Segundo mandato de Trump é um projeto de destruição
Com decretos em série, confronto institucional e desprezo por limites, Trump governa pelo choque e normaliza a ruptura como método de poder, avalia Letícia Duarte.
O primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump não foi apenas intenso, foi deliberadamente destrutivo. Tratou-se de uma “bola de canhão”, um governo que optou pelo choque permanente, pela força bruta e pelo desprezo aberto aos limites institucionais.
A imagem simbólica da reforma da Casa Branca, parcialmente demolida para dar lugar a um salão de baile, sintetiza bem esse projeto de poder: não há apego à tradição, à liturgia ou à moderação. Há espetáculo, imposição e ruptura.

Diferentemente do primeiro mandato, que já parecia extremo à época, o Trump 2.0 abandonou qualquer tentativa de dourar a pílula.
Vieram decretos em série, perseguição explícita a adversários políticos, repressão agressiva à imigração, intimidação direta de universidades e ataques sistemáticos à ciência.
Historiadores presidenciais apontam que o ritmo e a natureza das mudanças não encontram paralelo na história americana recente. A presidência virou um reality show: tudo é performático, excessivo e pensado para manter a tensão constante.
Na política migratória, os números desmontam o discurso de “lei e ordem”. Prisões e deportações atingiram inclusive cidadãos americanos e portadores de green card, e ao menos um terço dos alvos não tinha antecedentes criminais. O ataque ao direito à cidadania por nascimento, agora judicializado, marca um ponto particularmente grave de erosão democrática.
Ainda assim, os resultados prometidos à base trumpista não vieram: inflação persistente, custo de vida elevado e frustração econômica abriram fissuras inclusive entre apoiadores históricos.
No plano institucional, um dos danos mais profundos talvez esteja no ambiente universitário. Ao colocar universidades como Columbia e outras da Ivy League “debaixo do sapato”, Trump mina um dos pilares centrais do poder americano no mundo: a produção de conhecimento.
O contraste com Harvard, que resistiu à pressão, expõe uma disputa maior entre submissão e autonomia intelectual.
Paralelamente, a instrumentalização da Guarda Nacional e o flerte com soluções autoritárias ampliam o sinal de alerta para as eleições de meio de mandato.
O caso Epstein, longe de encerrar o assunto, adicionou mais instabilidade ao governo. A liberação parcial e censurada de documentos, as suspeitas de proteção política e a circulação de informações contraditórias corroeram a credibilidade da administração, inclusive entre trumpistas.
O escândalo atravessa partidos e fura a bolha da polarização: o que emerge é uma elite política e econômica com vínculos opacos demais para qualquer discurso moralista sobreviver intacto.
Trump começou quebrando tudo. Agora tenta, aos poucos, “limpar o salão” e negociar os escombros. Mas os danos estão postos.
Com queda consistente de popularidade, críticas internas no Partido Republicano e a aproximação das midterms, o segundo mandato entra em sua fase mais imprevisível. Se o primeiro ano foi de demolição, o próximo dirá se ainda existe algo sólido para sustentar, ou se a política americana seguirá vivendo sob o impacto permanente do choque.
Assista à análise de Letícia Duarte no Matinal de sexta-feira (26):