Entrevista

Bolsonarismo sacrificou a causa para salvar o líder, diz escritor

João Cezar de Castro Rocha afirma que o movimento abriu mão do patriotismo, falhou ao tentar pressionar o STF com apoio de Trump e hoje se reduz a um núcleo radicalizado, enquanto o projeto econômico migra para outros nomes.

Publicado em 22/12/2025 às 06:00
Na foto, um cartaz ironiza a fuga de Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos, como tentativa de buscar apoio de Donald Trump ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Foto: Miguel Schincariol/AFP

A retirada do nome do ministro Alexandre de Moraes da lista de sancionados da Lei Magnitsky diz menos sobre incoerência do governo Trump e mais sobre a derrota política do bolsonarismo. Essa é a avaliação do escritor e historiador João Cezar de Castro Rocha, que participou do Matinal. Segundo ele, Trump blefa, pressiona, mas recua quando percebe que o outro lado não se curva. O bolsonarismo apostou que conseguiria constranger o Judiciário brasileiro, provocar instabilidade institucional e mobilizar massas nas ruas após a prisão de Jair Bolsonaro. Nada disso ocorreu.

O STF manteve suas decisões e acelerou os processos, o governo Lula adotou uma postura institucional e a reação popular foi residual. Para Washington, diz Castro Rocha, Bolsonaro e seus aliados se mostraram incapazes de cumprir o que sinalizaram, já que não produziram desgaste institucional nem ganhos políticos, e, na lógica trumpista, passaram a ser tratados como atores derrotados e descartáveis.

Para escritor, o bolsonarismo atravessa uma crise mais profunda porque “abriu mão de sua própria ideia-força”. O movimento, que mobilizou milhões com o discurso do patriotismo e do verde-amarelismo, teria abandonado esse pilar ao recorrer a pressões internacionais contra o Brasil para tentar salvar o líder.

“Não existe nacionalista da terra estrangeira”, afirmou. Ao sacrificar a causa para proteger Bolsonaro, o bolsonarismo teria perdido também a imagem do “capitão” corajoso, substituída por um comportamento que ele descreve como submisso e servil. O resultado é o esvaziamento das ruas e a redução do movimento a um núcleo minoritário e radicalizado.

O professor também alertou para o fato de que, embora o bolsonarismo possa definhar, o projeto que o sustentou segue vivo. Segundo ele, o mercado financeiro, o Centrão e parte das elites migraram para nomes como Tarcísio de Freitas, visto como capaz de levar adiante um projeto econômico neoliberal radical, que ele chamou de “pinochetização do Brasil”.

A disputa de 2026, avaliou, tende a ser marcada menos pela família Bolsonaro e mais pela consolidação dessa agenda.

Do ponto de vista dos Estados Unidos, não fica feio colocar Alexandre de Moraes na lista da Lei Magnitsky e depois retirá-lo sem explicação?
Precisamos olhar isso do ponto de vista do governo americano. Trump declarou apoio político explícito a Bolsonaro, tentou pressionar o Judiciário brasileiro e anunciou tarifas com caráter político. É a psicologia do bully: blefar usando a força. Em troca, esperava submissão institucional e mobilização de rua. Nada disso aconteceu. O Judiciário se manteve altivo, o processo avançou e não houve reação popular relevante. Para Trump, Bolsonaro e seus apoiadores se mostraram incapazes de cumprir sua parte. Por isso, a retirada de Moraes não é escandalosa: a inclusão já não tinha base objetiva.

O que essa derrota significa para o bolsonarismo, que apostava em Trump como última esperança?
Todo movimento político só sobrevive sem seu líder quando tem uma ideia-força. O varguismo, o peronismo e o lulismo tiveram a inclusão do trabalhador como eixo. O bolsonarismo também teve uma ideia-força: o patriotismo, o verde-amarelismo. Isso mobilizou milhões. O problema é que, para salvar Bolsonaro, o movimento jogou fora essa ideia. Não existe patriota da terra alheia. Pedir sanções contra o próprio país é destruir o próprio discurso. Além disso, Bolsonaro sacrificou a causa para salvar a própria pele, o oposto do líder messiânico clássico.

Isso ajuda a explicar o esvaziamento das ruas?
Sem dúvida. Durante a pandemia, o bolsonarismo deixou de ser apenas guerra cultural e passou a operar como uma seita política, com traços milenaristas. Vive de profecias que nunca se cumprem, as famosas “72 horas”. Isso gera frustração acumulada. Minha avaliação é que 70% a 80% daqueles 58 milhões de votos já se afastaram da mobilização inicial. O que sobra é um núcleo fanatizado.

E como ficam mercado financeiro e Centrão, que já foram pilares do bolsonarismo?
Eles migraram para o projeto sem o Bolsonaro. O favorito é Tarcísio de Freitas. O que está em jogo não é só derrotar o PT, mas levar adiante um projeto econômico iniciado com Michel Temer e interrompido pelo caráter errático de Bolsonaro. Eu chamo isso de “pinochetização” do Brasil: retirada do Estado das funções sociais, privatizações amplas, supressão de direitos trabalhistas e centralidade absoluta do rentismo.

Onde Tarcísio se posiciona nesse espectro?
Ele é visto como alguém capaz de executar esse projeto com previsibilidade. Por isso agrada ao mercado e às elites. Além disso, o tema da segurança pública tende a ganhar centralidade em 2026, com referências como Nayib Bukele [presidente de El Salvador]. Esse será um eixo decisivo do debate eleitoral.

E a candidatura de Flávio Bolsonaro?
É frágil como vidro. Mesmo entre bolsonaristas, há a percepção de que o governo perdeu o rumo para salvar o filho das investigações. A narrativa dominante é que o acordo com o Centrão nasceu daí. Isso não resiste a uma campanha presidencial. Vejo a candidatura mais como uma tentativa de Jair Bolsonaro manter controle do cenário político e reagir ao crescimento de Michelle Bolsonaro dentro do próprio clã.

Assista à entrevista completa do escritor João Cezar de Castro Rocha ao Matinal de segunda-feira (15):

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