literatura é ato de coragem e insubmissão

Que personagem do “Meridiana” você gostaria de ser?
A Zuleika. Gostaria de ter essa radical liberdade de ser. Ser uma pessoa que tem total controle sobre como quer terminar os dias dela. Ela realiza uma coisa que é o não precisar se desterrar. Pessoas periféricas vivem esse drama, precisam se desterrar para conseguir dignidade de vida. E a Zuleika está ali, lutando por elas. 

Como sociedade, quais são as feridas que ainda precisamos colocar no dedo?
Me incomoda o não dito. Já levantamos muitas coisas, mas estamos num momento tão estranho em que se desqualificam lutas e o sentimento do outro.  Se você me diz: “Eliana, você me ofendeu quando você falou tal coisa”. Não importa o que eu pense, se te ofendeu, tenho que rever. São ciclos que não conseguimos interromper por falta de entender as dores que não passam por nós, um egoísmo arraigado. Vai exigir muita coragem e tentar construir outras coisas além do capitalismo. 

Por que você não usou a palavra “racismo” e “racista” só aparece duas vezes em “Meridiana”?
Fujo dessas palavras que se esvaziaram por conta das redes sociais. Quero que quando elas apareçam, tenham a força que deveriam ter. Não é só racismo que está esvaziado. Liberdade, amor, potência… [muita coisa perdeu força].  “Meridiana” é sobre uma família negra, mas fala de pertencimento, migração, pressão estética, envelhecimento, homossexualidade, caminhos da vida… Coisas que dizem respeito a todos nós, independentemente de ser pessoa negra ou não.

Assista ao Papo Amado com Eliana Alves Cruz:

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