Letícia Duarte

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

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Análise

Trump encerra ano com crise na Venezuela, promessas vazias a Gaza e ‘desprezo’ a Bolsonaro

Figura onipresente em 2025, presidente americano recebeu Netanyahu na Flórida e escalou tensão com Caracas após ataque

30/12/2025 às 15:19 · Atualizado há 9 meses
Presidente americano Donald Trump recebe primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu em Mar-a-Lago, na Flórida, em 29 de dezembro, para discutir o cessar-fogo em Gaza (Foto JIM WATSON / AFP)


Figura onipresente no noticiário internacional em 2025, Donald Trump encerra o ano em meio a uma agenda intensa de aparições públicas e anúncios controversos, todos feitos em seu clube privado em Mar-a-Lago, na Flórida.

Depois de receber o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, para uma reunião sem avanços concretos sobre o acordo de paz na Ucrânia, no último domingo (28), ele se encontrou no dia seguinte com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, para tratar do conflito em Gaza.

Havia uma expectativa sobre um anúncio mais detalhado sobre a próxima fase de implementação do plano de cessar-fogo e da reconstrução de Gaza, mas Trump e Netanyahu foram bem vagos ao comentar o assunto depois da reunião.

O americano se limitou a dizer que o Hamas teria, nas palavras dele, um “prazo muito curto” para se desarmar. E alegou que, caso o grupo não cumpra as exigências, o Hamas seria “destruído com a ajuda de outros países”.

Vale lembrar que a fase 2 do plano de paz para Gaza prevê que o Hamas se desarme, que os israelenses retirem suas forças do local e que outros países enviem tropas para uma força internacional de estabilização local. No entanto, o fato é que essa força internacional, uma peça central do plano de Trump para desmilitarizar Gaza, tem enfrentado muita dificuldade para se consolidar até o momento.

O jornal “Washington Post” publicou recentemente uma reportagem mostrando que os países que haviam prometido enviar tropas estão dando para trás.

A Indonésia, que, segundo relatos, havia sinalizado o envio de até 20 mil soldados para as forças de paz, por exemplo, agora recua e fala em mandar apenas um efetivo de 1.200 homens. O país alega que houve um mal entendido, porque 20 mil seriam o número total do seu efetivo de forças de paz –e não o que havia prometido enviar a Gaza.

Países do Golfo, sobre os quais havia uma expectativa de atuação, já teriam desistido, segundo fontes envolvidas nas negociações. E outros países que manifestaram a disposição de enviar soldados, como o Azerbaijão, o Paquistão e a Itália, também não confirmaram participação. Um oficial ouvido pelo “Washington Post” disse inclusive que os compromissos estão sendo considerados, mas que nenhum país vai enviar tropas sem entender os detalhes da missão.

Trump e Netanyahu, no entanto, não falaram nada sobre esses entraves ao comentarem a reunião desta segunda-feira (29). Na coletiva de imprensa, ambos ficaram mais empenhados em mostrar unidade, depois de alguns movimentos recentes de desconforto diplomático, já que os Estados Unidos andavam aparentemente descontentes com os ataques persistentes de Israel a Gaza, e também ao Irã, movimentos que pareciam em desacordo com os esforços diplomáticos do governo Trump.

Netanyahu sai da Flórida com dois presentes para 2026

Netanyahu, que está em campanha de reeleição, saiu do encontro com dois presentes: o primeiro foi um endosso de Trump a possíveis novos ataques ao Irã, visto que o americano afirmou que os Estados Unidos apoiariam ofensivas israelenses contra o país, caso este prosseguisse com seu programa de armas nucleares, alvo de bombardeios americano em junho.

A reunião na Flórida rendeu bons frutos para o premiê israelense e reforçou a aliança de Israel com os Estados Unidos, enquanto permanecem essas preocupações sobre a real capacidade americana e das forças internacionais de garantir a manutenção da paz em Gaza.

E um segundo presente, talvez mais importante para a reeleição de Netanyahu, que foi ouvir de Trump que este teria pedido ao presidente de Israel, Isaac Herzog, que perdoasse Netanyahu em um caso de corrupção que ele enfrenta em seu país. Trump chegou a dizer que o indulto estaria a caminho, o que depois foi negado por Herzog. Seu último com o Trump havia sido em novembro, informou, e desde então nada mudou.

A reunião na Flórida rendeu bons frutos para o premiê israelense e reforçou a aliança de Israel com os Estados Unidos, enquanto permanecem essas preocupações sobre a real capacidade americana e das forças internacionais de garantir a manutenção da paz em Gaza.

Venezuela: ataque americano ao país aumenta tensão

Também nesta segunda-feira, o presidente americano confirmou a ocorrência do primeiro ataque militar dos Estados Unidos dentro da Venezuela. A ofensiva, que foi liderada pela CIA, é toda envolta em uma narrativa estranha.

Fato é que a tensão só aumenta, e a falta de transparência preocupa, pois fica uma grande incógnita do que acontece daqui para frente.

Primeiro, porque Trump divulgou a informação de uma forma praticamente extraoficial, informalmente, durante uma entrevista a um podcast, sem maiores detalhes nem transparência. Depois de a imprensa americana investigar, sabe-se agora que o ataque atingiu uma instalação costeira que Trump afirma ser usada pelo tráfico de drogas na Venezuela.

Esse seria o primeiro ataque do governo americano à Venezuela sob a alegação de que seria contra o narcotráfico, mas a leitura é que há nisso uma tentativa clara de desestabilizar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a quem Trump já ordenou a saída e já ameaçou com uma guerra.

Até então, Maduro tem dobrado a aposta, dizendo que não vai se render, apesar das ameaças escalarem. Ele chegou a declarar que as forças venezuelanas estão preparadas para defender a soberania e a integridade territorial do país contra as forças imperialistas americanas.

O jornal americano “Wall Street Journal” publicou uma reportagem mostrando que, nas últimas semanas, Maduro vem dançando no palco em comícios, passeando tranquilamente por feiras comerciais, participando de eventos públicos, em uma espécie de reforço da estratégia de mostrar que não está intimidado.

Enquanto isso, os Estados Unidos vêm atacando barcos e petroleiros, apesar de haver uma discussão dentro do país sobre a legalidade das operações, visto que tudo parece ocorrer à margem da lei. Isso preocupa pois há muitos interesses em jogo, como a questão do petróleo da região.

Fato é que a tensão só aumenta, e a falta de transparência preocupa, pois fica uma grande incógnita do que acontece daqui para frente.

Trump não suporta ‘perdedores’, diz diplomata americano sobre Bolsonaro

Em uma entrevista concedida à BBC, John Feeley, ex-embaixador americano no Panamá, declarou que Trump teria rifado o ex-presidente Jair Bolsonaro por não suportar perdedores.

“Assim que Bolsonaro perdeu, ou seja, assim que foi condenado e preso, Donald Trump o viu como um perdedor, e se há algo que Donald Trump não tolera são perdedores”, disse em entrevista à BBC News Brasil.

Além de ex-embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Feeley é considerado um dos maiores especialistas em América Latina do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Ele deixou o governo americano em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, por discordar das decisões dele, e atualmente é diretor-executivo do Centro para a Integridade da Mídia das Américas.

Na entrevista à BBC, ele também avaliou que o recuo de Trump em relação às tarifas contra o Brasil seria menos uma vitória diplomática do governo Lula e mais o resultado de um comportamento errático, imprevisível e personalista do presidente americano.

Nesse sentido, ele considera que Lula teve sorte, e aconselhou o presidente brasileiro a manter distância de Trump, uma figura realmente imprevisível. Ou seja, Lula deu sorte ali, mas pode não ter a mesma sorte mais à frente.

A pergunta que fica para o próximo ano é: o que Lula vai dar em troca para Trump?

Assista à análise completa de Letícia Duarte no Matinal desta terça-feira (20):

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