América Latina volta a ser tratada como ‘quintal’ dos Estados Unidos
Ameaças recentes a países como Colômbia e Cuba e até à Groenlândia indicam um pensamento neocolonial, extrativista e imperialista

A prisão de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, inaugura um novo e inquietante capítulo da política externa dos Estados Unidos na América Latina, novamente encarada como uma espécie de “quintal” pelo governo americano.
Depois da ação militar no sábado (3), em Caracas, e da extradição de Maduro e Flores para os Estados Unidos, eles chegaram na manhã desta segunda-feira (5) a um tribunal de Manhattan para uma primeira audiência, dando início ao processo judicial do caso. Maduro enfrentará acusações de narcotráfico, terrorismo, conspiração. Este processo, no entanto, escancara uma disputa que vai muito além do sistema de Justiça americano.
Embora o discurso inicial da Casa Branca sobre a Venezuela tenha invocado o combate ao “narcoterrorismo”, essa narrativa foi rapidamente esvaziada. O próprio Trump ajudou a desmontá-la ao conceder perdão a Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado por crimes semelhantes. A diferença, nesse caso, foi política: Hernández era aliado dos americanos, como deixou claro o presidente americano.
A comparação expõe, portanto, a incoerência do argumento moral e reforça a leitura de que o caso venezuelano está ancorado em interesses estratégicos, sobretudo no controle de recursos energéticos, em especial o petróleo.
O tom adotado por Trump nas últimas declarações também só reforça essa guinada. Sem o verniz de uma pretensa defesa da democracia na região, o presidente tem falado abertamente em negócios, riqueza e extração de recursos, retomando uma lógica que remete à Doutrina Monroe em sua versão mais crua.
As ameaças recentes a países como Colômbia, Cuba e até à Groenlândia também indicam um pensamento neocolonial, extrativista e imperialista, no qual a América Latina volta a ser tratada como “quintal” estratégico dos Estados Unidos.
Dentro dos EUA, a operação divide opiniões
Democratas denunciam a ilegalidade da ação, que não teve autorização do Congresso, e alertam para o precedente perigoso de intervenção em um país soberano. E, ainda assim, há nuances: mesmo críticos que reconhecem o caráter autoritário do regime de Maduro rejeitam a forma como os Estados Unidos conduziram a operação.
Entre os republicanos, o apoio é majoritário, agora embalado pela tentativa de rebatizar o antigo slogan “America First” para “Americas First”. O primeiro foi um slogan clássico de Trump, usado desde 2016, para priorizar os interesses internos dos EUA. Já o segundo introduz a ideia da intervenção como um negócio lucrativo para os americanos.
Um levantamento do instituto YouGov ouviu 1,9 mil pessoas e mostrou que 41% dos americanos se opõem à ideia de os Estados Unidos governarem a Venezuela, contra 34% que apoiam, enquanto um quarto da população permanece indecisa. A maioria também acredita que haveria alguma resistência a uma eventual ocupação.
O impacto político dessa operação, portanto, ainda está em aberto: Trump pode tentar capitalizar eleitoralmente uma narrativa de força, lucro e domínio regional, mas corre o risco de pagar um preço alto caso o cenário evolua para um conflito prolongado, custoso e caótico.
Assista ao comentário completo de Letícia Duarte no Matinal desta segunda-feira (5):