HIV e aids: da revolução no tratamento ao desafio de vencer o estigma
Quatro décadas após os primeiros casos, o combate ao vírus no Brasil vive um paradoxo: o triunfo da medicina contra o atraso do estigma.
Luiza Barufi
28/12/2025 às 06:00 · Atualizado há 6 meses
Em 1980, o mundo viu surgir um inimigo desconhecido. As primeiras notícias rotularam a nova doença como “peste gay”, espalhando desinformação. Quatro décadas depois, o que era uma sentença de morte para pessoas diagnosticadas com HIV se tornou uma condição crônica controlável. Hoje é possível viver com o vírus e ter uma vida plena, se o tratamento for seguido corretamente. Mas enquanto a medicina corre à velocidade da luz, a mentalidade de parte considerável da sociedade parece estagnada em barreiras que a ciência sozinha não consegue derrubar.
O paradoxo brasileiro
O Brasil é reconhecido mundialmente pelo seu programa de enfrentamento ao HIV. Atualmente, estima-se que cerca de 1 milhão de pessoas vivam com o vírus no país. Destas, aproximadamente 90% já foram diagnosticadas, mas o país vive um paradoxo: possui uma das redes de tratamento mais avançadas do globo, mas ainda registra altos índices de infecção entre jovens e diagnósticos tardios.
No ano em que o Brasil comemora 40 anos da sua resposta em relação à epidemia da aids, o coordenador-geral de Vigilância do HIV/aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Artur Kalichman, celebra “uma resposta que ainda tem muitos desafios, mas já teve muitas conquistas, entre elas a queda de mortalidade, comparando 2023 com 2024, pela primeira vez com menos de 10 mil óbitos”.
O acesso ao tratamento é o motor por trás dessa redução de 13% na mortalidade. Ele destaca que, hoje, o principal receio em relação ao diagnóstico mudou de natureza. O medo não é mais de morrer, pois o tratamento é amplamente conhecido por sua eficácia, mas sim de enfrentar o estigma. “Hoje no Brasil já temos a eliminação da transmissão vertical do HIV como um problema de saúde pública. Menos de 2% das crianças filhas de mães vivendo com HIV nascem com o vírus. É possível nascer sem HIV e queremos que as pessoas vivam sem aids, mas para isso precisamos ser menos preconceituosos e oferecer melhores condições de vida para todos”, pontua Kalichman.
Homem realiza teste rápido de HIV: autotestes são distribuídos pelo SUS. Foto: Claudio Reyes/AFP
A ciência triunfou em termos de tratamento e prevenção, mas esse sucesso contrasta com a persistência do estigma social.
A história de Djair Oliveira Gomes, de 28 anos, ilustra perfeitamente essa dualidade. Diagnosticado aos 19 anos, enquanto cursava enfermagem, ele encontrou na ciência o conforto que a sociedade lhe negou. “Quando recebi o diagnóstico, procurei aprender muito. Vi que ficaria bem com o tratamento”, conta Djair. Porém, o vírus biológico foi menos agressivo que o “vírus” do preconceito. Ao compartilhar o diagnóstico com uma amiga de trabalho, a informação vazou.
“Fui demitido na mesma semana. Como também tinha sido expulso da casa dos meus pais, acabei ficando em situação de rua por um tempo.”
Hoje, após quase 9 anos vivendo com o vírus, Djair é a prova viva de que é possível ter uma vida plena e saudável, mas ressalta as barreiras invisíveis. “O tratamento é gratuito e avança sempre, mas o preconceito ainda impede o acesso aos direitos. Precisamos de campanhas que mostrem como vivemos hoje, para que a ignorância não seja mais desculpa para o estigma.”
O peso da cor e da classe
Para além do estigma social, o HIV no Brasil revela também a desigualdade racial. Os números do Ministério da Saúde (2023) desenham um cenário alarmante onde a cor da pele é um marcador de vulnerabilidade. Atualmente, 63,2% das novas infecções ocorrem entre pessoas negras (sendo 49,7% em pardos e 13,5% em pretos). Quando o recorte foca no público feminino, a disparidade é ainda mais gritante: 64,2% das mulheres diagnosticadas são negras. Esses dados evidenciam que o vírus não atinge a todos de forma igual; ele caminha pelas brechas da falta de acesso à informação, pela precariedade do saneamento e pelas barreiras no sistema de saúde básica que ainda segregam a população periférica.
A revolução da prevenção e o triunfo do I = I
Estudos científicos comprovam que uma pessoa em tratamento regular, que mantém a carga viral indetectável por pelo menos seis meses, não transmite o vírus por via sexual, mesmo em relações sem preservativo. Essa descoberta remove o peso do medo e transforma o tratamento em uma das formas mais eficazes de prevenção.
Para a enfermeira Aline Pilon, a prevenção ao HIV é, acima de tudo, um exercício de liberdade e direito à saúde. Usuária de PrEP e profissional na linha de frente do cuidado, Aline defende que entender a diferença entre as siglas é o primeiro passo para derrubar preconceitos. “A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é o autocuidado antecipado. É um comprimido tomado antes da exposição ao vírus que, quando utilizado corretamente, reduz drasticamente o risco de infecção. É uma estratégia de autonomia oferecida pelo SUS”, explica.
Já a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) atua como uma medida de urgência. “Ela deve ser iniciada o quanto antes — preferencialmente nas primeiras horas e no máximo até 72 horas após uma situação de risco, como uma relação desprotegida ou acidente biológico. São 28 dias de tratamento que podem evitar a infecção, desde que o tempo seja respeitado.” Como enfermeira, Aline observa que a barreira para o controle da epidemia nem sempre é o acesso ao remédio, mas o medo do dedo apontado.
“Ainda existe muito estigma e desinformação. Muitas pessoas deixam de buscar essas tecnologias por medo do julgamento alheio”, lamenta. Para ela, a solução passa por normalizar o diálogo sobre saúde sexual. “Falar sobre PrEP e PEP é falar sobre o direito de decidir sobre o próprio corpo. A prevenção precisa ser tratada com naturalidade, sem moralismo, para que a informação chegue antes que o vírus, e o cuidado vença o preconceito.”
O caminho do cuidado: o SUS como aliado
No Brasil, atualmente a indicação é da Prevenção Combinada como um hábito de autocuidado e cidadania. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece hoje um dos portfólios mais completos do mundo de forma totalmente gratuita, desde a distribuição de preservativos e gel lubrificante até tecnologias de ponta como a PrEP e a PEP, além de autotestes que garantem diagnóstico rápido e sigiloso.
Para acessar esses serviços, basta procurar a Unidade Básica de Saúde mais próxima ou os Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) espalhados pelo país. Em um cenário onde a ciência já provou sua eficácia, a barreira final a ser derrubada é a do silêncio. O acolhimento sem julgamento nas unidades de saúde é o primeiro passo para que, até 2030, a aids deixe de ser uma ameaça à saúde pública e se torne uma página superada.
Enquanto o SUS consolida a oferta da PrEP e da PEP em comprimidos, a ciência avança para oferecer ainda mais liberdade aos usuários. A mais recente inovação é a PrEP injetável de longa duração, que substitui a tomada diária de remédios por uma aplicação intramuscular a cada dois meses. No Brasil, essa tecnologia já está disponível na rede privada de saúde.