Entrevista

Cinco visões sobre o acordo Mercosul-UE, que deve ser assinado em breve

A Comissão Europeia mencionou nesta segunda-feira (5) 'avanços' entre os Estados-membros rumo à aprovação do pacto, que foi tema do Lisboa Connection ao longo de 2025

06/01/2026 às 06:00 · Atualizado há 9 meses
Foto: Amado Mundo

O ano de 2025 foi marcado por expectativas em torno do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, cuja assinatura prevista para dezembro acabou adiada para janeiro de 2026. A Comissão Europeia mencionou, nesta segunda-feira (5), “avanços” entre os Estados-membros rumo à aprovação do pacto comercial e informou que espera assiná-lo “em breve”.

Paula Pinho, porta-voz do braço Executivo da União Europeia, não confirmou a data prevista para a assinatura, que seria na próxima segunda, 12 de janeiro, mas assegurou que o bloco está “no caminho certo” para assiná-lo em breve. Pinho destacou, em uma coletiva de imprensa, “avanços nas últimas duas semanas”.

Após 25 anos de negociações, o acordo criaria a maior área de livre comércio do mundo, impulsionando as relações comerciais entre os 27 países da UE e os membros do Mercosul, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

Mas os planos para a assinatura na reunião em Foz do Iguaçu em 20 de dezembro esbarraram na posição da Itália e da França. Ambos solicitaram, naquele momento, adiar a assinatura diante das preocupações do setor agrícola de seus respectivos países.

“É fundamental ter o acordo entre o Mercosul e a União Europeia para a construção de um novo multilateralismo, com regras de comércio pactuadas e soluções de comum acordo” —Aloizio Mercadante, presidente do BNDES

Em um episódio especial do Lisboa Connection, o Amado Mundo reuniu depoimentos de autoridades brasileiras e europeias entrevistadas ao longo da primeira temporada do programa, em 2025, que apresentam diferentes perspectivas sobre o acordo, seus entraves e seus possíveis impactos econômicos.

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, defendeu o tratado como peça-chave para a reconstrução do multilateralismo em um cenário de avanço do protecionismo. Para ele, a integração entre Mercosul e União Europeia pode fortalecer regras comuns de comércio e reduzir disputas assimétricas entre economias desenvolvidas e países do Sul Global.

“É fundamental ter o acordo entre o Mercosul e a União Europeia para a construção de um novo multilateralismo, com regras de comércio pactuadas e soluções de comum acordo”, afirmou.

Já o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio Roberto Azevêdo destacou que o impacto do acordo dependerá da capacidade de reduzir barreiras regulatórias e dar previsibilidade às trocas comerciais. Segundo ele, setores como os das normas sanitárias e fitossanitárias continuam sendo usados, com frequência, como instrumentos de proteção indireta por parte da União Europeia.

“A Europa é bastante protecionista, inclusive em termos regulatórios. Tudo isso pode ser minimizado com regras claras, reconhecimento mútuo e previsibilidade”, disse, ao destacar a importância do pacto.

À frente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), Jorge Viana ressaltou o peso econômico do bloco europeu para o Brasil e afirmou que o acordo pode ampliar significativamente o fluxo comercial entre as regiões. Para ele, a criação de um mercado integrado com cerca de 700 milhões de pessoas tende a gerar efeitos positivos sobre emprego, investimentos e cadeias produtivas.

“Na Europa há forças que não querem que esse acordo aconteça porque pensam apenas no seu país, e não na Europa. Mas este acordo é fundamental nesta altura em que o mundo se está a fechar, sobretudo quando vemos os Estados Unidos a se isolar” — Carlos Moedas, ex-comissário europeu

“Se a Europa fosse um país só, seria o segundo parceiro comercial do Brasil. Esse acordo está sendo trabalhado há mais de 20 anos e pode dobrar de tamanho essa relação”, destacou.

Do lado europeu, o ex-presidente da Comissão Europeia Durão Barroso afirmou que o acordo é positivo não apenas para o Mercosul e a União Europeia, mas também para o comércio internacional como um todo.

“Ao longo destes anos houve dificuldades de ambos os lados, mas agora existe uma convergência de vontades. Vemos agora o renascer de um certo protecionismo, seria um excelente exemplo que a União Europeia e o Mercosul finalmente conseguissem pôr em prática esse acordo”, declarou.

Já o prefeito de Lisboa e ex-comissário europeu Carlos Moedas observou que, apesar do apoio político, resistências internas podem adiar a ratificação do tratado por alguns anos.

“Na Europa há forças que não querem que esse acordo aconteça porque pensam apenas no seu país, e não na Europa. Mas este acordo é fundamental nesta altura em que o mundo se está a fechar, sobretudo quando vemos os Estados Unidos a se isolar e a criar uma guerra tarifária em que todos perdemos. [O acordo] é importante tanto para a América Latina quanto para a Europa”, afirmou.

(Com informações da AFP)

Assista ao episódio especial do Lisboa Connection:


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