Entrevista

Ofensiva de Trump em Cuba alimenta resistência, avalia professora

Professora de Relações Internacionais da Unifesp explica que chances de os Estados Unidos conseguirem mudar o regime de Cuba são poucas

29/05/2026 às 15:02 · Atualizado há 3 meses
Protesto em Cuba contra indiciamento de Raúl Castro pelos  EUA
Protesto junto à Embaixada dos EUA em Havana contra indiciamento de Raúl Castro em tribunal norte-americano (foto: Adalberto Roque/ AFP)

O agravamento da pressão do governo do presidente Donald Trump contra Cuba ocorre em meio a um severo colapso econômico na ilha, mas uma eventual ofensiva norte-americana está longe de ser uma hipótese razoável. Em entrevista ao programa Matinal desta quinta-feira (28), do canal Amado Mundo, a professora de Relações Internacionais da Unifesp Regiane Bressan afirmou que grande parte da população cubana resistirá a uma possível invasão dos Estados Unidos.

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Segundo ela, os cubanos têm consciência de que uma investida militar, mesmo que consiga derrubar o regime atual, não trará democracia, prosperidade ou desenvolvimento econômico a curto prazo para o país. 

Cuba é diferente

Bressan alerta que, diferentemente de outros países da região, uma eventual intervenção militar americana não derrubaria o regime com facilidade. De acordo com ela, a população cubana tem consciência de que a escassez atual é diretamente agravada pelos embargos impostos por Washington. 

Além disso, a professora defende que a  instabilidade global provocada pelo governo Trump esvazia o multilateralismo, deixando a ilha caribenha ainda mais dependente de potências como China e Rússia e afastando a perspectiva de uma saída pacífica para a crise. 

Abaixo, confira os principais trechos da entrevista: 

Por que Cuba continua sendo alvo de tanta atenção e pressão por parte dos Estados Unidos após tantas décadas? 

Antes da Revolução Cubana, o país funcionava quase como um apêndice dos Estados Unidos, e a revolução buscou exatamente essa autonomia. Hoje, a ilha continua sendo uma grande afronta ideológica na região, sobretudo por estar geograficamente muito próxima à grande potência hegemônica. 

Soma-se a isso a política interna, pois atualmente, há um grupo muito grande de dissidentes e descendentes de cubanos vivendo nos Estados Unidos, especialmente na Flórida. Esse grupo constrói um capital político muito forte contra o regime cubano, o que resulta em uma constante pressão interna sobre o governo americano. 

 O que diferencia o atual colapso econômico de outras crises históricas em Cuba e como a instabilidade global afeta a ilha? 

 Nos anos 1990, após o fim da ajuda da União Soviética, o país também viveu uma crise dramática, mas naquela época havia organizações internacionais que estabeleciam regras e davam contorno à arena global. Hoje, o cenário é marcado por uma grande instabilidade gerada pelo governo Trump e pela retração do multilateralismo. 

Com o esvaziamento das regras globais, a ilha se vê forçada a pedir ajuda a outras potências, como a Rússia e a China. Diante de um governo americano que demonstra não estar disposto a cumprir as regras e acordos multilaterais, fica muito difícil vislumbrar uma saída pacífica a curto prazo. 

Caso uma ação aconteça, na sua avaliação, qual cenário seria mais provável como consequência? A senhora acredita que essa ação dos Estados Unidos poderia levar a uma mudança de regime em Cuba?

Você colocou muito bem essa comparação com a Venezuela, porque de fato não houve resistência popular quando aconteceu a captura de Nicolás Maduro. Mas, no caso de Cuba, a própria população, sobretudo as gerações mais maduras, é muito orgulhosa do regime cubano em relação ao sistema de saúde e de educação que foi consolidado.

A população continua de maneira bastante resistente à ofensiva dos Estados Unidos e tem consciência que eles fariam uma ofensiva não exatamente para ajudar economicamente o país, até porque os Estados Unidos são os principais responsáveis pelos embargos econômicos que levaram a ilha a essa situação tão dramática. Ou seja, grande parte da população é resistente a uma ofensiva dos Estados Unidos porque sabe que essa ofensiva, ou mesmo que consigam derrubar o regime, não trará prosperidade, ou mesmo democracia ou desenvolvimento econômico a curto prazo

Assista ao programa na íntegra:

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