Groenlândia: a arma comercial ‘anti-China’ que a UE cogita lançar para retaliar Trump
Pesquisador do Instituto Universitário Europeu, o economista Bruno Capuzzi analisa o ineditismo da manobra e detalha como o Acordo Mercosul-UE entra nesse tabuleiro de xadrez

O que era um mecanismo de defesa desenhado para conter a influência da China subitamente virou uma potencial arma da União Europeia (UE) contra seu aliado mais antigo, os Estados Unidos. Em resposta à ofensiva de Trump, que impôs tarifas de até 25% contra as nações que barraram sua tentativa de compra da Groenlândia, a UE estuda uma retaliação histórica de aproximadamente R$ 580 bilhões por meio do Mecanismo Anticoação Econômica (AIC, na sigla em inglês).
Em entrevista ao programa Matinal desta segunda-feira (19), o economista Bruno Capuzzi, pesquisador do Instituto Universitário Europeu, destacou o ineditismo dessa medida:
“O curioso dessa história é que esse mecanismo foi desenhado olhando para a China, e hoje, a primeira vez que ele pode ser de fato utilizado não é contra a China, mas, sim, contra os Estados Unidos”.
As ameaças sobre a Groenlândia escalaram do que parecia ser uma excentricidade diplomática de Trump para uma crise de nível global. Para Capuzzi, a postura de Washington ao utilizar tarifas comerciais como punição política é o exemplo perfeito do que o mecanismo europeu visa combater.
“Tenho escutado muito de alguns parceiros europeus de que se o mecanismo existe para a coação econômica, este é o momento. Nada mais claro, nada mais ‘textbook case‘ [um caso que, de tão óbvio, pode ser até descrito em manual], de coação econômica, como o que está acontecendo hoje vindo do outro lado do Atlântico”, afirmou o economista.
Capuzzi alerta ainda que o anúncio de Trump viola acordos prévios de contenção de danos e pode desestabilizar de forma significativa a economia e o comércio entre as potências.
O que é o AIC?
O instrumento anticoerção da União Europeia entrou em vigor em dezembro de 2023 com o objetivo de proteger o bloco e seus Estados-membros contra pressões econômicas exercidas por países terceiros para influenciar decisões soberanas, como ameaças ou medidas que afetem comércio e investimentos.
A norma permite que a Comissão Europeia investigue os casos de coerção e, inicialmente, tente resolver o conflito por meio de diálogo. Se não houver resultado por meio de negociações, o AIC autoriza a adoção de medidas de retaliação econômica, como: restrições de acesso ao mercado europeu, investimentos, compras públicas ou financiamento da UE, sempre como último recurso e em conformidade com o direito internacional, com o objetivo de dissuadir e interromper práticas coercitivas.
Mercosul-UE: porto seguro político e ganhos graduais
É neste tabuleiro de xadrez que a finalização do acordo com o Mercosul deixa de ser apenas comercial e passa a ser uma necessidade estratégica de diversificação para a Europa. Como já analisado no Amado Mundo, este pacto representa uma tentativa de resgatar o multilateralismo e se consolida como um pacto político essencial diante do isolacionismo americano.
Apesar do marco histórico da ratificação, Capuzzi pede realismo sobre o impacto no Brasil:
“O acordo não vai, como a gente fala, mudar a agulha de forma significativa. Ele não vai resolver eventuais problemas econômicos de nenhuma das partes, mas ele é um acordo de complementariedade”.
A redução de preços em produtos, como queijos e vinhos, deve ser sentida no varejo, no melhor dos cenários, apenas no início de 2027.
O benefício central reside na facilidade logística e redução de custos. “Ao diminuir a tarifa gradualmente ao longo dos anos, a gente consegue diminuir o custo de fazer comércio com o Brasil e, consequentemente, de fazer comércio a partir do Brasil para as outras partes do mundo”, explicou o economista.
O Brasil deve ganhar competitividade em setores onde já possui tecnologia avançada, como maquinário agrícola e itens da agroindústria, a exemplo do café solúvel. Dessa forma, produtores brasileiros precisarão atualizar processos para enfrentar competidores europeus que possuem, segundo Capuzzi, “séculos de tradição e subsídios robustos”.
A movimentação de Bruxelas sinaliza que, diante do protecionismo de Washington, a integração com o Mercosul tornou-se a rota preferencial para garantir a estabilidade das cadeias globais de valor.
Veja a análise na edição do Matinal desta segunda-feira (19):