Entrevista

Sem alternativa a Macron, extrema-direita cresce, avalia brasileira parlamentar na França

Integrante do partido França Insubmissa, a professora Silvia Capanema fala ao Lisboa Connection sobre a esquerda francesa e a relevância de Lula e do Brasil no país europeu

Publicado em 08/02/2026 às 06:00
Presidente francês, Emmanuel Macron, em evento no Palácio Elysee em 06 de fevereiro de 2026. (Foto de Benoit Tessier / POOL / AFP)

Mineira de origem, Silvia Capanema construiu sua atuação política a milhares de quilômetros do Brasil. Hoje, ela é parlamentar na França e representa Seine-Saint-Denis, periferia ao norte de Paris marcada pela desigualdade social, pela forte presença de imigrantes e por uma população majoritariamente jovem. É nesse território, considerado o mais pobre da França continental, que a professora da Sorbonne Paris Nord exerce o mandato de conselheira departamental, um posto entre vereador e deputado estadual.

Em entrevista ao Lisboa Connection, a integrante do França Insubmissa, principal partido da esquerda francesa, falou sobre os desafios de reorganizar o campo progressista em um país marcado pela crise de representação política e pelo avanço da extrema-direita. Capanema comentou ainda as disputas em torno do acordo entre o Mercosul e a União Europeia e destacou o papel que o Brasil voltou a ocupar no cenário internacional durante o governo Lula.

Na conversa, ela analisou os impasses da esquerda diante da impopularidade do presidente Emmanuel Macron e da ausência de uma tendência clara para as eleições presidenciais de 2027. Ao relembrar o pleito legislativo anterior, vencido pela esquerda, resumiu o cenário: “Se tiver uma alternativa, o povo vai votar”.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo ao final do texto. 

Silvia Capanema em entrevista ao Lisboa Connection (Foto: Amado Mundo)

Você se identifica como franco-brasileira?
É um duplo pertencimento. Quando estou na França, tem sempre o Brasil, e quando estou no Brasil, tem sempre a França. 

Qual a sua história com a França?
Em 2001, fiz um intercâmbio em Clermont Ferrand e depois fui aceita diretamente no mestrado da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESS). A política veio depois do doutorado. No Brasil estive envolvida no movimento estudantil. Quando fui morar em Saint Denis, depois de defender a minha tese em 2010, entrei na Frente de Esquerda (FdG). Depois, fui para o Partido Comunista Francês (PCF) e hoje estou no França Insubmissa (LFI), que é a esquerda. 

Quais os desafios de ser professora estrangeira em uma universidade tão renomada como a Sorbonne?
Passei no concurso assim que defendi a tese. Sou historiadora do Departamento de Línguas, na Sorbonne Paris Nord. Discutimos gênero, raça, classe, como usar literatura e ciências humanas.

Como foi a transição do Partido Comunista Francês para França Insubmissa?
Ainda trabalho com o PCF, tanto que na França Insubmissa temos o núcleo Insubmissos Comunistas, do qual faço parte. Mas o PCF ficou difícil. A França Insubmissa inova tanto no discurso, quanto na forma de romper com um tipo de gestão que existia na França, que é orçamentária e privatiza. Ela corresponde mais à minha visão de comunismo. Uma sociedade em que as mulheres e os imigrantes têm um papel muito maior do que anos atrás.

Eles são contra o acordo Mercosul-União Europeia?
São contra o acordo, assim como quase todos os franceses. Quando o Lula veio, o Eric Coquerel, nosso deputado, se encontrou com ele e com o Jean-Luc Mélenchon. Eles falaram que nós podemos pensar num acordo que beneficie produtos franceses que não são vendidos no Brasil e América do Sul e em benefícios para produtos brasileiros e latinos que não são produzidos na França. Hoje, a gente vê uma miséria entre os camponeses franceses, suicídios e pobreza extrema, justamente por causa dos acordos de livre comércio. 

“A França Insubmissa inova tanto no discurso, quanto na forma de romper com um tipo de gestão que existia na França, que é orçamentária e privatiza.”

Como é para você, brasileira, lidar com este tema que divide opiniões?
Tenho uma visão de mundo pela transformação social, pelo comunismo como comum. Vou me situar, seja no Brasil ou na França, nesta linha de pensamento. O Mercosul-UE precisa chegar a um acordo que vai privilegiar uma agricultura camponesa e familiar, que não cause prejuízo para a agricultura francesa. A mesma coisa vale para o Brasil.

Produtores agrícolas de Estrasburgo, na França, protestam com tratores contra a assinatura do tratado de livre comércio da União Europeia com o Mercosul. (Foto: Frederick Florin/AFP)

Você vem de Saint-Denis, uma região periférica em Paris, conhecida pela violência. Quais os desafios de ser uma política?
O meu cargo é de conselheira departamental. É mais que vereador e menos que deputado estadual, porque não temos estados. A França é uma união. Fui eleita em câmara paritária, 50% homens, 50% mulheres. Saint-Denis é periferia, é o departamento mais pobre da França continental e é um território de imigração.

“Tenho uma visão de mundo pela transformação social, pelo comunismo como comum. Vou me situar, seja no Brasil ou na França, nesta linha de pensamento.”

Como foi a sua entrada na política?
Eu me aproximei dos movimentos feministas e do partido comunista, na época era o Front de Gauche. O Jean-Luc Mélenchon era e ainda é uma referência. Ele despontava e, pela primeira vez, eu ouvi algo interessante no espaço político. O Lula também é grande referência. Entrei na política aqui na lista municipal de 2014. Comecei com democracia local. Vieram as eleições departamentais e obtive um cargo no Executivo. Depois fui reeleita.

Na foto, os presidentes da França, Emmanuel Macron, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Como o Lula é visto na França?
Adorado. Nós aqui votamos 80% Lula nas últimas eleições. Da classe política francesa, ele tem ótimas relações que vão do Sarkozy ao Mélenchon, passando por Macron.

Como você vê a relação entre o Macron e o Lula?
É bem positiva.

Para o Macron é muito bom aparecer com o Lula.
Sim. A popularidade dele é muito menor do que a do Lula. 

A relação dos dois poderia indicar que a União Europeia está começando a enxergar o Brasil como um líder do Sul Global? 
Já enxerga e pode enxergar mais. Um dos nossos papéis aqui é mostrar que se deve enxergar ainda mais a importância do Brasil no exterior e de várias políticas [internas] que são interessantes.  

Qual a situação política real do Macron hoje?
É ruim, está bastante isolado. A aprovação dele é horrível. Consegue uma coisa ou outra por chantagem e negociação. Não tem sucessor e não tem partido.

E o Jordan Bardella (político ultradireitista)?
É uma figura ausente. Existe uma questão que é uma fatalidade e uma falta de imaginação política muito grande das esquerdas. Ele vai ser eleito se continuar o François Hollande ou o Macron. Achamos, porém, que podemos propor outro projeto.

Nas últimas eleições, dava como certo a extrema-direita ganhar, mas a esquerda ganhou. Qual foi a razão?
As pessoas foram votar em outra coisa que não fosse a extrema-direita. E escolheram a esquerda, que estava unida.

Qual a estratégia da esquerda francesa para lidar com o voto não obrigatório?
É propor um projeto alternativo real – retomar direitos, aposentadoria, taxar grandes fortunas.

O que a política brasileira pode aprender com a francesa, e vice-versa?
A reforma política da sexta República francesa pode ter algumas questões que existem na Constituição Brasileira de 1988, que é bastante avançada. E, no contrário, o Brasil poderia ter novos corpos eletivos numa escala menor que vereador, outras instituições eletivas com poder democrático.

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