Paulo Dalla Nora Macedo

De Lisboa, a conexão entre Brasil e Europa na política, na economia e na cultura

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Análise

A volta da Doutrina Monroe: o novo rosto da intervenção silenciosa dos EUA

Como nos proteger de um país que usa da antiga Doutrina Monroe para dizer que a dominância americana no hemisfério ocidental nunca mais vai ser questionada

13/08/2026 às 19:00 · Atualizado há 2 meses
EUA Doutrina Monroe
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário de Estado do governo americano, Marco Rubio (Foto: Daniel Torok/The White House)

Recentemente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou um vídeo institucional de mais de cinco minutos que citava abertamente a Doutrina Monroe e apresentava a operação de captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro como o exemplo mais recente de sua aplicação prática no continente. Washington afirmou explicitamente, na publicação, que a hegemonia norte-americana no hemisfério ocidental não tolerará contestações. Diante dessa clara escalada intervencionista, resta ao Brasil analisar com seriedade a natureza das ameaças contemporâneas.

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Muitos analistas de perfil mais liberal sustentam que o país estaria imune a ameaças externas diretas dos EUA, argumentando que uma ação militar de grande escala contra o Brasil seria impensável e que não há necessidade de grande preocupação com defesa. Contudo, a geopolítica moderna não se desenha mais pela ocupação física e ostensiva de capitais, como Brasília, São Paulo ou Rio de Janeiro. A verdadeira ameaça reside em métodos muito mais silenciosos: a apropriação indevida e velada de partes do território nacional. Temos parcelas da fronteira Amazónica hoje que são comandadas pelo tráfico internacional, não nos esqueçamos disso. Não seria inédito, então.

Esse modelo de ingerência pode se materializar pelo uso de aliados regionais — como Colômbia ou Argentina — para tomar o controle de áreas ricas em recursos naturais estratégicos, como as terras raras. É justamente nesse radar de novos riscos políticos que o Brasil se encontra atualmente, impulsionado pelo desejo global sobre suas jazidas minerais estratégicas.

O custo da dissuasão

Se a gente começar a falar de números, o Brasil investe em defesa pouco mais de 1% do PIB. Enquanto isso, a Europa, que sempre teve investimentos muito baixos — em torno de 1% ou pouco mais —, assumiu o compromisso de subir essa taxa para até 3,5%, ou mesmo 5% em alguns países, até 2030. A Turquia, que é um país de renda média similar à nossa, investe hoje proporcionalmente o dobro do Brasil. É claro que a Turquia está em uma encruzilhada geopolítica diferente, mas, como coloquei, há um novo tipo de risco político ligado às terras raras, e o Brasil começa a entrar nesse radar.

Não digo que vai acontecer uma apropriação indevida direta e escancarada. Mas, para elevar a barra do “é bom não tentar”, para fazer os outros pensarem duas vezes, esse 1% atual é suficiente? Ou qual deveria ser o investimento ideal para que pensem que de fato é melhor não tentar? E essa fragilidade na defesa tem desdobramentos em outras áreas: a maioria dos analistas europeus afirmam que a Europa foi empurrada para um péssimo acordo comercial com os EUA pela chantagem implícita que envolvia a Otan.

A base industrial de defesa e a tecnologia de ponta

Quando o presidente ou os militares falam em base industrial de defesa, o que isso significa na prática? Não é só fabricar mais armas. É encarar o setor como parte da própria indústria nacional. Muita gente, às vezes por preconceito ou ignorância, não entende o que seria essa base industrial na prática e as oportunidades que ela abre para o Brasil.

Vejamos o caso da Embraer, que citamos sempre e que recentemente foi tema de análise na The Economist. A revista apontou que a Embraer está em um processo para se tornar a número um do mundo, a principal e mais moderna fabricante de aviões do planeta. Isso abre um leque gigantesco de possibilidades para a nossa base industrial de defesa. Além disso, temos o caso da Avibrás, uma base industrial importantíssima que ficou adormecida por algumas décadas.

Orçamento real e o debate nuclear

Fazendo uma conta rápida para deixar registrado: se a gente tirar do orçamento da defesa o que é gasto com pessoal, sobram menos de R$ 30 bilhões por ano para todo o resto, de custeio a investimentos. Isso é mais ou menos metade do que o governo gasta hoje com emendas parlamentares. Fica aqui a provocação: o que é melhor, emendas parlamentares ou investimentos em defesa?

Para elevar a barra do “é bom não tentar”, parece haver um consenso de que deveríamos aumentar o investimento de 1% para 2% do PIB. Essa seria uma meta razoável para armar o país com foco em dissuasão. Deixo claro: não é para realizar ação indevida contra ninguém, mas sim para evitar que os outros pensem em fazer alguma coisa contra nós. E essa discussão não deveria passar também por reabrir o debate sobre a possibilidade de o Brasil ter a bomba atômica, ou essa é uma questão enterrada para sempre desde que o Collor colocou uma pá de terra em cima na década de 1980?

Assista ao Matinal na íntegra:

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