Entrevista

‘Hoje, a Europa está sozinha’, diz professor brasileiro da Sciences Po

Em entrevista ao Lisboa Connection, Gabriel Petrus analisa o cenário geopolítico europeu e como a aproximação do continente com o Sul Global pode redefinir o multilateralismo

Publicado em 23/02/2026 às 06:00
O professor Gabriel Petrus em entrevista ao Lisboa Connection (Foto: Amado Mundo)

A Europa passa por um momento de isolamento político e econômico. A guerra entre Ucrânia e Rússia, o vai e vem das tarifas americanas e o avanço da extrema-direita em países centrais como França e Alemanha pressionam o modelo de integração que sustentou o bloco nas últimas décadas.

Para Gabriel Petrus, professor brasileiro da Sciences Po e ex-diretor da Câmara Internacional de Comércio, esse cenário marca o fim da globalização como estruturada no pós-Segunda Guerra Mundial e inaugura um período de incerteza nas relações internacionais.

Direto de Paris, em entrevista ao Lisboa Connection, Petrus alertou para o risco de escalada militar no continente. “A Europa está em guerra com a Rússia. Essa já é uma realidade”, disse, ao refletir sobre a possibilidade de novos conflitos no Leste Europeu e as dúvidas quanto ao papel dos Estados Unidos como aliado histórico e às garantias da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Sobre a França, o professor destacou o crescimento da extrema-direita e os efeitos que uma eventual vitória eleitoral poderia ter sobre o projeto europeu. Também analisou a relação entre Lula e Emmanuel Macron e o acordo Mercosul–União Europeia como resposta política à onda global de protecionismo. “O mais importante do acordo é dar novo vigor ao multilateralismo”, afirmou.

Leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo ao final do texto.

A globalização acabou?
Ela chegou a um pico. A crise de 2009 mostra, por exemplo, que as cadeias globais de valor chegaram a um máximo de integração. Em paralelo, a ascensão de populistas e extremistas levou a uma crise de confiança. A mudança de ritmo da economia global também é um fator. Novas tecnologias, como a robótica, a genética e a inteligência artificial, estão trazendo um ritmo novo de integração. A questão é: qual é o novo modelo de globalização que está à nossa espera? Vamos ver outras ondas de globalização, mas certamente a que conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial acabou.

O acordo entre Mercosul e União Europeia chegou tarde?
O acordo pode dar novo ritmo à integração econômica, pois cria a maior zona de livre comércio do mundo. Estamos falando de 700 milhões de consumidores entre Europa e Mercosul. É uma resposta também ao protecionismo americano em um momento em que a própria Europa é vítima. O mais importante do acordo é dar um novo vigor ao multilateralismo. A Europa se alinhar com países do Sul pode trazer um impulso de reforma das instituições internacionais, como o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio e a própria ONU. Para além da economia, são benefícios políticos. E, no curto prazo, os impactos políticos serão mais expressivos. A integração econômica vai demorar anos

Quem ganha no jogo do protecionismo global?
Só vejo perdedores. Os próprios americanos são perdedores: a inflação já está batendo, os índices de investimento estrangeiro [estão sendo afetados] pela incerteza das políticas tarifárias, além de questões que envolvem o Congresso e a Suprema Corte. No Japão, estamos vendo também um reposicionamento em relação à política monetária, com um desenvolvimento bastante prejudicado. Na guerra contra a Ucrânia, o mundo sofreu uma crise nas cadeias globais do agro e da alimentação. As barreiras devem sempre ser moduladas nas políticas externas e comerciais, mas nunca usadas com propósito político alheio ao econômico. Não vejo razão econômica nenhuma nas tarifas do Trump.

O que a França ainda tem a oferecer ao mundo?
A França é hoje um dos últimos bastiões da ideia de um liberalismo puro e revolucionário, que surge com a Revolução Francesa. É uma luz para o mundo em relação aos valores da república: liberdade, igualdade e fraternidade. É uma referência nas liberdades, nos direitos fundamentais e no humanismo. 

E a relação entre a França e o Brasil?
O Brasil e a França são dois países que pilotam a agenda do G20, pensando no pós-tarifaço do Trump e como as instituições internacionais podem ser reformadas. Esse é um ponto. [Outro ponto] é a agenda ambiental e como compensar a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. A relação com os franceses é interessante porque quebra também a polêmica de que o sul global é antidemocrático. O Brasil hoje é uma das grandes forças das democracias liberais no mundo, pela forma como reagiu a uma tentativa de golpe de Estado, fez o que os Estados Unidos não conseguiram fazer.

A relação do Lula com o Macron é um ganha-ganha para os dois. O Lula é um ídolo da esquerda francesa.
Sim. Ele é lembrado como o presidente que tirou milhões de brasileiros da miséria. O interesse da França e do presidente Macron, especificamente, em se aproximar do presidente Lula é talvez aproveitar a boa onda que o Brasil está surfando agora.

(Foto: Ludovic Marin/AFP)

Uma guinada da França para a extrema-direita poderia levar à desintegração do projeto europeu?
É um risco que já existe sobre a mesa dos cenários de análise geopolítica. Estamos vivendo uma situação de “casal franco-alemão”. A França é a alma da União Europeia e a Alemanha o corpo. Os outros países são órgãos vitais. A extrema-direita francesa sempre se afirmou eleitoralmente com o discurso do “Frexit”, que seria a saída da França da UE, como a do Reino Unido. Seria um grande retrocesso. 

E dentro da França, o que pode acontecer se a extrema-direita ganhar?
A França tem um problema em relação à participação eleitoral. O voto não é obrigatório e essa é uma das razões para a ascensão dos extremos. Muita gente não vai às urnas. O dia de amanhã de uma eventual eleição da extrema-direita no poder vai ser o acordar de parte da população que até então nunca participou da política. 

Leia também: Sem alternativa a Macron, extrema-direita cresce, avalia brasileira parlamentar na França

A relação do governo brasileiro com Vladimir Putin é de visão de mundo ou uma estratégia de que se dar bem com a Rússia pode ser importante no futuro?
O Brasil condenou a invasão da Rússia contra a Ucrânia de forma muito clara na ONU e sempre votou pela condenação da guerra. É uma posição majoritária no governo. A Rússia, independentemente do Putin e da tendência autoritária, é um país importante para a economia global e para as relações internacionais. Há uma parte do governo que vê o mundo de amanhã e [que] o Brasil no pós-guerra pode desempenhar um papel importante em ajudar a Europa a reatar laços com uma nova Rússia. A questão é quando e como vai acontecer. 

O quão provável é um novo conflito da Rússia com alguma ex-república soviética ou com algum país do leste europeu?
A Europa está em guerra com a Rússia. Essa já é uma realidade, [porque] a Ucrânia faz parte da Europa. A questão é em que medida essa guerra pode escalar para uma intervenção militar direta das forças russas em outros países, um cenário que já tem sido considerado. Em um momento de crise orçamentária, o maior orçamento da França é o militar.

O artigo quinto da OTAN (que diz que um ataque a um membro é um ataque a todos) só funciona se os Estados Unidos cumprirem a promessa, o que não é tido como crença pelos franceses e seus colegas, levando em conta Donald Trump.
Hoje, a Europa está sozinha e, por isso, é importante estar junto com a América do Sul politicamente. Não em um acordo militar, mas em um acordo econômico. Isso pode trazer um pouco de ar neste momento de isolacionismo sem precedentes que o continente europeu vive.

Assista à íntegra da entrevista de Gabriel Petrus ao Lisboa Connection.

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