Guerra no Irã: por que a Europa hesita em confrontar Trump — e acaba favorecendo Putin?
Dependência estratégica da inteligência dos EUA na condução da Guerra da Ucrânia trava diplomacia europeia, enquanto russos lucram com alta do petróleo

A escalada do conflito no Irã, impulsionada por Trump, vem encontrando pouca ou nenhuma ressonância na Europa, que evita confrontar Washington enquanto mantém seus recursos políticos e militares concentrados na guerra da Ucrânia — um esforço prolongado que, somado à dependência estratégica da inteligência americana, limita qualquer disposição de enfrentamento.
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Já é consenso que a ofensiva contra o Irã partiu de uma decisão de Trump, alinhado a interesses de Israel, que acabou por arrastar os Estados Unidos para o conflito — sem que haja, até o momento, ganhos estratégicos claros para o presidente americano, nem explicações convincentes sobre os motivos de sua adesão à incursão.
Para a Europa, a conjuntura é agravada pela guerra da Ucrânia, que ocorre em seu território e é custeada integralmente pelos europeus há mais de um ano (desde que os Estados Unidos pararam de enviar recursos). Mas a dependência da rede de satélites e da inteligência americana — única no mundo — é um fator vital que impede um confronto mais frontal com Washington.
A falta de coordenação de Washington com seus aliados é tamanha que o chanceler alemão — atualmente o principal político de peso na Europa, visto que o francês Emmanuel Macron termina seu mandato em breve — foi avisado do bombardeio ao Irã apenas alguns minutos antes da operação, impedindo qualquer preparação relativa a segurança ou mesmo estratégia antiterrorismo em um país com vasta população muçulmana.
A corrida pela autonomia na defesa: o exemplo alemão
A Europa está em uma corrida para obter independência na produção e tecnologia de defesa, buscando reduzir a dependência dos Estados Unidos. A Alemanha exemplifica essa mudança ao tentar elevar o status de suas Forças Armadas e investir em sua base industrial.
Um movimento simbólico é a entrada da Volkswagen no setor de defesa, o que não ocorria desde a Segunda Guerra Mundial. A fabricante de automóveis planeja converter uma fábrica na Saxônia para produzir componentes de mísseis e lança-mísseis.
O projeto, que conta com a aprovação de sindicatos, visa inicialmente atender um contrato com Israel, mas sinaliza uma estratégia futura de aproveitar a capacidade produtiva e a engenharia qualificada alemã. Com um investimento previsto de US$ 500 bilhões até 2030, a Alemanha faz uma escolha pragmática de ter uma indústria de defesa local e controlada para não depender de líderes imprevisíveis, em vez de priorizar um conceito puramente pacifista, um movimento que seria impensável 10 anos atrás, quando a Alemanha era vetada de envolver-se com a produção de qualquer elementos de defesa, em função das atrocidades da Segunda Guerra.
De quebra, o país também resolve um outro problema econômico: essa fábrica da Saxônia iria ser fechada diante da alta competitividade da indústria automotiva chinesa, e agora ganha um novo fôlego.
Complexidade histórica e distanciamento estratégico
Diferentemente da abordagem simplista dos Estados Unidos — e do maniqueísmo de Trump —, a visão europeia possui mais nuances ao reconhecer que o Oriente Médio é marcado por séculos de conflitos religiosos e políticos de difícil compreensão.
Portugal, por exemplo, ocupou o Estreito de Ormuz em 1508, mas, na perspectiva iraniana, a disputa era contra o Império Otomano, demonstrando que as tensões transcendem a questão do petróleo.
Portanto, por entender que não existe uma saída favorável imediata, a Europa evita o envolvimento militar direto e mantém um silêncio estratégico, temendo que Trump abandone a OTAN ou cesse o fornecimento de informações via rede de satélites.
Putin é o vencedor da guerra
Diante desse contexto, Putin acabou reposicionado nesse tabuleiro geopolítico e pode ser considerado o principal vitorioso estratégico desse conflito. A economia russa é financiada pelo mercado clandestino de combustíveis, operado por uma frota “sombria” de cerca de mil navios não registrados. Com a alta do preço oficial do petróleo causada pela guerra, o petróleo não oficial russo torna-se mais valorizado, garantindo recursos externos para a Rússia.
Além do ganho financeiro, Putin adquire um novo poder de chantagem geopolítica. Como o Irã não possui satélites próprios, a Rússia tem a capacidade de fornecer a inteligência necessária para guiar mísseis iranianos contra ativos militares americanos. Enquanto os EUA auxiliam a Ucrânia, Putin agora pode oferecer suporte tecnológico ao Irã. Logo, por ora, é o grande vencedor dessa guerra.
Assista à íntegra do comentário de Paulo Dalla Nora Macedo no Matinal desta quinta (26):