Paulo Dalla Nora Macedo

De Lisboa, a conexão entre Brasil e Europa na política, na economia e na cultura

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Análise

Guerra no Irã: por que a Europa hesita em confrontar Trump — e acaba favorecendo Putin?

Dependência estratégica da inteligência dos EUA na condução da Guerra da Ucrânia trava diplomacia europeia, enquanto russos lucram com alta do petróleo

Publicado em 27/03/2026 às 06:00
Ativistas do Greenpeace em Bruxelas criticam importações de combustíveis dos EUA diante da possibilidade do banimento do petróleo russo pela UE em imagem de janeiro de 2026 (Foto de Nicolas TUCAT / AFP)

A escalada do conflito no Irã, impulsionada por Trump, vem encontrando pouca ou nenhuma ressonância na Europa, que evita confrontar Washington enquanto mantém seus recursos políticos e militares concentrados na guerra da Ucrânia — um esforço prolongado que, somado à dependência estratégica da inteligência americana, limita qualquer disposição de enfrentamento.

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Já é consenso que a ofensiva contra o Irã partiu de uma decisão de Trump, alinhado a interesses de Israel, que acabou por arrastar os Estados Unidos para o conflito — sem que haja, até o momento, ganhos estratégicos claros para o presidente americano, nem explicações convincentes sobre os motivos de sua adesão à incursão.

Para a Europa, a conjuntura é agravada pela guerra da Ucrânia, que ocorre em seu território e é custeada integralmente pelos europeus há mais de um ano (desde que os Estados Unidos pararam de enviar recursos). Mas a dependência da rede de satélites e da inteligência americana — única no mundo — é um fator vital que impede um confronto mais frontal com Washington.

A falta de coordenação de Washington com seus aliados é tamanha que o chanceler alemão — atualmente o principal político de peso na Europa, visto que o francês Emmanuel Macron termina seu mandato em breve — foi avisado do bombardeio ao Irã apenas alguns minutos antes da operação, impedindo qualquer preparação relativa a segurança ou mesmo estratégia antiterrorismo em um país com vasta população muçulmana.

A corrida pela autonomia na defesa: o exemplo alemão

A Europa está em uma corrida para obter independência na produção e tecnologia de defesa, buscando reduzir a dependência dos Estados Unidos. A Alemanha exemplifica essa mudança ao tentar elevar o status de suas Forças Armadas e investir em sua base industrial.

Um movimento simbólico é a entrada da Volkswagen no setor de defesa, o que não ocorria desde a Segunda Guerra Mundial. A fabricante de automóveis planeja converter uma fábrica na Saxônia para produzir componentes de mísseis e lança-mísseis. 

O projeto, que conta com a aprovação de sindicatos, visa inicialmente atender um contrato com Israel, mas sinaliza uma estratégia futura de aproveitar a capacidade produtiva e a engenharia qualificada alemã. Com um investimento previsto de US$ 500 bilhões até 2030, a Alemanha faz uma escolha pragmática de ter uma indústria de defesa local e controlada para não depender de líderes imprevisíveis, em vez de priorizar um conceito puramente pacifista, um movimento que seria impensável 10 anos atrás, quando a Alemanha era vetada de envolver-se com a produção de qualquer elementos de defesa, em função das atrocidades da Segunda Guerra.

De quebra, o país também resolve um outro problema econômico: essa fábrica da Saxônia iria ser fechada diante da alta competitividade da indústria automotiva chinesa, e agora ganha um novo fôlego.

Complexidade histórica e distanciamento estratégico

Diferentemente da abordagem simplista dos Estados Unidos — e do maniqueísmo de Trump —, a visão europeia possui mais nuances ao reconhecer que o Oriente Médio é marcado por séculos de conflitos religiosos e políticos de difícil compreensão. 

Portugal, por exemplo, ocupou o Estreito de Ormuz em 1508, mas, na perspectiva iraniana, a disputa era contra o Império Otomano, demonstrando que as tensões transcendem a questão do petróleo. 

Portanto, por entender que não existe uma saída favorável imediata, a Europa evita o envolvimento militar direto e mantém um silêncio estratégico, temendo que Trump abandone a OTAN ou cesse o fornecimento de informações via rede de satélites.

Putin é o vencedor da guerra

Diante desse contexto, Putin acabou reposicionado nesse tabuleiro geopolítico e pode ser considerado o principal vitorioso estratégico desse conflito. A economia russa é financiada pelo mercado clandestino de combustíveis, operado por uma frota “sombria” de cerca de mil navios não registrados. Com a alta do preço oficial do petróleo causada pela guerra, o petróleo não oficial russo torna-se mais valorizado, garantindo recursos externos para a Rússia.

Além do ganho financeiro, Putin adquire um novo poder de chantagem geopolítica. Como o Irã não possui satélites próprios, a Rússia tem a capacidade de fornecer a inteligência necessária para guiar mísseis iranianos contra ativos militares americanos. Enquanto os EUA auxiliam a Ucrânia, Putin agora pode oferecer suporte tecnológico ao Irã. Logo, por ora, é o grande vencedor dessa guerra.

Assista à íntegra do comentário de Paulo Dalla Nora Macedo no Matinal desta quinta (26):







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