Elite ‘iletrada politicamente’ é resistente a ajustes fiscais, diz membro do Conselhão
Em entrevista ao Matinal, Rosângela Lyra afirma que parte do grupo ainda resiste a avanços tributários e carrega preconceitos políticos superficiais.

Para a empresária Rosângela Lyra, integrante do Conselhão (Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável), o Brasil ainda convive com uma elite econômica “iletrada politicamente” e resistente a qualquer agenda de justiça fiscal. Em entrevista ao Matinal, ela avaliou o cenário econômico, o comportamento empresarial, o pós-Bolsonaro e as perspectivas para 2026.
Vinculada inicialmente ao lavajatismo e fundadora do movimento Política Viva, criado em 2013, ela conta que passou anos alinhada à direita e a críticas sistemáticas ao PT. A mudança veio, segundo ela, quando começou a analisar o país “de forma mais profunda e menos superficial”. Foi então que declarou voto em Lula em 2020, movimento que considera determinante para sua entrada no Conselhão.
Ao analisar o governo, Rosângela diz que Lula tem feito “uma gestão muito boa, cada vez melhor”, apesar das dificuldades impostas por um Congresso hostil. Ela rejeita a tese de que o problema inicial do governo era comunicação: “O problema era que as pessoas não tinham acesso ao que era real”. Cita dados de desemprego, educação, justiça tributária e programas sociais como elementos que ainda não chegaram de forma clara ao público.
Para ela, o bolsonarismo continuará presente nas eleições de 2026, mesmo sem Bolsonaro na disputa. “O candidato da direita não terá o perfil dele, mas o bolsonarismo está nos candidatos”, afirma. Ela cita ameaças ao STF, falas agressivas e a apropriação de pautas extremistas como estratégias destinadas a manter o eleitorado radical mobilizado. “Até onde vale ir em busca desses votos?”, questiona.
Rosângela também fala que a elite brasileira é “politicamente iletrada” e que empresários e executivos repetem chavões anticomunistas e preconceitos superficiais contra a esquerda. “Eles dizem: ‘o comunismo está aí’. Onde? A China é capitalista. A Rússia também. Não existe essa ameaça”. Segundo ela, parte expressiva desse grupo tende a escolher qualquer candidato que dialogue com esse “ranço”, mesmo que embrulhado em aparência moderada.
Ela acredita que a eleição será decidida pelo eleitor de centro, o “pêndulo”, que precisará entender que candidatos aparentemente moderados carregam elementos bolsonaristas em propostas de segurança, educação e comportamento político.
Egoísmo e falta de empatia na reação ao debate fiscal
No campo da justiça tributária, tema que descreve como um dos pilares do governo, a empresária afirma que muitos dos mais ricos simplesmente não percebem o impacto positivo das mudanças para quem ganha até R$ 5.000, que terá, na prática, uma espécie de décimo quarto salário com a isenção do imposto de renda.
“Isso não faz parte do mundo deles”, acredita ela, que vê ainda egoísmo e falta de empatia na reação ao debate fiscal. “É insano não abrirem mão de 0,01% do patrimônio. Isso não afeta em nada a vida deles.”
A empresária defende que o país precisa de continuidade administrativa para colher resultados estruturais. “Mais quatro anos são essenciais para implementar políticas e ver as coisas acontecerem”, afirma.
Ela sugere que obras exibam placas com quem começou e quem terminou, para evitar apropriações indevidas, e conclui: “Um governo que pode continuar por mais quatro anos é muito melhor para o país”.
Assista à entrevista completa de Rosângela Lyra ao Matinal: