Dalla Nora: Itália adota ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’ ao adiar acordo Mercosul-UE
Adiamento da assinatura revela disputa por subsídios, fragilidade política de Macron e negociação distributiva liderada pela Itália, mais do que uma rejeição ao acordo.
O novo adiamento da assinatura do acordo entre União Europeia e Mercosul não é exatamente uma surpresa, e tampouco um drama. Ao contrário do que parte do debate público sugere, o empurrão para janeiro diz mais sobre negociação interna e distribuição de custos políticos do que sobre uma rejeição real ao acordo, analisou o economista Paulo Dalla Nora Macedo no Matinal desta segunda-feira (22).
Se a União Europeia não quisesse assinar, bastaria colocar o texto para votação agora. Ele seria derrotado, e o assunto estaria enterrado por anos. Não é isso que está acontecendo. O adiamento é, na prática, uma forma de compor interesses domésticos, especialmente na Itália.

Impasse italiano é menos ideológico e mais orçamentário
Dentro do acordo, existe um pacote de subsídios para compensar agricultores afetados pela abertura comercial. O que o governo de Giorgia Meloni busca é simples: uma fatia maior desse bolo para os produtores italianos. Nada muito diferente da velha máxima da economia política: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Por isso, o gesto de Meloni não indica oposição estrutural ao acordo. Se assim fosse, ela não teria ligado diretamente para o presidente Lula pedindo mais algumas semanas nem reafirmado publicamente o compromisso com a assinatura. O movimento é típico de negociação distributiva: segurar o processo para extrair mais benefícios internos.
França tem feito barulho, mas um barulho mais cinematográfico
A oposição de Emmanuel Macron ao acordo é declaratória, não operacional. Não há mobilização de bloco, não há articulação concreta para barrar a votação, não há gestos políticos relevantes junto aos setores que protestam.
Macron fala contra, mas não age contra. Se quisesse enterrar o acordo, faria pressão para levá-lo à votação agora, sabendo que poderia perder. Não o faz. Limita-se a entrevistas e declarações voltadas para consumo doméstico, num momento em que seu capital político interno está claramente em declínio.
E esse enfraquecimento não é pontual. Macron caminha para o fim do mandato com aprovação abaixo dos 20% e com uma chance concreta de ver a extrema-direita vencer a próxima eleição presidencial.
Não há sucessor viável do campo moderado no horizonte. Seu papel na política europeia tende a ser cada vez mais o de espectador, com uma exceção importante.
A França segue sendo, hoje, o único país da Europa com capacidade militar plena: forças armadas estruturadas, indústria bélica robusta e arsenal nuclear. Isso mantém Macron relevante no tabuleiro geopolítico, sobretudo diante da guerra na Ucrânia e da ameaça russa no flanco oriental do continente. Mas essa relevância externa não compensa a fragilidade interna.
Acordo Mercosul–UE sobrevive por cálculo estratégico
Ele interessa economicamente, geopoliticamente e como sinal de autonomia europeia num mundo cada vez mais pressionado por Rússia e Estados Unidos.
Por isso, o adiamento não é o começo do fim, mas parte do roteiro. Ajustam-se subsídios, acomodam-se narrativas nacionais e, passada a virada do calendário, a assinatura tende a sair.
Talvez não no Brasil, o que é uma ironia histórica. Lula foi o principal motor desse acordo do lado sul-americano e também um dos poucos líderes a defendê-lo de forma consistente na Europa. Mas, na política internacional, simbolismos raramente vencem conveniências.
O acordo deve sair. Só não sai ainda porque, na Europa de hoje, todo mundo quer garantir que seu pirão venha um pouco mais cheio.
Assista à análise de Paulo Dalla Nora Macedo e ao Matinal de segunda-feira na íntegra, com os apresentadores Guilherme Amado e Beatriz Bulla, e participação do cientista político Felipe Nunes, da Quaest.