Entrevista

A extrema direita se apoia na produção da humilhação, afirma o sociólogo Jessé Souza

No Notas de Rodapé, o autor de "A elite do atraso" analisa como o capitalismo financeiro e o legado da escravidão moldam o comportamento do "pobre de direita"

Publicado em 21/07/2026 às 05:58
Jessé Souza
Sociólogo e escritor Jessé Souza

Sociólogo e escritor, Jessé Souza afirmou no programa Notas de Rodapé, do Amado Mundo, que entender o fenômeno da extrema direita no Brasil — e no mundo como um todo — exige olhar para o “pobre remediado”, conhecido no país como classe média baixa, que se sente humilhado pelo sistema. 

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“A matéria-prima de toda forma de fascismo é gente que se sente humilhada. Esse é o material, eu acho, da extrema direita”, disse o autor de “A elite do atraso”. 

Jessé Souza: o ressentimento como combustível para o fascismo

Ele argumenta que a base material do fascismo é a sensação de humilhação social. Segundo o sociólogo, a extrema direita oferece a essas pessoas um “bode expiatório” e a sensação artificial de superioridade sobre grupos ainda mais vulneráveis, como negros e imigrantes. 

De acordo com o pesquisador, esse processo envolve a “animalização” do outro, para que o indivíduo sinta que não é “um lixo” ou um fracasso absoluto. Ele destaca que o capitalismo financeiro atual exacerbou esse cenário ao destruir o meio de consumo, deixando a população desorientada e facilmente manipulável por uma imprensa privatizada que impede a identificação dos verdadeiros inimigos econômicos. 

A escravidão como instituição invisível

Souza também declara que a permanência da escravidão é uma estrutura fundante da sociedade brasileira. Ele critica a interpretação clássica de que o principal problema do Brasil é a corrupção estatal, afirmando que esse discurso serve para criminalizar a política e poupar o mercado. 

Para o sociólogo, a escravidão se manifesta hoje no prazer da humilhação e no desprezo pelo povo, tratando o trabalhador sem conhecimento incorporado como mera “mão de obra muscular” animalizada e que não precisa de estudo. 

“O grande lance da escravidão é que não é só reduzir o outro à mão de obra muscular animalizada, porque o que humaniza a mão de obra é o conhecimento. Quando você não tem nenhum conhecimento incorporado para a sociedade, você é literalmente tratado como um jumento”, conclui. 

 Assista ao Notas de Rodapé na íntegra:

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