Paulo Dalla Nora Macedo

De Lisboa, a conexão entre Brasil e Europa na política, na economia e na cultura

De Lisboa, a conexão entre Brasil e Europa na política, na economia e na cultura

Banner imagem do autor Banner mobile imagem do autor
Análise

Groenlândia e o silêncio calculado da Europa diante de Trump

Enquanto americano testa limites, líderes europeus evitam a escalada pública e apostam na contenção diplomática

Publicado em 08/01/2026 às 06:00
Trump com bandeiras dos Estados Unidos ao fundo.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após discursar em um retiro do Partido Republicano no Kennedy Center, em Washington. Foto: Mandel Ngan/AFP

A volta das declarações de Trump sobre a compra da Groenlândia não pode ser lida como bravata isolada nem confundida com a operação na Venezuela. Há diferenças substantivas entre os dois casos, e é justamente isso que explica a cautela europeia diante das ameaças do presidente americano.

No caso da Groenlândia, Trump não fala em uma ação cirúrgica contra um líder específico, mas na incorporação de um território inteiro, estratégico do ponto de vista militar, geopolítico e econômico, em especial pelas rotas do Ártico e pelas reservas de terras raras.

Ainda assim, uma invasão aberta é improvável: o custo econômico para os Estados Unidos seria alto demais, sobretudo porque a Europa é hoje seu principal parceiro comercial.

Essa avaliação ajuda a entender por que líderes europeus têm evitado um confronto direto com Trump, apostando em respostas contidas. Há uma leitura clara de que o presidente americano se alimenta do embate público e de uma “economia da atenção”, o que tornaria qualquer escalada verbal exatamente o jogo que ele deseja jogar.

Nesse sentido, o silêncio relativo não é ausência de posição, e, sim, estratégia. A Dinamarca e a União Europeia já deixaram claro, ainda que sem retórica inflamada, que não aceitam qualquer mudança unilateral no status da Groenlândia. A bola, agora, está com Trump: ou ele avança, o que traria consequências econômicas de grandes proporções, ou mantém a retórica como forma de pressão política.

O caminho mais provável está no meio-termo: os Estados Unidos já possuem bases militares na Groenlândia, usadas desde a Segunda Guerra Mundial, e Trump pode reforçar essas estruturas, ampliando sua presença e passando a tratá-las como território americano de fato, ainda que não formalmente.

Seria uma forma de vender força política ao seu eleitorado sem desencadear uma crise global imediata. Para a Europa, reagir militarmente nunca esteve no horizonte, não faria sentido imaginar um confronto armado entre aliados da Otan, restando a via diplomática e econômica como instrumento de contenção.

A postura europeia diante da Venezuela segue lógica semelhante, ainda que envolva uma equação jurídica ainda mais delicada. A União Europeia não reconheceu Nicolás Maduro como presidente legítimo, o que fragiliza o argumento da imunidade de chefe de Estado.

Isso permitiu aos Estados Unidos sustentar que não se tratou de uma invasão, mas da prisão de um indivíduo indiciado por uma corte americana. Ainda assim, líderes europeus sinalizaram, nas entrelinhas, que a operação viola princípios do direito internacional.

Nos bastidores diplomáticos, Europa entende que limites foram ultrapassados

O chanceler alemão, Friedrich Merz, falou em complexidade jurídica, mas frisou a necessidade de respeito às normas internacionais. Emmanuel Macron, presidente da França, após uma primeira reação considerada ambígua, endureceu o tom e afirmou que a ação não se alinha aos princípios da ONU nem à defesa da soberania dos Estados.

A resposta europeia foi tímida apenas na aparência. Nos bastidores diplomáticos, o entendimento é claro de que os limites foram ultrapassados, mas a Europa hoje se vê pressionada por múltiplas frentes, da Ucrânia à própria relação com Washington, e não tem margem para uma confrontação aberta. O caso venezuelano, portanto, escancara mais uma vez a fragilidade de uma ordem internacional em transição, na qual regras existem, mas sua aplicação depende cada vez mais da correlação de forças.

Anedota de ‘fronteira’ Brasil-França surge como símbolo de novas oportunidades

Esse rearranjo geopolítico, no entanto, pode abrir oportunidades inesperadas para a América do Sul. Nesse contexto, há uma informação que é pouco lembrada: a maior fronteira terrestre da França não é com Alemanha ou Espanha, mas com o Brasil, por meio da Guiana Francesa.

Diante da crise venezuelana e da instabilidade regional, há espaço para uma presença francesa mais ativa na Amazônia e no entorno da Guiana, inclusive com ampliação da cooperação militar com o Brasil. Isso poderia funcionar como um contrapeso à influência direta dos Estados Unidos e como elemento de dissuasão a aventuras unilaterais.

A reação mais firme de Macron, na segunda rodada de declarações sobre a Venezuela, não é casual. Ela reflete também essa dimensão geográfica e estratégica: a França não observa a crise apenas à distância, mas a partir de um território ultramarino que a coloca diretamente inserida na América do Sul.

Nesse tabuleiro instável, a cautela europeia não é sinônimo de passividade, mas de um cálculo que busca evitar o caos econômico global sem abrir mão, ao menos formalmente, das regras que sustentam a ordem internacional.

Assista ao comentário completo de Paulo Dalla Nora Macedo no Matinal desta quarta-feira (7):

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
PLAYLISTS