Ludhmila Hajjar: ‘Corrupção na saúde é pena de morte para um paciente doente’
A cardiologista e professora da USP explica como a inteligência artificial pode transformar a saúde pública, relembra a pandemia e critica a politização da medicina

A modernização tecnológica do Sistema Único de Saúde (SUS) ganhou impulso nos últimos meses com a criação da Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes e Medicina de Alta Precisão. Anunciada pelo Ministério da Saúde em novembro de 2025 e lançada oficialmente em janeiro deste ano, a iniciativa prevê a construção do primeiro hospital inteligente do SUS, a implantação de UTIs inteligentes em diferentes estados e o uso de inteligência artificial para integrar atendimento, diagnóstico e gestão hospitalar.
O modelo busca enfrentar alguns dos principais gargalos da saúde pública brasileira, como a demora no acesso a especialistas, a fragmentação dos prontuários, a dificuldade de integração entre unidades de atendimento e o desperdício de recursos. A proposta aposta na inteligência artificial para tornar o sistema mais eficiente, ampliar a capacidade de diagnóstico e acelerar o atendimento de pacientes em situações de urgência.
Em janeiro de 2026, o governo federal e o Novo Banco de Desenvolvimento (Banco do BRICS) assinaram o contrato de R$ 1,7 bilhão para a construção do primeiro Hospital Inteligente do SUS, integrado ao Hospital das Clínicas da USP. E, no mês passado, o Ministério da Saúde inaugurou, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ), a primeira UTI Inteligente do SUS, a primeira de sete unidades previstas na fase inicial do projeto, que contemplará hospitais em diferentes estados brasileiros.
Quando a cardiologista, intensivista e professora titular de Emergências da USP Ludhmila Hajjar participou do Papo Amado, em julho de 2025, todo esse projeto ainda estava em fase de elaboração.
Idealizadora do modelo e hoje responsável por coordenar a implantação do Hospital Inteligente do SUS no complexo do Hospital das Clínicas da USP, a especialista explicou como a proposta poderia reduzir filas, antecipar diagnósticos e integrar diferentes níveis de atendimento do SUS por meio da inteligência artificial. A médica também defendeu maior investimento em gestão e tecnologia para a saúde pública e classificou a corrupção no setor como uma forma de condenar pacientes à morte.
“Como manejar um sistema que atende, em média, 150 milhões de vidas? É preciso prontuário único, eficiência nas entregas, metas, e acabar com a corrupção. Corrupção na saúde é pena de morte. Você mata um doente quando desvia uma emenda que era para fazer um hospital, para abrir um leito de UTI”, afirmou.

Outros desafios da saúde pública
A conversa também revisitou um dos períodos mais delicados da saúde brasileira. Hajjar relembrou os bastidores do convite que recebeu do então presidente Jair Bolsonaro para assumir o Ministério da Saúde durante a pandemia de Covid-19, explicou por que recusou o cargo e avaliou os impactos do negacionismo e da politização da medicina. Para ela, médicos que colocam convicções políticas acima das evidências científicas sofrem de um “déficit de formação” e cometem um grave desserviço à população.
A cardiologista ainda comentou os desafios da presença feminina em posições de liderança na medicina, discutiu a sustentabilidade do SUS diante do avanço de tecnologias de alto custo, relembrou conversas com a ex-presidente Dilma Rousseff sobre o sistema público de saúde e refletiu sobre o processo de reconstrução das políticas públicas de saúde após a pandemia.
A seguir, os principais trechos da entrevista com Ludhmila Hajjar. Assista à íntegra em vídeo ao final do texto.
Na USP você é a primeira mulher a dar aula na disciplina de emergências clínicas. Nas residências as mulheres são maioria.
Estamos vivendo uma transformação. Ganhamos menos, chegamos menos a posições de liderança, sofremos assédio. É desafiador. E é o que nos torna ainda mais importantes, porque, sendo minoria e conseguindo chegar a posições relevantes, temos a obrigação de abrir caminho para essa geração de mulheres modernas que faz parte da nossa sociedade.
O que é um hospital inteligente?
É um hospital que usa inteligência artificial em todos os seus aspectos, como machine learning e redes neurais, para trazer acessibilidade, interoperabilidade e conectividade ao funcionamento do Sistema de Saúde. A ideia é evitar desperdícios, fazer entregas mais eficientes e diagnósticos mais precoces. Em São Paulo tem um sistema de saúde pública integrado e uma central de regulação de vagas. Um paciente com suspeita de derrame cerebral numa região periférica pode demorar mais de 12 horas até chegar a um hospital de alta complexidade. A busca por vaga é manual. Aciona-se o SAMU, a ambulância mais próxima é enviada, o paciente chega ao hospital, leva 30 minutos para registro e início do diagnóstico.
A China e a Índia colocaram inteligência nesse sistema. O paciente aciona o sistema de emergência via smartphone. Uma ambulância 5G integrada para na porta da casa, encontra o hospital mais próximo, o tratamento começa na própria ambulância, o caso é discutido com o hospital, o paciente chega, faz tomografia, já está no sistema e um neurologista o espera.
Na saúde pública, como podemos destravar os agendamentos para pacientes em estado grave?
Temos que trabalhar com três elementos. Primeiro, se investe em saúde. Sem dinheiro, não se faz transformação. Segundo, gestão. O sistema foi descentralizado: governo federal, estadual e municípios. Existe corrupção. É preciso dar foco à gestão com atenção. Terceiro, tecnologia. Como manejar um sistema que atende, em média, 150 milhões de vidas? É preciso prontuário único, eficiência nas entregas, metas, e acabar com a corrupção. Corrupção na saúde é pena de morte. Você mata um doente quando desvia uma emenda que era para fazer um hospital, para abrir um leito de UTI.
Você conversou sobre isso com a Dilma?
Eu falei para ela: “Presidenta, a senhora não acha que a gente devia tirar a ‘integralidade’ do sistema? E deixar escrito aquilo que a gente entrega?” Ela falou: “Minha filha, jamais. Isso seria um retrocesso”. Eu não estou certa de que ela esteja com a razão nesse sentido, porque eu não sei se, à luz da medicina atual, altamente tecnológica e cara, com um país que não é sustentável do ponto de vista de autossuficiência, nós conseguimos manter isso. Produzimos poucos medicamentos de alto custo. Temos poucas tecnologias em saúde. Nosso complexo industrial ficou sem verbas, sem investimento em muitos anos. Eu não sei se dá tempo de recuperar.
O governo Bolsonaro te convidou para ser ministra da Saúde durante a pandemia, como foi isso?
Ao longo da pandemia, coordenei UTIs no HC da USP, que ficaram destinadas à Covid, participei do processo de enfrentamento à pandemia. Pesquisei a cloroquina. Ele me viu numa reunião de cientistas chamados para discutir novas terapias em Brasília. Dali, ele me reconheceu, conversou um pouco, ficou na memória. E ele sabia que eu estava estudando cloroquina. Um belo dia, ele vê uma reportagem de uma senhora de 92 anos que teve alta da Rede D’or após ter tido uma Covid grave. Os jornais chamaram a atenção. Ele me convidou por telefone. Eu pedi para ir a Brasília para conversar antes de qualquer coisa. Ficou claro que não seria possível. Foi uma experiência que passou. E, felizmente, não deu certo. Eu tenho certeza que não teria dado certo.
Quantos brasileiros você estima que morreram por causa da cloroquina?
Acho difícil dar uma resposta objetiva. Nós perdemos 700 mil pessoas. O tratamento não foi errado apenas pela cloroquina, mas foi errada a condução da pandemia. Teve o negacionismo, o anti-isolamento, a falta de recursos para os hospitais, a vacina atrasada, a apologia a não vacinar, o uso maluco de azitromicina, cloroquina e ivermectina, o não olhar para terapias que estavam vindo. Se eu tiver que fazer um chute, acho que daria para a gente salvar pelo menos a metade dessas pessoas.
Como você avalia médicos que disseminam opiniões políticas acima da ciência?
É déficit de formação. Só pode ser muito incapaz um indivíduo que deixa a ciência e começa a politicar em medicina. É leiguice misturada com maldade, com calhordagem, com charlatanismo. O que eu acho é que aquele momento político fez renascer fundamentos podres nessas pessoas, sabe? Porque você usar a capacidade que tem como médico, o poder que tem de influenciar vidas, para politizar um tratamento, para fazer uma coisa que pode gerar um mal, isso é gente incompetente, maldosa, e que cometeu crime.
E o Ministério da Saúde no governo Lula?
O governo Lula pegou uma saúde destroçada, que veio do governo anterior. Você tinha terra arrasada, negacionismo, falta de recursos, os programas foram destruídos: Programa Nacional de Imunização, secretarias de doenças sexualmente transmissíveis, programa de Aids. Eles estão no processo de reconstrução, é fato. Eu tenho participado de muitas ações do governo, não que eu seja ligada a esse governo, mas pelo meu papel na universidade. Eu participei do grupo de transição e, como professora da USP, estou sempre chamada, participando. E viver na democracia é melhor do que viver no obscurantismo, negacionismo e medo de exprimir a sua liberdade.