Entrevista

No Brasil, a polarização não é partidária. É gosto do Lula, e não do Bolsonaro. E vice-versa

Professor da FGV, o cientista político Jairo Nicolau explica como de fato polarização impacta a escolha por candidatos nas eleições

27/05/2026 às 18:31 · Atualizado há 5 meses
Cientista político Jairo Nicolau lança livro que analisa polarização eleitoral em duas décadas. (Laycer Tomaz / Câmara dos Deputados)

A palavra polarização foi eleita em 2024 como a palavra do ano, segundo o Dicionário Merriam-Webster. Apesar do termo ter ganhado mais fama com as eleições de 2018 — quando a vitória de Jair Bolsonaro nas urnas rompeu com 13 anos do Partido dos Trabalhadores no poder —, o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas Jairo Nicolau mostra que expressão já é velha conhecida da análise política. 

Segundo Nicolau, de 2002 até as eleições de 2022, o processo tem sido polarizado. A similaridade dentro do período analisado se inicia com o uso das urnas eletrônicas. Para o cientista, outro ponto a ser destacado é que um candidato do PT sempre disputou pelo segundo turno — ou seja, a grande mudança era o candidato que iria enfrentar a sigla. 

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O padrão só foi mudar em 2018, quando em 13 anos um candidato do partido não venceu o segundo turno. O quadro eleitoral das duas décadas foi analisado pelo professor no seu livro “O país dividido”, da editora Zahar. 

Uma das análises trazidas por ele no livro é sobre o voto dos evangélicos que, até 2014, votavam majoritariamente com o Partido dos Trabalhadores. Todavia, em 2018, o grupo foi essencial para eleger o ex-presidente Jair Bolsonaro. 

Livro “O país dividido”, da editora Zahar. (Reprodução/Editora Zahar)

Veja trechos da entrevista: 

Em relação a evangélicos especificamente, como que a gente poderia fazer uma análise da caminhada do eleitorado evangélico nos últimos 20 anos?

Essa é uma das mudanças mais significativas trazidas em 2018, porque os evangélicos em 2002 apoiaram maciçamente Lula, mas não no grau em que eles viriam a apoiar o Bolsonaro em 2018. E, ao longo do tempo, a fração de apoio à esquerda, aos candidatos do PT, no caso Lula e Dilma, foi diminuindo. Mas mesmo assim, até 2014, a gente tem ali estatisticamente uma certa segurança de dizer que eles pendiam para a esquerda.

O que aconteceu em 2018, que é um dos temas mais importantes para a gente estudar a política brasileira, é essa virada. O que levou essa virada tão grande, de um ano para o outro? A minha hipótese tem a ver com o fato de um certo alinhamento dos evangélicos com o crescimento da pauta conservadora no Brasil. Esses temas, conservadorismo, comportamental, aborto, drogas, casamento homoafetivo, isso não estava na pauta das grandes discussões nacionais. Acho que havia até um pacto meio de não agressão, de que são assuntos que não deveriam ser trazidos.

Quando o senhor fala do pacto de não agressão, não significa que os evangélicos não tivessem as bandeiras conservadoras em relação a esses temas. Apenas isso estava adormecido, certo?

Os evangélicos —comparando com outros grupos, homens, mulheres, jovens, pessoas mais ou menos escolarizadas — eles são o grupo mais conservador. Dois de cada três evangélicos, lá pela minha classificação de conservadorismo como costume, são conservadores. Então isso é inquestionável, o que acontecia é que o eleitor era evangélico, mas ele também gostava do Bolsa Família.

Ninguém sabia a posição sobre família, sobre aborto do Lula, do PT. Eu acho até que esses temas nunca foram temas da esquerda clássica no Brasil. Digamos, posições nas quais eles foram colocados pela campanha muito eficiente do Bolsonaro, ou seja, o discurso era: eu sou conservador e aquele lado de lá defende tais pautas que aquele lado de lá nunca defendeu assim explicitamente. Tanto que o PT é um partido formado por católicos, presença de algumas denominações clássicas do movimento protestante, e nunca foi uma questão. O PT nunca trouxe esses temas à baila, porque sabe que internamente, mais do jogo, o Bolsonaro conseguiu a campanha, conseguiu empurrar para o lado de lá, e os evangélicos que votavam no PT, já tinham votado no Lula, começaram a ver o lado de lá como algo a ser combatido, algo que era uma outra tribo.

Qual a sua visão para essa eleição de como que, nas condições de temperatura e pressão que temos, como deve caminhar o jogo político à luz dessa polarização afetiva?

Então, em 2018, o Brasil polarizou a direita, e 2022 polarizou tanto a direita quanto a esquerda. Então, foi a eleição da série histórica mais polarizada, como nós sentimos. Primeiro, tem a ver com a avaliação que se faz dos nomes, é Lula e Bolsonaro. Essa polarização não é ideológica, ela não é do PT, porque quando a gente pede para as pessoas avaliarem o PL, ninguém sabe nada do PL.

Então, no Brasil, a polarização não é partidária, como nos Estados Unidos, não é direita ou esquerda, é gosto do Lula, não gosto do Bolsonaro e vice-versa. E a outra dimensão que não está no livro, mas que é importante, é que quantos por cento das pessoas no Brasil que, apesar de terem essa atitude de gosto ou não gosto, são realmente radicalizadas no seu dia a dia, que são envolvidas com a política, que vão para as redes sociais, que acompanham os programas.

Pela minha estimativa, eu fiz vários testes, isso daria mais ou menos 20%, um pouco mais à direita do que à esquerda. Então, quando a gente fala do grupo de WhatsApp da família, da polarização que a gente observa entre os formadores de opinião, a gente está falando de um contingente pequeno, relativamente pequeno.

Assista a entrevista completa do Matinal:

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