Entrevista

‘Hoje é radioativo falar em diversidade’: Rachel Maia expõe recuo das empresas no ESG

Em entrevista ao Papo Amado, a primeira CEO negra do Brasil revela que se autossabotou por estar grávida e ser mãe solo

Publicado em 14/12/2025 às 06:00

Rachel Maia (Foto: Amado Mundo)

Primeira CEO negra do Brasil, com passagens por marcas como Tiffany, Pandora e Lacoste, Rachel Maia diz que credibilidade das pautas ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) no ambiente corporativo passam por uma crise. Em entrevista ao Papo Amado, a executiva e conselheira da Vale e da Natura aponta uma forte desaceleração das ações de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) nas grandes companhias, alertando que o tema se tornou um risco de imagem para as corporações: “Hoje torno-se radioativo falar de diversidade”.

Na conversa, a empresária também compartilhou alguns desafios pessoais, como o preconceito da elite e um processo de autossabotagem que passou ao ser contratada pela Pandora, onde chegou ao cargo de CEO, e descobrir que estava grávida. “Eu mesmo me julguei e emiti a sentença: eles não vão me querer. Eu pedi a minha conta… foram 5 minutos de sabotagem para minha pessoa,” confessou. 

A ex-CEO, que começou a vida jogando golfe com líderes globais por necessidade de networking, redefine o que é luxo a partir de sua origem na periferia: “Tive o luxo de ter sentado várias vezes com a minha mãe, e ela ter preparado o arroz e feijão dela, que era único, exclusivo, que ela fazia só para mim. Ter uma qualidade de tempo com a minha mãe e desfrutar daquele tempo. Isso é um luxo”.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista. E assista à íntegra em vídeo ao final do texto. 

Como é ser a primeira mulher preta CEO no Brasil?
É um marco muito importante, e eu continuei a minha jornada de empreendedora, executiva, de olhar o impacto social como parte do meu centro e o que tenho que fazer para o próximo passo… Fui a primeira, mas nós temos muito a fazer. Não é aceitável ser a primeira de um país que tem 54% de pessoas pretas. Agradeço o reconhecimento, mas quero muito mais.

Quem são seus pais?
Dona Pretinha, dona de casa, e seu Antônio, empregado da Vasp por mais de 33 anos. Começou como faxineiro, autodidata, foi estudando, galgando novas posições e saiu aposentado como supervisor de aviação. Meu pai viajava o mundo porque, depois de se tornar técnico, ia com a equipe buscar aviões para trazer ao Brasil. Minha mãe era do lar. Sempre fez faxina para complementar a renda e comprar brinquedos para nós no Dia das Crianças, e isto, para mim, foi emblemático. Era revendedora, liderava parte da catequese na Igreja, era do conselho de pais e mestres da Escola Municipal João de Deus Cardoso de Melo, onde nós todos lá de casa estudamos. É empreender o tempo todo, sendo do lar, autônomo ou estando em uma empresa galgando novas posições e entendendo quais são as oportunidades. Como diz a Oprah Winfrey: “sorte é estar preparado quando a oportunidade chegar”.

O que você aprendeu sobre esse mundo de rico? 
O luxo está no único. Algo muito simples. Fiz uma reflexão, depois de muitos anos: tive o luxo de ter sentado várias vezes com a minha mãe, e ela ter preparado o arroz e feijão dela, que era único, exclusivo que ela fazia só para mim. Ter uma qualidade de tempo com a minha mãe e desfrutar daquele tempo. Isso é um luxo. 

Como foi ser CEO da Tiffany?
Fui vice-presidente financeira por um tempo e, em alguns momentos, tive a oportunidade de ser CEO. O mercado de luxo é um mercado que tem seus códigos. Foi entender que existe exclusão em detrimento de onde você vem, da faculdade que cursa, da sua experiência, do seu currículo. Muitas vezes, você precisa chancelar, dizer por que está ali, para as portas se abrirem. Hoje, o mercado de luxo pede a minha presença. 

Você lembra do momento em que essa ficha caiu para você? 
Fazer a expansão de uma marca e apresentar no Brasil demandava que entendesse e ampliasse meu networking. Na época, não tinha orçamento para grandes ações de marketing, nem ações estruturadas para a primeira grande joalheria no país. Eu compreendi qual era a minha fortaleza – a capacidade de fazer redes e potencializar, dentro de redes às quais eu ainda não pertencia, o nome da marca. Desse processo, trouxe um legado: abri um grupo de mulheres presidentes. São 21 presidentes – da Swarovski, Dior, Adidas, Meta, Microsoft, Airbnb, Nivea –, são mulheres que estavam vivendo o processo do que significava uma mulher sentar na cadeira de presidente. 

Você se demitiu da Pandora porque estava grávida.
Fazia oito meses que tinha sido contratada. Eu mesma me julguei e emiti a sentença: “não vão me querer”. Fui para Brasília com um dos presidentes globais que estavam no Brasil e disse que estava grávida, era mãe solo e não poderia exercer a função. Ele me disse: “Rachel, para mim, vida é bênção. Se você quiser, e quero que continue, mas a decisão é tua”. Foi uma lição de vida. Porque, como um processo maternal que só empodera e eleva a potência máxima da mulher, naquele momento eu estava me sabotando. Foram cinco minutos de sabotagem. Depois eu voltei e falei: opa, se você quer, eu quero. Fiquei sete anos e fiz a marca se tornar a mais desejada da América Latina em braceletes e berloques. 

Qual a sua visão sobre os ataques ao ESG como mentalidade de gestão de empresas? 
Você se lembra das áreas chamadas de “qualidade total”? Hoje não existem mais nas empresas porque elas incorporaram “qualidade total” aos seus modos operantes. Agora, o ESG – ou ASG – é importante que a gente entenda e conecte com a Agenda 2030, que trouxe alertas ao mundo sobre o aquecimento global. Ela foi traçada em 2015, em Paris: 15 anos para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS. No universo corporativo, colocamos como objetivos os impactos no ambiental, no social, e uma governança que pudesse colocar em prática o necessário para atingir esses objetivos nesses 15 anos.

Como você tem percebido a aderência ao tema da sustentabilidade?
Hoje tornou-se radioativo falar em diversidade, equidade e inclusão nas empresas. Vou continuar impulsionando porque é um valor inegociável – mesmo que muitos estejam deixando de fazer. Empresas são constituídas de CPFs. Então é isso que os CPFs precisam continuar, aqueles engajados por propósito: entender que a inovação vem da pluralidade do humano. No ASG, o ‘S’ [social]  é o que mais sofre nessas transições geopolíticas em que o investidor, no fim do dia, segue a lógica geopolítica. Isso é importante, mas também não pode ser descartado que o humano tenha sido letrado e entendido aquilo como valor. Quem continua não continua porque é tendência global; continua porque é valor de vida.

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