Beatriz Bulla

Análises sobre política e economia

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Análise

Discurso de Flávio sobre urnas não mira o eleitor Brasileiro, mas, sim, Trump

Fala mentirosa que levanta suspeição sobre as urnas eletrônicas tem como alvo uma possível intervenção política dos EUA nas eleições brasileiras

22/07/2026 às 11:39 · Atualizado há 3 meses
Flávio Bolsonaro e Donald Trump
O senador Flávio Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Divulgação)

Nos últimos meses, aliados de Flávio Bolsonaro vinham tentando construir para ele uma “casca de moderação”, apresentando-o como um candidato que não repetiria os erros e métodos do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente o uso da mentira como arma política. No entanto, ao retomar um dos principais discursos de 2022 e espalhar inverdades sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro, o senador deixou sua máscara cair. 

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O contexto das falas de Flávio Bolsonaro

Nesta semana, durante um encontro em Brasília com embaixadores e chefes de missões diplomáticas, Flávio ressuscitou uma teoria da conspiração para atacar as urnas eletrônicas. O senador afirmou aos presentes que as urnas brasileiras teriam a mesma origem das máquinas da empresa venezuelana Smartmatic. 

Para dar verniz à sua fala, ele citou um suposto relatório de inteligência dos Estados Unidos sobre fraudes nas eleições venezuelanas e declarou textualmente que “muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”.

Essa comparação é falsa e já foi desmentida pela Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já atestou que a Smartmatic nunca forneceu urnas ou softwares para as eleições no Brasil; a empresa apenas prestou serviços de conexão de dados em contratos antigos e, inclusive, chegou a perder uma licitação para a desenvolvedora brasileira das urnas eletrônicas. 

O que assistimos foi um quadro direto do “túnel do tempo”, lembrando exatamente a fatídica reunião que Jair Bolsonaro fez com embaixadores em 2022. Aquela reunião, vale lembrar, foi o objeto central julgado pelo TSE por abuso de poder político e que levou o ex-presidente à inelegibilidade. 

O eleitor pêndulo e o erro estratégico interno

Diante desse histórico de derrota nas urnas e na Justiça, me pergunto qual é a estratégia de Flávio ao fazer isso. Se analisarmos o eleitorado, esse movimento não faz sentido algum para ganhar a eleição. O eleitor bolsonarista mais radical, que acredita nessas mentiras sobre as urnas, já vai votar em Flávio de qualquer jeito; ele não precisa convencer esse grupo. 

Por outro lado, o grande desafio dele para vencer é atrair o “eleitor pêndulo” e independente — aquela parcela da população que hoje desaprova o governo Lula, mas que em 2022 votou no PT justamente por ver em Bolsonaro uma grave ameaça democrática. Ao atacar o sistema eleitoral, Flávio afasta esse eleitor moderado e dificulta a sua própria capacidade de mobilizar os votos de que precisa matematicamente para vencer. 

O verdadeiro alvo: Donald Trump

Se o alvo não é o eleitor moderado brasileiro, trago o segundo elemento dessa análise, que revela o verdadeiro foco de Flávio: ele está mirando o discurso para fora do país, voltado diretamente para Donald Trump. 

Existe uma diferença de cenário internacional entre 2022 e a eleição atual. Na eleição passada, o presidente dos EUA era Joe Biden, e o seu governo articulou um recado muito claro de que confiava nas urnas brasileiras, não toleraria tentativas de golpe de Estado e reconheceria imediatamente o vencedor atestado pelo TSE. Agora, o presidente americano é Trump, alguém com uma afinidade muito maior com a família Bolsonaro e que já demonstrou que não se opõe a tomar medidas que interfiram na política local de outros países. 

Ao dizer aos diplomatas para mandarem “quantos observadores eleitorais vocês puderem” para o Brasil, Flávio está plantando a semente da suspeita. Essa radicalização não é para angariar votos internamente, mas, sim, um flerte perigoso focado em criar um ambiente político propício para questionamentos externos, contando com o peso e a presença do governo Trump no pós-eleição. Flávio pode até tentar minimizar, nos próximos dias, o que disse, mas o recado já foi dado. Para o jogo democrático, ter um dos principais candidatos colocando em xeque nosso sistema de votação continua sendo uma ameaça assustadora.

Assista ao Matinal desta quarta-feira (22/7) na íntegra:

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