Discurso de Flávio sobre urnas não mira o eleitor Brasileiro, mas, sim, Trump
Fala mentirosa que levanta suspeição sobre as urnas eletrônicas tem como alvo uma possível intervenção política dos EUA nas eleições brasileiras

Nos últimos meses, aliados de Flávio Bolsonaro vinham tentando construir para ele uma “casca de moderação”, apresentando-o como um candidato que não repetiria os erros e métodos do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente o uso da mentira como arma política. No entanto, ao retomar um dos principais discursos de 2022 e espalhar inverdades sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro, o senador deixou sua máscara cair.
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O contexto das falas de Flávio Bolsonaro
Nesta semana, durante um encontro em Brasília com embaixadores e chefes de missões diplomáticas, Flávio ressuscitou uma teoria da conspiração para atacar as urnas eletrônicas. O senador afirmou aos presentes que as urnas brasileiras teriam a mesma origem das máquinas da empresa venezuelana Smartmatic.
Para dar verniz à sua fala, ele citou um suposto relatório de inteligência dos Estados Unidos sobre fraudes nas eleições venezuelanas e declarou textualmente que “muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”.
Essa comparação é falsa e já foi desmentida pela Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já atestou que a Smartmatic nunca forneceu urnas ou softwares para as eleições no Brasil; a empresa apenas prestou serviços de conexão de dados em contratos antigos e, inclusive, chegou a perder uma licitação para a desenvolvedora brasileira das urnas eletrônicas.
O que assistimos foi um quadro direto do “túnel do tempo”, lembrando exatamente a fatídica reunião que Jair Bolsonaro fez com embaixadores em 2022. Aquela reunião, vale lembrar, foi o objeto central julgado pelo TSE por abuso de poder político e que levou o ex-presidente à inelegibilidade.
O eleitor pêndulo e o erro estratégico interno
Diante desse histórico de derrota nas urnas e na Justiça, me pergunto qual é a estratégia de Flávio ao fazer isso. Se analisarmos o eleitorado, esse movimento não faz sentido algum para ganhar a eleição. O eleitor bolsonarista mais radical, que acredita nessas mentiras sobre as urnas, já vai votar em Flávio de qualquer jeito; ele não precisa convencer esse grupo.
Por outro lado, o grande desafio dele para vencer é atrair o “eleitor pêndulo” e independente — aquela parcela da população que hoje desaprova o governo Lula, mas que em 2022 votou no PT justamente por ver em Bolsonaro uma grave ameaça democrática. Ao atacar o sistema eleitoral, Flávio afasta esse eleitor moderado e dificulta a sua própria capacidade de mobilizar os votos de que precisa matematicamente para vencer.
O verdadeiro alvo: Donald Trump
Se o alvo não é o eleitor moderado brasileiro, trago o segundo elemento dessa análise, que revela o verdadeiro foco de Flávio: ele está mirando o discurso para fora do país, voltado diretamente para Donald Trump.
Existe uma diferença de cenário internacional entre 2022 e a eleição atual. Na eleição passada, o presidente dos EUA era Joe Biden, e o seu governo articulou um recado muito claro de que confiava nas urnas brasileiras, não toleraria tentativas de golpe de Estado e reconheceria imediatamente o vencedor atestado pelo TSE. Agora, o presidente americano é Trump, alguém com uma afinidade muito maior com a família Bolsonaro e que já demonstrou que não se opõe a tomar medidas que interfiram na política local de outros países.
Ao dizer aos diplomatas para mandarem “quantos observadores eleitorais vocês puderem” para o Brasil, Flávio está plantando a semente da suspeita. Essa radicalização não é para angariar votos internamente, mas, sim, um flerte perigoso focado em criar um ambiente político propício para questionamentos externos, contando com o peso e a presença do governo Trump no pós-eleição. Flávio pode até tentar minimizar, nos próximos dias, o que disse, mas o recado já foi dado. Para o jogo democrático, ter um dos principais candidatos colocando em xeque nosso sistema de votação continua sendo uma ameaça assustadora.
Assista ao Matinal desta quarta-feira (22/7) na íntegra: