Entrevista

Eleições 2026: como conquistar o voto da geração Z?

Questões sócio-econômicas, pautas identitárias, aversão a partidos políticos, ascensão de red pills... Tudo o que deve ser levado em conta pelos candidatos, segundo Renato Meirelles, especialista em comportamento político e consumo

28/04/2026 às 16:15 · Atualizado há 5 meses
Roberto Jayme/Ascom/TSE (Foto Agência Câmara de Notícias)

O voto da geração Z — os nascidos a partir do final dos anos 1990 até o início de 2010, correspondendo a uma faixa etária que vai dos 16 anos até quase 30 — pode ser decisivo nas eleições de 2026, o que é um desafio para ambos os lados da disputa política.

A geração Z é o público que mais se distancia da polarização política, segundo pesquisa da Quaest, que mostrou que 76% dos jovens não se identificam como lulistas nem como bolsonaristas — um contraste com o eleitorado de mais de 60 anos, onde apenas 8% quer um candidato fora da polarização Lula ou Bolsonaro, segundo dados de uma pesquisa da Nexus. Segundo um levantamento do Atlas/Intel, a maior desaprovação do governo Lula também está justamente entre os eleitores nessa faixa, com 75% de rejeição à gestão do atual presidente.

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Ao mesmo tempo, trata-se de um recorte da população mais inclinado à defesa das pautas progressistas, embora não se conectem com a esquerda. Por fim, a fidelidade partidária é muito baixa, e a decisão de voto, muitas vezes, acontece bem mais perto da eleição do que em outras faixas de idade.

Mas o que mais diferencia essa geração das anteriores é que é a primeira que cresceu em um mundo totalmente conectado à internet e com acesso instantâneo à informação — o que moldou a forma de pensar, se comunicar e interagir. Além de mais conectada, é também uma geração mais ansiosa com o futuro e ao mesmo tempo mais desconfiada dos políticos e das instituições.

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Até as eleições, portanto, deve haver movimentos de ambos os lados para tentar capturar essa parcela de eleitores, e o PT tem um desafio extra que é a comunicação digital, historicamente deficiente entre candidatos de esquerda.

Em entrevista ao Matinal desta terça-feira (28), o presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, Renato Meirelles, comentou esses desafios e afirmou que, apesar das singularidades, não se trata de um público uniforme quando o tema é política. Nas eleições de 2026, portanto, esse fato impacta diretamente — e sob vários vieses — na forma como enxergam e se relacionam com os pré-candidatos à presidência da República. 

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Leia abaixo os destaques ou assista à íntegra da entrevista em vídeo ao final do texto:

Recortes sócio-econômicos: ‘uberização’, Bolsa Família e Prouni

“Não dá para achar que a geração Z é uniforme. Há uma geração Z que está trabalhando de Uber ou como entregador. Você tem uma outra geração Z que está trabalhando como estagiário num escritório de advocacia. Não dá para pensar que uma geração Z é a mesma coisa do que a outra geração Z. A que está no escritório de advocacia já começa a dar uma atenção especial a dados sobre moral, por exemplo, sobre o que está acontecendo ou não no STF, se o caso Master é de responsabilidade do governo, da oposição ou dos dois. Já quando você fala com o motorista de aplicativo, por exemplo, ou com o entregador da geração Z — e vale lembrar que a grande maioria dos entregadores são da geração Z —, eles querem saber o que o governo vai fazer para proteger o seu rendimento, se ele terá acesso à Previdência, como que o poder público pode ajudá-lo se ele sofrer um acidente no meio do trabalho e tiver que ficar cinco dias sem trabalhar…

Outro dado: essa geração Z é agora a primeira geração de pessoas filhas do Bolsa Família, cujas mães receberam o benefício, em especial no Nordeste do país. E ele estudou porque isso era uma contrapartida para o Bolsa Família e agora está conseguindo arranjar o seu emprego. Ele tem um tipo de relação com o governo diferente de quem não teve — isso também não quer dizer que é tudo igual, em cada um desses grupos pode ter uma exceção, mas estou falando das regras. Há outras regras de quem foi prounista e quem não foi prounista [quem fez curso superior através do Programa Universidade para Todos, criado em 2004]. São relações com o governo [petista] que acabam interferindo na vida dessas pessoas.”

Estratégia e comunicação digital

“Há caminhos diferentes de acordo com a inclinação dos jovens e dos diferentes grupos que eles têm. Mas o humor, por exemplo, é transversal em todos os grupos: quando algo vira um meme de verdade, ele ultrapassa as bolhas. Vamos pegar como exemplo um político que não está disputando esta eleição para não parecer partidário: a comunicação do ministro Guilherme Boulos há duas eleições de prefeitos atrás. Falavam que ele era muito radical, e daí colocaram ele em cima de um skate em São Paulo para transformar isso num meme. Esse é um caminho. O caminho dos videozinhos é um outro caminho.

O que não pode é subestimar a inteligência desses jovens (…). Portanto, o que não fazer: não minta, porque esse jovem conectado vai descobrir a fake news, vai descobrir a mentira.

Idade do candidato faz diferença?

“Sobre o impacto da idade do presidente Lula entre esses jovens. Queria lembrar que o Mujica, ex-presidente do Uruguai morto em 2025, falava bem com jovens, mesmo sendo muito mais velho. Então, tem muito mais a ver com a postura e com o que se fala do que com a idade efetivamente do candidato. Sou daqueles que não acham [que idade impacta], a não ser que você esteja como o Biden [candidato democrata que desistiu das eleições americanas no meio da campanha após piora na saúde], que não conseguia nem andar ou falar direito, então a idade não é um grande ponto no processo de escolha dos candidatos. Acho que o espírito jovem, falar para o jovem, faz diferença.

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Os memes positivos do Lula fazendo ginástica, por exemplo, têm um efeito no eleitorado. Para o eleitorado de meia-idade ou da geração X, pode ser lido como ‘nossa, ele se preocupa com a saúde’. Para os mais jovens, da geração Z, eles acham divertido ver o Lula malhando, correndo, embora não tenha essa relação tão grande de admiração. Mas ambos gostam desse movimento.”

Pautas progressistas e avesão a partidos políticos

“Parte da geração Z é mais progressista, tem identificação com essas pautas, mas não tem identificação com partidos e nem com a esquerda tradicional. Como que se explica esse perfil? São pessoas que cresceram achando que [a classe política] é todo mundo igual. São pessoas que não votavam em 2013 [época das manifestações anti-establishment na política] e passaram a votar hoje. Então, eles cresceram numa situação achando que, se é político, tem alguma coisa estranha. Sem juízo de valor, mas são o que mostram as pesquisas. Então eles tendem a achar que é todo mundo igual.

Também há dois lados com valores muito específicos. Há os que defendem as pautas que alguns chamam de identitárias — mas que, se algum dos candidatos entra muito nessas pautas, há um outro eleitorado, um pouco mais velho e conservador, que fica incomodado. E há um outro movimento que concentra, por exemplo, os red pills. A gente tem visto um crescimento de misoginia formado basicamente por jovens, com perfis de maior militância na internet.

Então se a gente fala como utilizar as redes sociais e a internet a favor de determinadas candidaturas, nós temos que entender que isso tem prós e tem contras, eles são mais engajados na internet, eles compartilham mais conteúdos, mas, por outro lado, são conteúdos mais radicais que acabam afastando um eleitorado mais velho. Então, é como se as candidaturas ficassem mais à mercê dos algoritmos.”

Assista à entrevista completa no Matinal:

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