França é o único país europeu que pode conter o avanço russo diante do vácuo americano
Ao mesmo tempo em que é a única nação com submarinos, caças e navios produzidos em escala, seu presidente, Macron, busca dividendos políticos em épocas de baixa popularidade.

A divulgação do plano de paz para a Ucrânia, que teve 28 pontos vazados no último fim de semana, cristalizou algumas percepções incômodas para a Europa: a primeiro delas é que, na prática, trata-se de um projeto de vitória do país agressor. Elaborado a quatro mãos por Estados Unidos e Rússia, o documento entrega 17 vantagens claras a Moscou e apenas 11 pontos favoráveis a Kiev, o que foi interpretado por capitais europeias como um alerta vermelho sobre os limites do consenso norte-americano.
Mais do que um acordo desequilibrado, o texto reforça a avaliação, muito difundida em Londres, Berlim e Paris, de que Vladimir Putin não pretende encerrar sua expansão territorial. Governos europeus enxergam no presidente russo uma ambição histórica: reconstruir, ao menos em parte, as fronteiras da antiga União Soviética.
A outra percepção indigesta é que, em um cenário em que os Estados Unidos, especialmente sob o comando de Trump, dão sinais de retração internacional, resta à Europa identificar quem pode conter o avanço russo. E só um país reúne condições militares e industriais para isso: a França.
A capacidade francesa não é obra do presidente francês Emmanuel Macron, mas do legado de Charles de Gaulle. Desconfiado da tutela norte-americana, o general insistiu, após a Segunda Guerra, em manter uma indústria de defesa própria, um arsenal nuclear autônomo e um exército plenamente operacional.
É o único país europeu com submarinos, caças e navios produzidos em escala estratégica e o único que poderia ocupar, mesmo que parcialmente, o espaço deixado pelos Estados Unidos na proteção à Ucrânia.
Além disso, Macron recebeu Zelensky em Paris nesta segunda-feira (1º) em um momento diplomático considerado “crucial” para a Ucrânia e a segurança europeia.
No encontro, os dois reafirmaram que qualquer plano de paz deve incluir Kiev e a Europa, não apenas Moscou e Washington, e destacaram a importância de garantias de segurança robustas antes de qualquer cessar-fogo ou redefinição territorial.
A reunião reforça o papel de Paris como um polo europeu disposto a resistir às concessões que favorecem a Rússia, mesmo diante da instabilidade política interna do francês.
Macron compensa sua impopularidade doméstica com protagonismo externo
Macron está impopular em casa, com apenas 17% de aprovação, e pressionado por uma extrema-direita à beira do poder. Ele tenta compensar sua fraqueza doméstica com protagonismo externo. Na Europa, é o único capaz de falar de igual para igual com Putin e de prometer algum grau de cobertura militar a Zelensky.
Mas a mensagem não é apenas para Moscou. Macron também fala ao próprio eleitorado. Ao assumir esse papel de resistência continental ao expansionismo russo, o presidente tenta lembrar à elite francesa e aos formadores de opinião que uma vitória da extrema-direita alteraria radicalmente essa postura.
É um alerta dirigido aos que flertam com Marine Le Pen ou Jordan Bardella: a guinada política interna pode desmontar a única barreira capaz de conter Putin no continente. Como observam analistas franceses, é fácil minimizar o risco quando a bomba cai longe. Difícil é sustentar o discurso quando a ameaça é real e próxima.
O recado é deliberado: discutir imigração ou tensões culturais é uma coisa e lidar com a expansão militar de uma potência nuclear é outra. Macron tenta, portanto, produzir um choque de realidade e colocar a escolha eleitoral francesa dentro dessa moldura geopolítica.
O movimento ficou claro nesta semana, quando Macron recebeu Zelensky em Paris. O gesto foi um recado direto: mesmo que Trump condicione, relativize ou abandone o apoio a Kiev, a França continuará posicionada.
E continuará porque enxerga, talvez mais do que qualquer outro país europeu, que uma Ucrânia fragilizada abre caminho para uma Rússia ainda mais ousada.
Macron tenta, assim, ocupar um vácuo, o que pode redefinir o papel da França diante de uma possível reconfiguração global em que Estados Unidos e Rússia selam seus próprios acordos de conveniência sobre zonas de influência.
Assista à análise completa de Paulo Dalla Nora Macedo no Matinal desta terça-feira (2):