Entrevista

Tabata Amaral: ‘A candidatura de Flávio Bolsonaro não é de direita, é o projeto de uma família’

No Matinal, deputada revela conversas otimistas com Tebet e Marina Silva e alerta para a 'indústria do ódio' que impulsiona o feminicídio no Brasil

11/03/2026 às 12:39 · Atualizado há 7 meses
Deputada Tabata Amaral (PSB-SP). Crédito: Rovena Rosa / Agência Brasil

Em entrevista ao Matinal desta quarta-feira (11), a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) analisou o cenário eleitoral de 2026 em São Paulo e no Brasil, marcado pela ausência de alguns dos principais puxadores de voto do estado e pela reorganização do campo da direita após a prisão e inelegibilidade de Jair Bolsonaro.

Sobre a consolidação de Flávio Bolsonaro como o candidato à Presidência pela oposição, Tabata foi enfática: “Eu não considero a candidatura de Flávio Bolsonaro como uma candidatura da direita. Qual é o projeto de país dele? Eu acho que seria muito positivo para o país se nós tivéssemos uma direita ou centro-direita, mas nesse momento ela não existe. Esse projeto é em torno de uma família e de salvá-la. Não é um projeto que pensa a economia, o desenvolvimento ou o futuro”. A deputada também detalhou as articulações do PSB para a corrida eleitoral.

Ao comentar os efeitos do caso Master na política, Tabata defendeu a criação de um código de ética e conduta para ministros do Supremo Tribunal Federal – pauta defendida pelo presidente do STF, Edson Fachin, mas que enfrenta resistência dos demais ministros. ”Eu espero que nesse momento tão desafiador que a gente está vivendo, se a gente puder tirar uma coisa positiva disso, é o apoio massivo ao presidente [Edson] Fachin pela aprovação desse código de conduta”, declarou.

A deputada falou ainda sobre a aprovação, no Congresso, da ampliação da licença-paternidade e o crescimento dos casos de feminicídio e da violência de gênero no Brasil. “Fazia tanto tempo que eu não sentia tanto medo, tanto ódio, tanta raiva. A gente que é mulher não aguenta mais”, desabafou.

Leia abaixo trechos da entrevista ou assista ao vídeo ao final do texto.

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Matinal: Como a senhora avalia a atual polarização política e a candidatura de Flávio Bolsonaro?

Tabata Amaral: Eu não considero a candidatura de Flávio Bolsonaro como uma candidatura da direita. Porque qual é o projeto de país de Flávio Bolsonaro? Eu não sei dizer para vocês qual é o projeto de Flávio Bolsonaro para além do que a gente conhece, que é o projeto da família Bolsonaro, que é se salvar acima de tudo, que é se proteger acima de tudo, que é impedir que essa família, que carrega inúmeras acusações de corrupções muito graves, seja investigada. Talvez nós tivéssemos ali, em outras figuras, a possibilidade de uma candidatura à direita ou centro-direita, mas essa possibilidade segue aniquilada enquanto o bolsonarismo e a família Bolsonaro apequenam o debate em torno dessa família.

Sinto falta de ter um projeto de país. O PSDB encolheu muito em São Paulo e isso faz falta para a democracia. Faz falta ter um projeto de centro-direita com o qual eu possa discordar, mas que seja sobre projetos, sobre visão de mundo, e não sobre o destino de uma família. Enquanto a extrema-direita pautar o debate apenas pela ideologia e pelo radicalismo, a gente perde a chance de discutir o que realmente importa para o povo paulista. Vale a pena, faz sentido a gente continuar elegendo deputados que às vezes alcançam 500 mil votos, um milhão de votos, simplesmente porque eles chegam numa eleição e dizem: ‘eu sou o maior representante desse extremo’?

Matinal: Como estão as articulações do PSB com nomes como Marina Silva e Simone Tebet?

Sigo conversando com convites muito enfáticos, tanto com a ministra Marina Silva, quanto com a ministra Simone Tebet, por entender que a gente tem que juntar os melhores para servir ao nosso estado. A gente tem aí até o dia 4 de abril, que é o dia da janela partidária, para que as filiações aconteçam. Eu não tenho hoje como dizer quem que vai ser candidato a Senado, quem vai ser candidato ao governo, mas o que eu posso dizer é que esse é o momento de a gente montar o nosso time. E diferente de outras lideranças, que montam o time a base de muito dinheiro, de muito fundo partidário. A gente acredita que o que importa é ter gente boa, é ter projeto de país. E são conversas que a gente tem há algum tempo. Essas conversas ainda vão acontecer até o dia 4 de abril, mas eu estou bastante otimista. Eu acredito que essas últimas filiações que nós tivemos de grandes mulheres sinalizam para onde está indo o PSB.

Qual sua posição sobre a crise do Banco Master e o possível envolvimento de ministros do STF?

Daniel Vorcaro, para além de ser um criminoso e de ter sido o articulador de um dos maiores escândalos de corrupção nos últimos anos, fazia isso com muita arrogância. Ele se gabava de que ele seria intocável. Diante desse escândalo todo, acho que a pior coisa que pode acontecer para o nosso Brasil, e para a nossa democracia, é que esse caso seja abafado. Todo mundo que tinha alguma relação com o Daniel Vorcaro precisa se explicar. Qualquer denúncia deve ser formalizada, para que ela possa, de fato, ser investigada. Isso cabe a senadores, isso cabe a governadores, isso cabe também a ministros do STF.

Outro tema que pode parecer super técnico, mas que é um desejo do presidente do STF hoje, ministro Edson Fachin, é o código de conduta, para que a gente tenha clareza do que pode e o que não pode um ministro do STF fazer, e também quem está no entorno desses ministros. A gente sabe que o presidente Fachin não conta com o ampla apoio dos ministros do STF para esse código de conduta, que é como se fosse um manual, um conjunto de regras para dizer ”isso gera conflito de interesse, isso não gera”. Inclusive, sou uma das autoras da PEC 16/2019, que coloca essa obrigatoriedade de que os ministros do STF sigam esse código.

O Brasil enfrenta um recorde de feminicídios. O que está por trás dessa escalada de violência?

Fazia tanto tempo que eu não sentia tanto medo, que eu não sentia tanto ódio, que eu não sentia tanta raiva. Acho que nós que somos mulheres não aguentamos mais. Essa radicalização, o aumento do ódio contra as mulheres, ele está intimamente ligado ao que acontece dentro das plataformas. Hoje, o ódio à mulher não é uma coisa que move alguns radicais que estão lá no Discord, por exemplo. Não, hoje, o ódio às mulheres é uma indústria. Tem algoritmos que estão sendo proativos em capturar esses jovens, em radicalizar esses jovens, e incentivar essa violência toda. As plataformas têm que ser responsabilizadas, têm que fazer a sua parte, porque hoje elas são cúmplices disso.

Qual a importância da ampliação da licença-paternidade aprovada pelo Congresso?

Nós ampliamos a licença-paternidade para enfrentar a depressão pós-parto, para enfrentar toda a desigualdade no mercado de trabalho para cuidar da criança. A cada duas mulheres que tiram a licença-maternidade, passa um ano depois, uma não está empregada. Parte não está empregada porque hoje o mercado de trabalho te penaliza por ser mãe. O pai também está precisando desse período. Eu tenho certeza que, quando a gente chegar lá em 2029, os pais vão estar do nosso lado dizendo que 20 dias é muito pouco.

Assista à íntegra da entrevista de Tabata Amaral ao Matinal:


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