Entrevista

Disseminar conhecimento, como no Fórum de Lisboa, é fundamental, avalia economista

Felipe Salto analisa palestra do Nobel de Economia Joel Moky no Fórum de Lisboa e defende que instituições fortes são fundamentais para a prosperidade

05/06/2026 às 14:40 · Atualizado há 4 meses
Felipe Salto, economista, defendeu que avanço econômico depende de instituições fortes. (Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

Em entrevista ao Matinal desta sexta-feira (5/6), Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e membro do Conselho Superior de Economia da Fiesp, falou sobre a importância de eventos como o Fórum de Lisboa e defendeu que instituições fortes são a melhor maneira de se conseguir prosperidade para as nações no longo prazo.

Salto afirmou ainda que o avanço da tecnologia e da inteligência artificial precisa estar aliado a “instituições que gerem confiança e façam com que esse conhecimento produzido seja espalhado de maneira democrática”.

Salto acompanhou toda a 14ª edição do Fórum de Lisboa, organizado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Em conversa com Guilherme Amado e Beatriz Bulla, analisou o painel do professor Joel Mokyr, professor da Northwestern, uma das mais prestigiadas universidades americanas, e vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2025.

Segundo Salto, também é papel das instituições evitar que notícias falsas sejam espalhadas — função que ele considera essencial para o desenvolvimento econômico. O Brasil, para ele, “investe pouco e mal” em educação e geração de conhecimento — sem o devido apoio a instituições de ensino, pesquisadores e bolsas de pesquisa. Essa falta é um dos grandes desafios brasileiros.

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Fórum de Lisboa gera conhecimento

Salto, todavia, avalia que não basta apenas investir em instituições de ensino, mas que é necessário que elas tenham a consciência e a capacidade de disseminar esses avanços. Para ele, é isso que o ministro Gilmar Mendes busca quando organiza o Fórum de Lisboa — colocar o Brasil nesse rumo de geração de conhecimento.

“Eu acho que é essa a grande motivação do ministro Gilmar, que é uma liderança em contexto, um formador de opinião, além de ministro do Supremo, e uma pessoa que tem um espírito público gigantesco. É nisso que ele está pensando quando realiza, com tanto empenho, o Fórum de Lisboa”, contou em entrevista ao Amado Mundo.

Veja os principais trechos da entrevista:

De certa maneira, quando a gente fala dessa construção de instituições fortes, as conclusões do Mokyr combinam com a própria missão do fórum, não é, Felipe?

O que ele mostra é que o avanço institucional, ter instituições fortes, significa instituições formais e informais, que a língua falada é uma instituição, o Congresso Nacional é uma instituição, o próprio sistema de governo, a democracia. Ter instituições fortes é fundamental para o crescimento. Essa linha de pensamento econômico já vem dos chamados novos institucionalistas, com o Douglas North e outros, mas o que ele e outros avançam?

Eles mostram que, com esse avanço exponencial da tecnologia, a inteligência artificial e outros mecanismos e ferramentas, só há um jeito de ter crescimento maior no longo prazo e prosperidade para as nações. É ter instituições que gerem confiança, que façam com que esse conhecimento produzido seja espalhado de maneira democrática, acessível.

E principalmente evitar o espalhamento de conhecimento, digamos, de fake news, de coisas distorcidas. Então, o papel das instituições é fundamental nesse processo de desenvolvimento econômico.

Quer dizer, a grande importância para o país é ter instituições que tenham complexidade de conhecimento e ampliem a sua capacidade de funcionar, de se integrar, e isso faz com que o país tenha um melhor ambiente de desenvolvimento. É mais ou menos assim que você traduziria essa teoria?

É isso mesmo. Até a uma certa altura na palestra o professor explica o seguinte, que o desenvolvimento científico alimenta e produz inovações tecnológicas e inovações em geral, e essas inovações retroalimentam o processo de conhecimento, de geração de conhecimento, de teoria do conhecimento científico.

Então, esse círculo virtuoso, ele só pode ser ampliado e reforçado na presença de instituições que tenham consciência disso, para que a apropriação dessa tecnologia e desse conhecimento se dê por elites, elites no bom sentido, intelectuais, acadêmicas, e a partir disso se consiga disseminar esses avanços. E para isso é fundamental que você tenha instituições, um Estado forte, instituições também do setor privado capazes de ajudar nesse processo.

Você acredita que os Estados Unidos estão perdendo isso de forma irreversível e há espaço para outros atores entrarem nessa liderança, notadamente talvez China, Índia, Brasil, e por isso que é cada vez mais importante entender como o Fórum de Lisboa ou outros fóruns podem fazer o papel do redesenho dessa arquitetura? Ou isso é uma coisa utópica?

Antes a China fazia o quê? Importava e fazia o chamado catch up, você copia o que está sendo feito fora, produz com custo mais baixo e exporta. Hoje ela lidera processos de inovação tecnológica e também contribui para ampliar a fronteira de possibilidades de produção, como a gente fala em economês.

Mas o fato é que ela é um ator importantíssimo. A Europa, de novo, se recolocando […] e os países, digamos, da margem, ou os emergentes, como o Brasil, a Índia – mais à frente que o Brasil, a meu ver –, também começam a perceber a importância de se colocar nisso.

O problema é que o Brasil investe muito pouco em ciência e tecnologia, investe muito pouco e mal. Quando eu digo pouco, é pouco/mal, em educação, em geração de conhecimento. Apoio aos nossos pesquisadores, bolsas de pesquisa, infraestrutura das universidades, tudo isso ainda, a meu ver, é um grande desafio. Só que não existe evento bom para nau sem rumo, e na verdade nós precisamos retomar um pouco esse rumo.

Veja o Matinal completo desta sexta-feira:

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