Reportagem

Premiada pela ABL, Eliana Alves Cruz conta como escreveu ‘Meridiana’

Vencedora do Prêmio Guimarães Rosa da ABL, Eliana Alves Cruz fala ao Papo Amado sobre "Meridiana" e participa da Caixa de Histórias na Flip

22/07/2026 às 19:10 · Atualizado há 3 semanas
Eliana Alves Cruz
Eliana Alves Cruz em entrevista ao Papo Amado (Foto: Amado Mundo)

A escritora e jornalista carioca Eliana Alves Cruz recebe nesta quinta-feira (23/7) o Prêmio Guimarães Rosa, da Academia Brasileira de Letras (ABL), concedido ao melhor livro de ficção publicado no Brasil em 2025. Em “Meridiana” (Companhia das Letras), romance vencedor, uma mesma história é narrada por seis personagens de uma família negra que passa por mudanças sociais, afetivas e geracionais.

Em entrevista ao Papo Amado, na última segunda-feira, Eliana explicou como construiu “Meridiana”. Contou que precisou “encarnar” cada um dos seis narradores do livro, refletiu sobre o papel da empatia na literatura e afirmou que saiu do processo de escrita “um ser humaninho melhor”. 

“O ‘Meridiana’ é um caminho. É fruto de todos os outros livros. Foi um exercício de escrita muito difícil para mim. Não sou atriz, mas acho que deve ser algo semelhante ao que os atores fazem. Tive que encarnar os personagens e começar a olhar o mundo como eles. ‘O que o Ernesto pensaria dessa situação?’ ‘O que a Aurora diria disso aqui?’ Calçar os sapatos de outras pessoas, é, ao fim e ao cabo, um exercício de empatia”, afirmou. 

Meridiana (Foto: Reprodução/Companhia das Letras)

Foi justamente essa construção que levou a ABL a escolher “Meridiana” como o melhor livro de ficção publicado no Brasil em 2025. Ao anunciar o prêmio, a Academia definiu o romance como uma “odisseia, ou antiodisseia, de uma família negra”, e destacou a intensidade emocional da narrativa e a forma como acompanha os conflitos provocados pela mudança da favela para um condomínio de classe média.

Embora acompanhe a trajetória de uma família negra em ascensão social, “Meridiana” evita transformar seus personagens em porta-vozes de conceitos. Ao longo das 184 páginas do romance, Eliana Alves Cruz prefere apresentar situações e relações humanas a verbalizar categorias como racismo, pertencimento ou desigualdade. A escolha, segundo ela, é deliberada: mostrar primeiro a complexidade das pessoas para que o leitor reconheça, por si, as questões que marcam a narrativa.

“Fujo dessas palavras que se esvaziaram por conta das redes sociais. Quero que quando elas apareçam, tenham a força que deveriam ter. Não é só racismo que está esvaziado. Liberdade, amor, potência… [muita coisa perdeu força]. Aí se fica com aquela sensação de ‘hum, que palavra chata’.  ‘Meridiana’ é sobre uma família negra, mas fala também de pertencimento, migração, pressão estética, envelhecimento, homossexualidade, caminhos da vida… Tantas coisas que dizem respeito a todos nós, idependente de ser pessoa negra ou não. Eu prefiro mostrar a situação e o ser humano. Não preciso verbalizar tudo”, explicou. 

Eliana Alves Cruz e Conceição Evaristo na Caixa de Histórias

O documentário “Escreviventes: uma conversa entre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz”, de Estevão Ribeiro, terá o Amado Mundo como coprodutor. Foto: Thiago dos Santos

Eliana Alves Cruz participa da programação da Casa Caixa de Histórias, espaço organizado pelo Amado Mundo, pela editora mapa lab e pela Janela Livraria durante a Flip 2026. Às 11h, a escritora divide a mesa “Escreviventes” com Conceição Evaristo e o cineasta Estevão Ribeiro, em conversa mediada pelo colunista de literatura do Amado Mundo, Luiz Maurício Azevedo. O encontro propõe um diálogo sobre as trajetórias das duas autoras, suas obras e a permanência de temas como memória, raça, afeto e escrita na literatura brasileira contemporânea.

Leia também: Amado Mundo se torna coprodutor de filme sobre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz

Durante a mesa, será exibido o teaser de “Escreviventes: uma conversa entre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz”, documentário coproduzido pelo Amado Mundo e dirigido por Estevão Ribeiro. Ainda em produção, o longa reúne as duas escritoras em uma conversa sobre suas trajetórias pessoais e literárias, além de refletir sobre as experiências que moldaram suas obras. O filme também traz depoimentos de nomes como Itamar Vieira Junior, Flávia Oliveira, Renato Noguera e Teresa Cárdenas. 

A programação completa para a Caixa de Histórias pode ser vista aqui. Neste ano, o Amado Mundo, a mapa lab e a Janela Livraria terão uma segunda casa na Festa Literária Internacional de Paraty: a Brasil de Histórias: confira aqui.

Antes da estreia do documentário, o diálogo entre as duas escritoras chega às livrarias. A editora Pallas lança, também nesta sexta-feira, “Escreviventes”, na Casa da Estante Virtual, com a presença de Eliana e de Conceição Evaristo.

Assista ao Papo Amado com Eliana Alves Cruz:

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