Entrevista

‘Onde tem gado, tem dono’, diz jornalista sobre ocupação ilegal da Amazônia

Autora de 'O cerco: a Amazônia invadida pelo gado', a jornalista Marina Rossi contou como gado impulsiona exploração da floresta e ocupação ilegal

17/06/2026 às 16:47 · Atualizado há 2 meses
Jornalista, Marina Rossi, fala sobre como gado impulsiona exploração da Amazônia. (Amado Mundo)

Autora de “O cerco: a Amazônia invadida pelo gado”, a jornalista Marina Rossi falou sobre como a expansão pecuária ainda é uma das principais formas de se desmatar a floresta amazônica. A jornalista é a primeira convidada da segunda edição do programa Notas de Rodapé, que debateu o problema da exploração da floresta com o autor Milton Hatoum, sob a mediação da jornalista Raquel Cozer, apresentadora do programa.

Durante a entrevista, a escritora destrinchou uma narrativa recorrente de seu livro: a disputa por terra e ocupação irregular incentivada pelo gado. 

“É um paradoxo porque acontece até hoje: a falta de organização na distruibuição de toda essa terra ocasiona terras públicas sendo invadidas e também sobreposição de propriedades”, disse. “Eu conto muito isso no livro com um personagem que vive ali numa região do Pará. Ele está lá há anos, décadas, e de repente chega uma grande pecuária e ocupa aquele lugar, oficializando como se fosse um terreno dela. E ele está até hoje, um pequenininho brigando com uma gigante na Justiça pelo usucapião daquela terra”, afirmou no programa do Amado Mundo.

Leia também: Big techs pedem ao STF revisão dos decretos de Lula para redes sociais

Esse processo de ocupação, segundo a jornalista, segue um modus operandi já conhecido, não só por ambientalistas, mas também por autoridades.

“O grileiro, o criminoso, ele chega numa terra que pode ser uma terra pública, pode ser que supostamente não tenha dono, e ele derruba a madeira para vender, vende a madeira, joga o pasto ali e ocupa com o gado. Onde tem gado tem dono, então a terra passa a ser dele, teoricamente, porque ‘se meu boi está aqui, essa terra é minha’.”

Veja trechos da entrevista:

Há estados com “várias” Amazônias, né? Fala um pouquinho sobre isso que está no seu livro?

A gente fica imaginando que a Amazônia é uma coisa só, né? E definitivamente não é. É claro que existem cidades que estão em um avanço do desmatamento muito maior que outras. Justamente ali, a fronteira do Mato Grosso com o Pará, que é onde a soja está avançando, diz que tem um movimento ali.

Então é o garimpo que começa, e atrás dele vem o boi e atrás vem a soja. Então a soja vai empurrando o boi, que vai empurrando o garimpo para cada vez mais dentro da floresta. Então existem vários tipos de destruição da floresta e vários tipos de Amazônia.

Como é esse processo do desmatamento?

É um grileiro que tirou proveito da terra por meio da madeira ilegal, da exploração da madeira ilegal, do gado, e depois vendeu a terra. Então esse modus operandi em que o boi é um dos protagonistas é super conhecido e já há décadas é assim que vem acontecendo nas ocupações ilegais na Amazônia.

Depois do boi, planta-se a soja, mas aí depende um pouco do tipo de crime que ele está disposto a cometer, se é para lotear, grilar e vender a terra, ou se é para produzir a soja, que está empurrando, cada vez mais chegando na floresta, ou se é só para vender o boi, ali depende, mas estão todos ali fazendo parte dessa mesma engrenagem.

Leia mais: fim da escala 6×1: Lula e Hugo Motta selam acordo para transição de um ano

Nessa questão dos créditos de carbono como é que a gente pode saber que de fato está sendo feita alguma coisa?

Começou-se essa discussão sobre não dar dinheiro para quem desmata, basicamente. Então, existem ali umas normas recentes da Febraban [Federação Brasileira de Bancos], o Banco Central tem uma norma ali no meio. Mas eu acredito que é frouxa. Os próprios bancos, por meio de compliance, dizem que não emprestam dinheiro, que não dão crédito para produtores que têm áreas embargadas ou desmatadas, multas por desmatamento, o que não é verdade, a gente sabe por meio de vários estudos, tem gente muito séria debruçada sobre esse tema, apontando que vai muito dinheiro e muito dinheiro público ainda para produtores que estão desmatando.

E isso é muita falta de boa vontade porque a gente tem sistemas muito robustos e muito tecnológicos para mostrar desmatamento hoje, e qualquer cidadão tem acesso, qualquer cidadão pode ver, não é difícil um banco cruzar, precisar dados para saber se aquele produtor tem área desmatada, tem área embargada. Então assim, é uma falta de boa vontade mesmo quando você fala em empréstimo né. E crédito de 2 bilhões, o banco vai querer emprestar dois bilhões ou vai querer olhar para área desmatada? Ele vai querer emprestar 2 bilhões.

Assista a entrevista completa:

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
PLAYLISTS
PUBLICIDADE
Publicidade