Andrei Rodrigues: ‘O sistema financeiro brasileiro não é criminoso, mas tem brechas’
Ao Lisboa Connection, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, fala do desafio de rastrear recursos em casos como o Master e da internacionalização do PCC

O combate ao crime organizado não se resume à apreensão de drogas ou à prisão de lideranças. À medida que organizações criminosas ampliam sua capacidade de movimentar recursos por meio da economia formal, o desafio das autoridades passa também por rastrear patrimônio, aperfeiçoar mecanismos de cooperação internacional e fechar brechas utilizadas para ocultar dinheiro ilícito. “O sistema financeiro brasileiro não é criminoso, mas tem brechas que precisam ser controladas e reguladas”, afirmou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em entrevista ao Lisboa Connection, videocast do Amado Mundo, gravado durante a cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França.
A avaliação ganha relevância em meio aos desdobramentos da Operação Compliance Zero, que investiga o esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. Andrei Rodrigues explicou, na conversa, que, em casos dessa natureza, a investigação patrimonial acompanha a criminal desde o início. “O objeto do crime são os recursos”, resumiu, ao defender que retirar o poder econômico das organizações criminosas é tão importante quanto prender seus integrantes.
Leia também: PF negocia abrir adidância na Suíça; Lula discute crime organizado com chefe da Interpol
No último mês, tanto a Polícia Federal quanto a Procuradoria-Geral da República recusaram a segunda proposta de delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Em termos gerais, Andrei Rodrigues argumentou que a colaboração premiada é um direito da defesa previsto em lei e que só produz efeitos quando acrescenta fatos ou provas ainda não obtidas pela investigação. Segundo ele, como a iniciativa cabe ao investigado, a legislação não estabelece limite para a apresentação de propostas enquanto o inquérito estiver em andamento.
Andrei Rodrigues fala de ‘superdimensionamento’ do PCC
Andrei Rodrigues acrescentou que a presença internacional do PCC é frequentemente “superdimensionada”. Ele revelou que o combate ao narcotráfico dominou parte das discussões do G7 e defendeu que o debate sobre as facções seja tratado com mais cautela. “Precisamos parar de glamourizar o crime organizado”, declarou.
A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra ao final do texto. Na versão completa, Andrei Rodrigues também comenta a rastreabilidade de criptomoedas em crimes financeiros e explica o papel da extradição na cooperação internacional em casos como os de Carla Zambelli e Ricardo Magro.
O que, em matéria de segurança, sai da ida do presidente Lula ao G7?
O Brasil está inaugurando uma adidância da Polícia Federal na Suíça. Com isso, teremos as nossas 34 adidâncias nos cinco continentes. O segundo ponto foi a reunião com o secretário-geral da Interpol [Valdecy Urquiza]. O terceiro, é um dos temas tratados no G7: enfrentamento ao crime organizado e o combate ao narcotráfico.
O narcotráfico ser um tema do G7 no momento em que os Estados Unidos classificaram o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como terroristas é uma oportunidade para o Brasil mostrar o que vem sendo feito?
O Brasil tem feito um esforço muito grande. [Há] uma integração interna entre as forças de combate ao crime organizado nas 27 unidades da Federação. Independente de partido político do governador, temos uma integração efetiva real, com 40 unidades da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficcos) no Brasil inteiro. Outro ponto é a cooperação internacional. Estamos em todos os países da América do Sul, além de em organismos multilaterais.
Isso se associa ao nosso esforço na prisão de lideranças e descapitalização do crime organizado. Só no ano passado, retiramos mais de R$ 10 bilhões, um recorde histórico no enfrentamento. O poder econômico é o objetivo das facções criminosas, o que difere do terrorismo.
O PCC pode ser considerado uma organização global?
Há, na verdade, um superdimensionamento. Dialogo com polícias do mundo inteiro. No diálogo com os dirigentes dessas instituições, o relato é muito diferente daquilo que se propaga no Brasil. Ninguém está dizendo que não é transnacional. Há transnacionalidade com o tráfico de drogas, é fato, temos que combater e estamos. Precisamos parar de glamourizar o crime organizado.
O PCC está na Europa?
É exagerado dizer que determinada facção está no país [ou continente]. O que se nota eventualmente é uma pessoa ou outra presa, que se diz ser de alguma facção, mas que não tem relevância nenhuma.
Qual o lugar do PCC em relação às grandes organizações criminosas globais, como cartéis mexicanos e as máfias italiana e russa?
É difícil fazer um ranking de organizações criminosas. Cada estrutura é diferente da outra
Entre tráfico de drogas, crimes financeiros e cibercrime, o que preocupa mais a Polícia Federal neste momento?
Nós precisamos enfrentar todas as modalidades criminosas. São interconectadas. Todas visam o lucro. E o lucro, muitas vezes, utiliza fundos de investimento que, em tese, estão no mercado, na indústria financeira regular brasileira, na economia formal. A organização criminosa não é só a pessoa no asfalto com um fuzil na mão, essa causa um dano, é violenta, está sendo enfrentada. Tirar o poder econômico das organizações é fundamental. Aí entra o combate ao crime que está utilizando o sistema financeiro brasileiro. O sistema financeiro brasileiro não é criminoso, mas tem brechas que precisam ser controladas e reguladas.
Em casos como o Master, qual a capacidade que o Brasil tem de rastrear dinheiro desviado?
Em toda investigação de maior envergadura da Polícia Federal, há uma investigação patrimonial paralela para que a gente tenha não só a prisão das lideranças, mas a retirada do capital dessa organização. Não posso entrar em detalhes, mas o Master é um caso que já é envolvente do sistema financeiro. Ou seja, o objeto do crime são os recursos.
A PF e a PGR rejeitaram a segunda proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro. O que faz uma proposta de delação não ser interessante é a falta de prova ou novidades em relação ao que se já tem?
O instituto da colaboração premiada é previsto em lei, não é uma opção da polícia, do Ministério Público, de querer ou não. É um direito da defesa. Agora, a mesma lei que prevê a delação premiada, estabelece regras. Quem deseja colaborar, por óbvio, precisa trazer ao processo fatos novos. A legislação também não prevê prazo, não prevê quantidades de tentativas que o investigado pode oferecer.
A menos de quatro meses das eleições, como é para a PF calibrar a necessidade de investigação e o cuidado de não criar um fato que contamine a decisão do eleitor?
Não posso afirmar se determinado setor da política, da economia, da sociedade, vai ser alcançado ou não por qualquer operação. Ao longo da minha gestão, a Polícia Federal tem agido com imparcialidade e técnica. Assim vamos seguir durante todo esse processo.
Assista ao Lisboa Connection com Andrei Rodrigues: