A sombra de Lulinha sobre a campanha de Lula
Entre Lulinha e Marcola, Lula lida com agenda negativa que pode pesar numa disputa presidencial apertada, agravada pelo tempo curto de campanha até a eleição

A revista Veja trouxe nessa quinta-feira (20/8) detalhes inéditos de um inquérito que corre em sigilo na Polícia Federal, depois de o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizar a quebra de sigilo fiscal e de comunicações da lobista Roberta Luchsinger. No inquérito, a PF aponta Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como “beneficiário indireto” da atuação de Roberta, que tentava articular contatos políticos no governo para facilitar a venda de medicamentos à base de canabidiol à União — um negócio do qual esperava faturar R$ 100 milhões em 2024. Enquanto o pai tenta a reeleição, o filho está no centro de uma investigação que hoje soma três inquéritos abertos no Supremo.
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O episódio ganhou um capítulo institucional importante também na quinta. A Procuradoria-Geral da República pediu que os inquéritos fossem remetidos à primeira instância da Justiça Federal, sob o argumento de que não há indícios de participação de autoridade com foro privilegiado. A PGR também reconheceu, no próprio pedido, que a PF identificou articulações e pagamentos, mas não a conclusão de nenhum negócio efetivo em benefício do Lulinha junto ao poder público. Ainda assim, não há disposição no Supremo para redistribuir o caso, e os inquéritos devem permanecer com a Corte, pelo menos por ora.
É preciso fazer uma ressalva antes de qualquer análise de impacto: inquérito é investigação, não é acusação de crime, e até agora o que temos de concreto é bem menos do que a repercussão sugere. Mas isso não significa relativizar o problema .
Impacto de Lulinha é maior pela disputa apertada
O timing não poderia ser pior para o Palácio do Planalto. Estamos em pleno início de uma campanha curta, 45 dias, que já se revela disputada, com as pesquisas mostrando equiíbrio entre Lula e Flávio Bolsonaro – o senador tem mostrado ter uma candidatura resiliente, na qual, apesar dos solavancos, mantém-se competitivo. Nessas condições, qualquer variável capaz de afetar o comparecimento às urnas ou de mexer com um eleitorado indeciso pode ser decisiva. Não precisamos de uma revolução nas preferências do eleitor para que o efeito seja significativo. Basta pouco em uma vantagem tão pequena quanto a que se desenha hoje.
A sensação, que confirmei com fontes nos últimos dias, na campanha do Lula era de confiança de que poderia partir para um enfrentamento mais direto com Flávio Bolsonaro, explorando o histórico enrolado do senador do PL — a compra de imóvel em dinheiro vivo, a vida em mansão com rendimentos incompatíveis com décadas de carreira pública, o processo da rachadinha no gabinete (quando deputado estadual no Rio de Janeiro) e, mais recentemente, a proximidade com Daniel Vorcaro, preso pelo caso Banco Master.
Só que a semana de estreia da campanha está morna, com o pé no freio dos dois lados, e não é coincidência que isso ocorra justamente no momento em que o caso do Lulinha ganha força.

Há uma diferença que me parece central entre esse episódio e os anteriores envolvendo o filho do presidente. Desta vez, não é só o Lulinha. O nome de Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula e figura historicamente próxima a ele — a ponto de ter se mudado para Curitiba para dar apoio ao presidente enquanto ele estava preso — também aparece ligado à mesma lobista, Roberta Luchsinger. E há ainda a relação de Jaques Wagner com o Master (via Augusto Lima, que foi sócio de Vorcaro).
Um filho não é o candidato e o pai pode, em tese, se distanciar dizendo que não responde pelos erros de terceiros; um ex-chefe de gabinete, guardião do acesso ao presidente, é outra categoria de proximidade.
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A estratégia adotada até aqui por Lula tem sido a de dizer que quem errou deve responder à Justiça. O famoso “se você não deve nada, vá e se defenda” que ele já teve durante a Lava Jato. É praticamente a única alternativa disponível para o petista neste momento, visto que qualquer coisa além de “tem que investigar” soa como interferência, e o próprio Bolsonaro deixou um vídeo dizendo abertamente que não deixaria “isso” chegar à família dele, que mexeria na PF antes.
O fato é que o problema político já está dado, independentemente do desfecho jurídico do inquérito. A campanha ainda não sabe como responder a essa agenda negativa, e isso deve pesar na decisão de Lula sobre ir ou não a debates e entrevistas nas próximas semanas. Ao não comparecer, o candidato cria um vácuo que pode ser preenchido por adversários, pela imprensa e pelo próprio ritmo das investigações. E o ritmo, aqui, é tudo.
Enquanto a Segunda Turma do Supremo eventualmente decide sobre o pedido da PGR, o tema deve seguir nas manchetes por semanas, com Lulinha morando na Espanha e sem dar sinais de voltar ao centro do debate por vontade própria.