Na política ou no entretenimento, TV ainda tem força, mas o protagonismo atual é das redes
Em entrevista ao Matinal, o jornalista e influenciador Muka comenta sobre a importância da narrativa na estratégia digital e discute se existe uma 'fórmula' para a linguagem da internet

Seja em meio à batalha digital da disputa por votos entre Flávio Bolsonaro e Lula, os dois prováveis candidatos que vão polarizar as eleições deste ano, seja em uma final do “Big Brother Brasil”, as redes sociais vêm ditando o ritmo no que antes era comandado pela televisão: alcance e engajamento dos eleitores/espectadores.
Para conversar sobre o quanto os meios digitais de fato mobilizam as bases (numa disputa eleitoral ou no BBB), o Matinal conversou com o jornalista, apresentador e influenciador digital Murilo Ribeiro, mais conhecido como Muka, que também é debatedor fixo e diretor de conteúdo do programa “Sem censura” com Cissa Guimarães, da TV Brasil.
“O que ressoa na rede social pauta muito mais o debate do que, eventualmente, um spot de propaganda eleitoral exibido no intervalo da programação. E os candidatos sabem disso”, acredita Muka, para quem as instituições vigilantes, como a Justiça Eleitoral, precisam redobrar os mecanismos de controle durante o ciclo eleitoral deste ano.
O jornalista também comentou sobre a importância da narrativa na estratégia digital, assim como a “fórmula” para um formatou ou linguagem bem-sucedida na internet.
Leia abaixo os principais trechos da conversa ou assista ao Matinal na íntegra em vídeo.
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Uma pesquisa da Quaest mostrou que 39% dos brasileiros usam as redes sociais como principal fonte de informação política, superando a TV hoje (34% dos entrevistados). Na eleição de 2018, por exemplo, a gente viu o Geraldo Alckmin, que tinha o maior tempo de TV e dizia que isso era definidor de campanha, não chegar nem ao segundo turno. Qual o tamanho das redes hoje na comunicação política frente aos veículos tradicionais?
Não dá para desprezar o potencial da televisão, mas ela perdeu o protagonismo. Você trouxe um exemplo muito bom de quase 10 anos atrás com a derrota do Alckmin, apesar do tempo enorme de TV que ele tinha. Tem outro exemplo recente: o PowerPoint do escândalo do Banco Master exibido pela Globonews, que fez um barulho enorme. Não tenho dúvida de que a reação àquele PowerPoint tão esquisito que a Globonews escolheu colocar no ar foi muito maior do que o número de pessoas que tinham assistido àquele programa, o “Estúdio i”. Tanto que fez o próprio programa fazer um pedido de desculpas, além de retirar o conteúdo do streaming da Globo. É muito determinante a força da rede social. O que ressoa na rede social pauta muito mais o debate do que, eventualmente, um spot de propaganda eleitoral exibido no intervalo da programação. E os candidatos sabem disso. Por isso é tão importante que o STF e todo o sistema da Justiça Eleitoral estejam muito atentos, assim como foi no último ciclo, para que ninguém faça um uso nocivo dessa ferramenta fantástica que é a internet nesse processo eleitoral. O desafio é imenso para este ano, e é importante, sim, que a gente tenha ali instituições vigilantes. Porque o peso das redes é determinante atualmente.

De 2022 pra cá, vimos um esforço da equipe do Lula de tentar se aproximar de influenciadores digitais e tentar navegar melhor nesse universo no qual a direita conseguiu explorar de uma maneira muito mais eficiente politicamente nos últimos tempos. Você acha que mudou algo na comunicação da esquerda nas redes? Ela vai conseguir fazer frente à direita nas eleições?
Uma questão que não se levanta quando se está falando da extrema direita é que existe uma série de influenciadores relacionados à extrema direita, com perfis que foram nutridos ao longo dos últimos anos, com grande alcance. Lamentavelmente, a gente passou por uma pandemia, e viu como esses perfis e como essas pessoas desinformaram no período em que o que elas faziam podia ajudar a salvar vidas. Não foi o que aconteceu. Elas ajudaram a mais gente a se contaminar e, lamentavelmente, mais gente a perder suas vidas. Houve muito pouca cobrança, e ainda há muito pouca cobrança, e muito pouca curiosidade para saber como esse ecossistema da extrema direita que desinforma e que é tão nocivo para o nosso convívio social, como ele é financiado, porque isso custa dinheiro.
Quando você pensa na esquerda, primeiramente, espero que a esquerda faça frente, porque essa eleição de 2026, mais uma vez, vai ser uma eleição em que a gente vai ter o desafio de preservar a democracia brasileira de um grupo que já tentou dar um golpe de Estado. E a sociedade brasileira, historicamente, tem falta de memória. Mas vejo figuras no campo progressista que conseguem dominar muito mais essa comunicação, e vou citar aqui a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que é uma pessoa de uma coragem de uma capacidade de comunicação invejáveis. Acho que pesa do nosso lado a comunicação de um governo de muitas entregas, e que necessariamente não foram percebidas ainda pela população. E há um desafio, que lamentavelmente veio para ficar, que é desmentir fake news, e hoje em dia, com inteligência artificial, isso se torna ainda mais perigoso.
Tem uma fórmula do que você acha que um conteúdo político precisa ser embalado, em termos de linguagem, distribuição, pegada, pra ir bem na internet?
Não tenho fórmula, mas acho que, no caso de desmentir uma situação preocupante, precisa ter agilidade na resposta. A gente viu, há um tempo, durante a crise do Pix, como houve uma demora para que houvesse uma reação do governo, e o estrago que aquele vídeo do Nikolas Ferreira acabou produzindo sobre o assunto. A resposta tem que ser muito rápida porque a internet é muito real time. Se você deixa a coisa decantar, aquilo já vai virando uma outra coisa, vai crescendo e se espalha.
Sobre linguagem, a internet tem muita coisa da sacanagem, do meme, do humor e deboche. Às vezes, para algumas campanhas e para alguma situação, para o governo sobretudo, não dá para ser engraçadinho, tem que falar sério. Então depende muito. No meu caso, quando comecei a fazer esse conteúdo político, eu usava humor e a linguagem do entretenimento, do deboche, mas falava coisas seríssimas. Acho que essa mistura de entretenimento e informação é um atrativo importante. Aquele jornalismo mais tradicional está em descrédito, o que é uma pena, falo isso com uma tristeza enorme, porque eu sou jornalista, e a gente sabe a importância que o jornalismo tem, inclusive, para salvar uma democracia de novo. Mas, quando você chega de uma maneira mais descontraída, informando com uma linguagem que a gente fala na mesa de um bar, que a gente fala entre amigos, as pessoas se desarmam um pouco, e você chega mais perto dessa comunicação.
Num assunto que você domina muito bem, o BBB, ele mostra a importância do engajamento para ganhar. Vários candidatos já chegam ao programa famosos e com muito mais seguidores do que quem ganha de fato, mas não levam o prêmio. Fazendo um paralelo com a eleição, quais são os segredos que você considera que um candidato tem que observar para conseguir engajar de fato?
No Big Brother, assim como na eleição, não é sobre seguidores ou engajamento, mas, sim, ganha o participante que consegue ter um maior domínio da sua narrativa, de quem ele é dentro da casa, e do quanto a equipe dele nas redes conta melhor a história que aquela pessoa está vivendo na casa. Claro que no BBB, no reality show, tem uma narrativa clássica que é a da pessoa que é excluída na casa, que sofre resistência dos outros 20 moradores, que é perseguida, humilhada, e o Brasil se compadece dessa pessoa e costuma fazer dela campeã. Isso nada tem a ver com o número de seguidores prévios. A gente já teve a Jade Picon entrando com 20 milhões de seguidores, e não viveu essa história no BBB, e não saiu de lá campeã. Claro que há uma outra situação em que a coisa sai um pouco da curva, e a gente não consegue nem entender por que certas pessoas conseguiram vencer, quando o público abraça figuras que são lamentáveis, tanto no Big Brother quanto nas urnas.
Na política também é sobre narrativa, né? É quem tem a melhor história, e essa narrativa é muito costurada com a proposta de país que se tem. A oposição já começou a campanha, e é o papel dela. O governo, o presidente Lula, não começou porque nem pode. Agora, a partir do momento em que essa história começar a ser contada, o que o governo fez, quais foram as entregas, e quando as pessoas começarem a ser lembradas de tudo aquilo que o outro lado representa, acho muito pouco provável que a gente consiga ter um cenário como esse que as pesquisas atualmente estão mostrando no longo prazo.
Você é muito atacado pela opinião que você dá sobre o BBB?
Nossa, demais. As pessoas não conseguem enxergar a figura de um comentarista. Elas acham que, necessariamente, se você critica alguém é porque está torcendo por outra pessoa. E não é o caso. Eu cubro reality show há cinco anos, e não torço por ninguém. Vou analisando os erros e acertos do jogador, do participante. O que é uma diferença importante, porque quando comecei a falar de política, em 2022, na pré-campanha, comecei já com um lado muito assumido. Eu era completamente, e continuo sendo completamente, contra tudo aquilo que o bolsonarismo representa. Então, foi uma diferença muito marcante, só que com essa postura de assumir um lado, eu fui muito abraçado pelos eleitores progressistas. E comecei a fazer uma sala de conversa por áudio no Twitter, o Space, uma ferramenta maravilhosa, que sempre encarei como um programa de auditório, de rádio. E essa sala, durante aquele período da pré-campanha, foi se tornando a sala mais ouvida do mundo no horário. Foi um processo tenso, intenso, mas também maravilhoso. Acho que a gente pôde contribuir bastante para aquilo que a gente vivenciou naquele período, na luta para manter a democracia brasileira.
Assista à entrevista na íntegra: