Joaquim Arena: ‘A ideia de que alguém é dono da língua portuguesa é absurda’
Em entrevista ao Lisboa Connection, o autor cabo-verdiano comenta a influência brasileira na literatura africana e questiona a noção de uma comunidade lusófona nos moldes da CPLP

A língua portuguesa não é uma só. Entre Brasil, Portugal e países africanos, ela se desdobra em múltiplas culturas e formas de dizer que não cabem numa concepção única. É nisso que acredita o escritor cabo-verdiano Joaquim Arena. Para ele, foi justamente fora do eixo colonizador que muitos autores africanos encontraram caminho próprio.
“Quando procurávamos um espaço no universo literário fora daquilo que era a influência portuguesa, o eixo colonizador, nós o encontramos no Brasil”, disse, ao mencionar a literatura nordestina e autores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego. O impacto se estende a outros nomes da escrita brasileira, como Guimarães Rosa, referência para gerações de autores africanos.
Vencedor do Prêmio Oceanos em 2023 pelo romance “Siríaco e mister Charles”, o escritor leva para a ficção esse mesmo trânsito atlântico. Na obra, lançada no Brasil pela editora Gryphus, o personagem Siríaco nasce no Brasil, passa por Lisboa e morre em Cabo Verde, articulando, na própria trajetória, os deslocamentos históricos entre esses territórios.
O livro faz parte do que Arena chama de “trilogia negropolitana”, ao lado de “Debaixo da nossa pele” (Ed. Gryphus) e “As mortes do meu pai” (ainda inédito no Brasil). O termo, criado por ele a partir da ideia colonial de “metropolitano”, é usado para nomear africanos levados à Europa ao longo dos séculos, em grande parte apagada da história portuguesa. “Metropolitano significava alguém que estava nas colônias, mas que não era natural delas”, explicou.
Em entrevista ao Lisboa Connection, Arena também abordou as tensões na relação de Portugal com suas ex-colônias e o avanço recente de discursos intolerantes na Europa. Comentou ainda sobre a política e cultura cabo-verdianas.
Jornalista e escritor — Arena também já foi músico e advogado —, afirmou que prepara novos livros e pretende seguir explorando as conexões e diferenças do universo lusófono.
“Só Cabo Verde é muito pequeno.”
A seguir, os principais trechos da entrevista. Assista à íntegra ao final do texto.
Você costuma dizer que escreve a partir de um espaço atlântico que envolve Cabo Verde, Portugal e Brasil. Que lugar o Brasil ocupa pessoal e literariamente na sua trajetória?
O Brasil passou a significar muito porque o Prêmio Oceanos, que ganhei em 2023, foi dado em São Paulo. Mas, antes, já era importante. O Brasil é muito importante para nós, [falantes] de língua portuguesa, nos países africanos. As nossas literaturas foram beber muito da brasileira. Quando procurávamos um espaço no universo literário fora daquilo que era a influência portuguesa, o eixo colonizador, nós o encontramos no Brasil, nomeadamente no romance do Nordeste e em toda a literatura que aborda a temática da pobreza, da seca, do que vocês chamam de retirantes e nós de imigrantes. Escritores cabo-verdianos, mas também os de Angola, Moçambique [e outros], encontraram não só a própria temática, mas também a própria linguagem: um português diferente do de Portugal.
Em “Siríaco e mister Charles”, seu livro que ganhou o Prêmio Oceanos, você usa o termo “negropolitano”. De onde veio essa expressão?
No Cabo Verde, na África lusófona e em Portugal, nos habituamos a uma palavra que vem do tempo colonial que é “metropolitano”. Quem era o metropolitano? O português. Metropolitano significava alguém que estava nas colônias, mas que não era natural delas. Cunhei esta palavra para me referir aos africanos que foram levados para Portugal, principalmente para Lisboa, ao longo dos séculos.
Parte dos africanos levados para o Brasil era trazida para Portugal para servir de criado. Alguns eram escravos, outros foram alforriados, mas constituíram uma parte muito grande da população de Lisboa. Essa foi uma realidade apagada da história de Portugal porque era incômoda. Nesta trilogia [da qual, “Siríaco e mister Charles” faz parte], escolhi dar vida e trazer essas populações para o leitor.
“Debaixo da nossa pele” compõe essa trilogia, e você esteve na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2025 para apresentar o livro e conversar com autores brasileiros. Como foi essa experiência?
Fui o primeiro cabo-verdiano a ir à Flip e fiquei muito contente, porque é uma forma de o festival se abrir aos países de língua portuguesa. Claro que José Eduardo Agualusa e outros já foram, mas penso que a Flip ainda tem as costas um pouco viradas para a própria língua portuguesa; tem uma filosofia voltada muito mais para a literatura anglo-saxônica, europeia e americana. Mas foi muito bom para mim e para a literatura que faço. A Flip ganhou uma dimensão muito grande, provavelmente o maior festival literário da América Latina, uma coisa colossal. Conheci pessoas interessantes e gente que admirava, como Milton Hatoum e Eduardo Bueno. Também foi muito curioso ter visto que, nos últimos anos, a literatura afro-brasileira começou a ser mais conhecida.

Você citou a conexão forte com a literatura nordestina. Quais os autores nordestinos que mais te impactaram?
Comecei com Jorge Amado, quando eu tinha 12, 13 anos, foi uma descoberta. Nasci em Cabo Verde, mas com 5 anos migrei para Portugal. Nasci para a literatura em Portugal, mas os autores brasileiros também têm que ser enquadrados nisso. No fim da década de 1970, se deu a revolução em Portugal, e todo mundo virou de esquerda. Foi o fim do regime Salazar, do fascismo. Houve toda uma [virada] de esquerda para recuperar o texto neorrealista, mais popular. Autores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado… nós estudávamos nos livros escolares. Aconteceu também em outros países de língua portuguesa na África. Nós não teríamos Mia Couto sem Guimarães Rosa. Antes do Mia Couto, o Pepetela, e depois o Ondjaki [dois escritores angolanos].
Quais autores cabo-verdianos o brasileiro precisa conhecer? Por aqui, conhecemos mais angolanos e moçambicanos.
É normal que um país pequeno como Cabo Verde, com uma literatura ainda pequena, dando os primeiros passos, ainda esteja procurando o seu caminho. Angola e Moçambique tiveram guerras coloniais contra os portugueses, mas, depois da independência, ainda tiveram guerras civis. Para a vida cotidiana, é uma tragédia; para a literatura, é uma mina. É claro que não é por isso que a gente não pode fazer boa literatura. Só que, em Cabo Verde, a guerra era a fome. Perdemos muita população nos ciclos das secas, uma coisa trágica. A literatura cabo-verdiana, até os anos 50, foi muito alimentada por romances e contos sobre a fome, a miséria e a imigração. Hoje, Cabo Verde é um país de renda média, o que significa que temos universidades, hospitais, clínicas, que o ensino é muito bom. Perdemos um pouco daquela matéria que alimentava a literatura. Outro motivo é que o mundo mudou: é difícil a literatura concorrer com a internet.
Como foi a sua trajetória do direito para o jornalismo e do jornalismo para a literatura? Tem música também nesse bolo…
Comecei como músico, tocava em bares e casamentos, pensei que ia ser profissional. Toquei em vários grupos e paguei a minha faculdade tocando. Ao mesmo tempo, viajava por Portugal, às vezes ia até a Espanha, e as viagens me atraíam muito, do ponto de vista da escrita, do relato e registro. Depois desse período de música amadora, entrei no jornalismo. Escrevi em revistas, jornais e acabei por fazer televisão. Quando ganhei mais maturidade, vi que, de fato, [escrever] era o que queria fazer. A escrita, pouco a pouco, foi se tornando um prazer, uma satisfação e um espaço que nós ocupamos. Fui advogado durante dois anos só, há muito tempo. Passei metade do curso na Faculdade de Direito de Lisboa, que fica frente a frente com a de Letras, olhando pela janela.
O que te direcionou ao jornalismo?
Primeiro, não ter rotina. Se escrevo hoje sobre um crime, amanhã posso escrever sobre a descoberta de um objeto antigo. Vai mudando. Outra coisa é que você coloca muito da sua própria pessoa quando escreve uma reportagem ou faz uma entrevista. Tinha um lado romântico, que agora se perdeu porque as corporações mandam.
Tendo vivido isso intensamente, como você enxerga a relação de Portugal com as suas ex-colônias? Há uma tentativa de reconciliar e olhar esse passado?
É um processo que precisa de tempo. [Em] todo o percurso histórico, [se] teve guerras. Guiné, Angola, Moçambique… morreu muita gente. Em 1975, os países se tornaram independentes. Resultou em um trauma coletivo para Portugal. [Naquele ano], houve uma ponte aérea de Luanda que transportou cerca de um milhão de portugueses em África, os chamados retornados. Foi um encerramento abrupto. Pouco a pouco foi-se recuperando e houve uma tentativa de aproximação, inclusive política, com a criação da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa], que na realidade não serve para nada — apenas a língua portuguesa não é suficiente. Houve [depois] uma espécie de reconciliação lenta, de respeito mútuo. Só que agora o mundo se complicou, e Portugal passou a perder a vergonha e o pudor de tudo que é atitude racista.
A CPLP não é suficiente?
São “as” línguas portuguesas. A ideia de um dono da língua é uma coisa completamente absurda. Só quem tem algum preconceito ou uma dificuldade muito grande em entender o mundo pode pensar assim. São as línguas portuguesas e as culturas que essas línguas criaram. Faz parte do trauma do fim do império e da tal perda de protagonismo como proprietário da língua portuguesa no mundo.
Em outubro de 2025, pela primeira vez um português foi preso por discurso de ódio.
Há uma intolerância que foi se instalando pouco a pouco [em Portugal], uma sensação de impunidade. Não há casos em que se aplica a lei de uma forma pesada e se vê o efeito na sociedade. Todos os países da Europa estão cometendo o mesmo erro — França, Inglaterra, Holanda, Suécia… As democracias têm uma grande dificuldade em lidar com as rupturas de ordem, com o desprezo dos valores. Porque a democracia é uma casa de portas abertas. Toda gente entra. Inclusive aqueles que vão para botar fogo.
Como está a situação política em Cabo Verde?
Cabo Verde, felizmente, não tem recursos minerais, nem petróleo, ouro e diamantes. Não tem aquilo que causa guerras civis na África e que são as causas da chegada dos europeus no continente para explorar. Desde o início da colônia, foi só um local de passagem. Imagina que não chovia durante anos, a seca arrasava tudo. Todos tinham que ajudar todos. E essa ideia de entreajuda eliminou um pouco essa distância entre colono e escravo. Os africanos começaram a ser alforriados muito cedo. Com o tempo também se criou a ideia de que “não se pode entrar em guerra com o seu vizinho, [pois] não se sabe quando vai precisar dele”. Isso criou no povo cabo-verdiano uma capacidade de diplomacia e de resolver problemas de forma construtiva. Acabou por se refletir depois no sistema democrático. Nós temos, essencialmente, um partido de esquerda e um partido de centro-direita, e vai havendo rotatividade. A própria realidade social do país obriga que você se dê bem uns com os outros.
Sobre projetos futuros na literatura, para onde você quer ir?
Já estou preparando um novo livro e tenho ideias para outros. É sobre esta área geográfica, que gosto muito, que pega Portugal, África, Cabo Verde e também o Brasil. Vejo como uma espécie de lago, onde temos pontos da língua portuguesa e de uma cultura comum, até porque só Cabo Verde é muito pequeno.