Reportagem

O Brasil em Hollywood: o legado histórico de ‘O agente secreto’ no Oscar 2026

Enviada especial em Los Angeles, a jornalista Isabella Faria detalha o clima de festa da delegação brasileira antes do prêmio e critica a vitória do norueguês 'Valor sentimental'

16/03/2026 às 11:59 · Atualizado há 7 meses
Wagner Moura chega ao tapete vermelho do Oscar acompanhado de Sandra Delgado (Foto de Emma McIntyre / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)

O Oscar pode não ter rendido a segunda estatueta de Melhor Filme Internacional para o Brasil, mas consolidou um momento histórico para o cinema nacional. Pelo segundo ano consecutivo, o país figurou entre os indicados da categoria — após o sucesso de “Ainda estou aqui”, premiado em 2025 —, desta vez com “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Além da disputa principal, a obra fez história com a indicação inédita de Wagner Moura como Melhor Ator e a de Gabriel Domingues na estreante categoria de Melhor Direção de Elenco.

Diretamente de Los Angeles, a jornalista e crítica de cinema Isabella Faria acompanhou de perto os bastidores da cerimônia e o clima da delegação brasileira. Para ela, o sentimento nos dias que antecederam a premiação era de dever cumprido, independentemente do resultado final.

“A gente conseguia ver uma alegria generalizada, dos coadjuvantes ao elenco principal, e de toda equipe. Acredito que tinha pouco a ver com possibilidade de vitória e mais a ver com o fato de que eles estavam em Los Angeles. Isso pra eles já é absurdo, pra todos nós já é absurdo. Eles estavam radiantes de poder levar o filme pra uma premiação, pra maior premiação do cinema mundial.” 

Frustração com vitória de norueguês

Apesar do clima festivo, Isabela não poupou críticas à vitória do filme norueguês “Valor sentimental” sobre o brasileiro. Para a especialista, a escolha da Academia refletiu uma tendência menos conectada com identidades culturais do país, destoando da força regional e política do filme brasileiro.

“Quando ‘Valor sentimental’ ganha uma categoria como Melhor Filme Internacional fico incomodada porque é um filme que tem 25% dos seus diálogos em inglês, além de duas estrelas de Hollywood estrelando o filme, que são Stellan Skarsgård e Elle Fanning, ambos, inclusive, indicados como Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante. E não há nenhum aceno mais profundo à cultura norueguesa dentro desse filme.” 

A jornalista ressaltou que, enquanto outros indicados traziam temas urgentes, como a ditadura no Irã ou a cultura das raves no deserto, o vencedor se manteve em uma zona de conforto.

“Diferente do filme ‘O agente secreto’, que é um filme absolutamente brasileiro, recifense, pernambucano. E, a partir dessa regionalidade, existe cinema brasileiro. Mas a partir da cidade do Kleber, que é Recife, ele conseguiu encantar o mundo inteiro e mostrar a nossa cultura, algo que ‘Valor sentimental’ não fez.” 

Isabella Faria reforçou ainda que o filme norueguês, embora bem executado, falhou em trazer algo novo para a premiação.

“É uma história que já existe: a de um pai ausente com as filhas que tem ali suas complicações, mas a gente não se identifica com mais nada nesse filme. Fiquei frustrada, infelizmente.” 

Assista à íntegra da entrevista de Isabella Faria ao Matinal desta segunda (16):

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