Alvo da guerra dos EUA não é propriamente o Irã, e, sim, a China, afirma especialista
Aurelian Maudonnet, especialista em transição energética, prevê ainda que, diante do bloqueio do Estreito de Ormuz, o Brasil pode transformar crise em vantagem geopolítica, lucrando com a alta exportação de petróleo e terras raras

A escalada do conflito no Oriente Médio, iniciado pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã no sábado (28), resultou na decisão da Guarda Revolucionária iraniana de fechar o Estreito de Ormuz, como forma de retaliação à ofensiva. Essa passagem estratégica é responsável pelo escoamento de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo, além de um grande volume de gás natural.
Dessa forma, o bloqueio do importante “corredor” de pouco mais de 30 quilômetros gera um forte impacto na economia global, puxado pelo risco de uma disparada no preço do barril de petróleo, que pode saltar dos atuais US$ 70 e chegar a US$ 100 ou até US$ 150 .
A alta energética desencadearia uma forte pressão inflacionária global com reflexos diretos do transporte logístico, que precisará contornar o continente africano para chegar até Europa e Ásia, levando mais tempo para percorrer as rotas marítimas. A crise também afetaria duramente a indústria, já que 15% da produção mundial de plástico depende dessa mesma rota, além de encarecer a oferta de alimentos, pois 33% dos fertilizantes globais transitam pelo estreito.

Para o Brasil, os reflexos desta crise apresentam impactos imediatos, mas também abrem margens estratégicas. No curto prazo, o consumidor brasileiro enfrentará uma pressão inflacionária, com o encarecimento dos alimentos e dos combustíveis refinados. Contudo, no panorama macroeconômico, a disputa revela um xadrez mais profundo, revelando potenciais vantagens competitivas para o país, conforme explica Aurelian Patrick Maudonnet, especialista em mercado global de energia.
Em entrevista ao Matinal, Maudonnet analisa também que o alvo desta guerra dos Estados Unidos contra o Irã não é propriamente o país persa, mas, sim a China.
“Porque hoje o maior utilizador do petróleo do Irã é a China e, como o regime ficou fraco nos últimos anos, ela teve acesso a um petróleo muito barato”, detalha o especialista.
É nesta lacuna, portanto, que o Brasil encontraria sua vantagem competitiva: Maudonnet acredita que, “se souber navegar bem esta crise, o Brasil pode sair muito bem do ponto de vista geopolítico”, utilizando suas vastas reservas de petróleo offshore e terras raras como moeda de troca global.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista do especialista ao Matinal ou veja em vídeo ao final.
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Matinal: Em um cenário de bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz, no caso de isso se estender pelo tempo, qual é o impacto imediato no preço do petróleo e do gás natural? E o que isso significa para a economia?
Aurelian Patrick Maudonnet: O pulo de gato é a duração do conflito. Claramente, o Irã tomou essa decisão como uma medida de retaliação contra o ataque dos Estados Unidos e do Israel. E a incógnita aqui é, de fato, o tempo de duração, da interrupção da navegação. Se o tráfego for regularizado rapidamente, os preços tendem a recuar. Mas o que vemos nas bolsas é o aumento dos preços. Domingo à noite, com o anúncio do ataque, os preços do petróleo bruto já tinham chegado na casa dos US$ 80 por barril. Agora, está na casa dos US$ 75, mas pode, sim, chegar a preços mais elevados, na casa dos US$ 100 ou US$ 150. E, com o aumento dos preços do petróleo e do gás natural, sobem os preços de outros insumos, já que por ali transitam 33% dos fertilizantes, incluindo o amoníaco, insumo fundamental na produção alimentar, além de 15% da produção mundial de plástico. Isso encarece de forma geral o transporte e a logística, porque se você não pode passar pelo Estreito de Ormuz, tem que contornar a África para chegar até Europa e Ásia. Então, quando mais o conflito perdura, mais vamos assistir a um cenário de aumento de preços.
Como a China é afetada e como isso pode impactar o Brasil?
Em termos geopolíticos, o alvo dessa guerra dos Estados Unidos contra o Irã não é a propriamente o Irã, é a China. Hoje a China é o maior utilizador do petróleo do Irã. Como o regime ficou muito fraco nos últimos anos, ela teve acesso a um petróleo muito barato. É isso que interessa a China, porque ela precisa de muita energia para fazer a economia rodar e também construir as suas competências em tecnologias avançadas – inclusive inteligência artificial. E agora a China vai ter que responder a isso. Ela vai ter que recompor suas cadeias de fornecimento de energia, e isso significa encarecer os preços de produção para os produtos fabricados no solo chinês.
Para o Brasil, vejo uma possibilidade de geopolítica muito boa, visto que uma das possibilidades para a China é bloquear as exportações de terras raras para os EUA. E, nesse jogo, o Brasil tem uma boa carta geopolítica, pois é a segunda maior reserva de terras raras. Por exemplo, o nióbio tem 90% das reservas aqui. Assim, o Brasil pode chegar a aumentar suas exportações de terras raras, tanto para os EUA como para a Europa. Mas é claro que, no curto prazo, no Brasil, os efeitos dessa operação militar são bastante negativos: os preços vão começar a disparar, a inflação sobe, e os mercados financeiros tendem a recuar por conta da aversão ao risco. O aumento dos fertilizante afeta também os preços dos produtos alimentares aqui no Brasil, que adiciona ao círculo vicioso da inflação. Os efeitos serão mitigados para o Brasil, mas a curto prazo com certeza é um impacto muito negativo.

Em relação à produção de petróleo, como avalia o Brasil posicionado atualmente e o quanto dá para falar que ele pode, de alguma maneira, ser um exportador alternativo para países dependentes do Estreito de Ormuz, ou isso é inviável?
Os efeitos setoriais para o Brasil vão ser mistos, mas acredito que, em termos agregados, o Brasil tem mais a ganhar do que perder nessa operação militar. O que ele tem para ganhar? Como ele é exportador de petróleo bruto para o exterior, as receitas de exportação vão aumentar, os lucros da Petrobras, propriedade do estado federal, vão crescer, e o saldo da balança comercial vai aumentar.
A gente sempre precisa se relembrar que o Brasil ainda importa alguns combustíveis refinados, como o diesel e a gasolina. Infelizmente, nós não temos a capacidade total de refinar o petróleo que está sendo produzido pelo Brasil, então ainda dependemos dos preços do mercado internacional. Mas quando a gente olha impacto macro e impacto micro, eu acho que no total isso pode ser positivo para o Brasil. Porque às vezes o consumidor fala: “Mas eu não vejo nada positivo para mim, os preços da gasolina e alimentação estão aumentando, cadê o positivo?” É porque balança comercial, agregados macro, não têm muita realidade para o consumidor brasileiro, mas para o Brasil, como país, pode tender ao positivo. Do ponto de vista geopolítico, o Brasil, se souber navegar essa crise, já que não tomou nenhum lado, pode exportar mais petróleo, porque são as maiores reservas offshore, que foram descobertas com pressão, e também exportação de terras raras. Isso interessa muito aos Estados Unidos e à China. Se souber bem navegar essa crise, o Brasil pode sair muito bem dessa jogada do ponto de vista geopolítico.
Assista à íntegra da entrevista de Aurelien Maudonnet ao Matinal: