Guerra no Irã acende alerta interno nos EUA de radicalização de Trump e medo do terrorismo
Aposta do presidente era de uma operação rápida para instalar um governo subserviente no país persa, mas desgaste com conflito prolongado traz risco de consequências desastrosas para população americana

A decisão de Donald Trump de lançar uma ofensiva militar contra o Irã sem consultar o Congresso americano mergulhou os Estados Unidos em um complexo labirinto jurídico, político e eleitoral. No Congresso, a recusa do Senado em barrar o presidente não é exatamente uma carta branca no sentido jurídico, mas, na prática, acaba funcionando como um aval, pois sinaliza que, pelo menos por enquanto, o Senado não pretende comprar essa briga com o presidente.
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A manobra que tentou enquadrar o presidente, invocando a Lei de Poderes de Guerra de 1973, esbarrou na fidelidade partidária: o Senado, que tem maioria republicana, derrubou a tentativa de avançar uma resolução que buscava forçar o presidente Trump a pedir autorização do Congresso para continuar as ações militares. Rand Paul, coautor da proposta bipartidária, foi o único republicano a apoiar a proposta.
Nesta quinta, a Câmara dos Deputados americana vai votar uma proposta semelhante, porém a expectativa é que também seja derrubada pela maioria republicana. O imbróglio, portanto, permanece.
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Apesar de a Constituição americana determinar que apenas o Congresso pode declarar guerra, existe o histórico no qual os presidentes de ambos os partidos já usaram da prerrogativa de ser o “comandante em chefe” para lançar operações militares limitadas alegando ameaças iminentes. Embora, neste caso, e Trump não conseguiu justificar, não se trata de uma ameaça. Inclusive os ataques ocorreram em meio a negociações diplomáticas.
Por isso, instala-se uma batalha semântica: a Casa Branca evita chamar isso de “guerra”, e prefere tentar limitar as ações a strikes (ataques pontuais). No entanto, a realidade se impõe, e estamos assistindo a uma escalada do conflito.
A mídia americana vem chamando de guerra por “desejo” e por “vontade” pessoal de Trump, que voluntariamente teria decidido entrar nessa guerra, porque não parecia haver elementos que justificassem os ataques. E estamos vendo a guerra potencialmente saindo do controle, com uma escala muito maior do que ele teria imaginado diante da resposta violenta do Irã.
O racha na base e o risco da instalação de um estado de emergência
Internamente, a escalada custa caro à popularidade do presidente junto aos seus eleitores mais fiéis. Há uma aparente divisão na base eleitoral de Trump, com boa parte dos apoiadores sentindo-se traídos por essa decisão de Trump de começar uma guerra no Irã, descumprindo uma promessa de campanha de que não entraria em novas guerras externas.
O presidente americano que se elegeu criticando as guerras infinitas agora vê sua base se fragmentar. Nomes influentes da extrema-direita, como Tucker Carlson, têm falado abertamente que esse ataque ao Irã é absolutamente repugnante e ”maligno”.
No fim das contas, a preocupação central do eleitorado recai sobre a economia: muitos estão frustrados com esses ataques, temendo que esse custo, afinal, também se reflita no bolso.
Uma outra camada dessa crise afeta diretamente as bases democráticas americanas. Analistas apontam para o perigo de um uso eleitoral do conflito: alguns se preocupam e têm alertado para o risco de que a campanha no Irã vire um pretexto para, depois, Trump declarar estado de emergência que ameaçaria as midterms, as eleições de meio de mandato.
Fantasma do 11 de Setembro ainda assusta
A expectativa de um triunfo rápido sobre o Irã se esvaziou. Trump tinha uma ideia de que poderia ser algo rápido, como fez na Venezuela, de onde tirou o Maduro e conseguiu um governo subserviente. Mas no Irã a situação é muito mais complicada.
O Secretário de Defesa já admite o prolongamento dos embates e o envio de tropas e munições para sustentar o desgaste, evidenciando que os EUA estão entrando mais profundamente no conflito do que desejava, e talvez subestimando a capacidade de reação do Irã.
O aprofundamento envolve táticas drásticas, como a interferência da CIA, que iniciou o envio de armamentos. Uma das estratégias para aumentar o caos na região seria colocar forças curdas, que são pró-Estados Unidos, para atuar também na região.
Diante de uma guerra em que 60% dos americanos desaprovam a ação militar, o maior temor nas ruas americanas, especialmente em metrópoles como Nova York, é o contragolpe. Há receios de que haja uma retaliação, com possíveis ataques domésticos, pois muitos americanos ainda guardam em suas memórias os ataques do 11 de Setembro. A lógica assustadora é clara: quanto mais os Estados Unidos entram nesse conflito e alimentam ódio em resposta, mais se pode esperar retaliações.
O saldo da operação é uma escalada bastante preocupante em vários aspectos. E, ao menos até o momento, parece que o conflito vai durar muito mais do que o esperado.
Assista à íntegra da análise de Letícia Duarte no Matinal desta quinta-feira (5):