Desgaste de Maduro ajuda a explicar falta de comoção, até mesmo entre chavistas
Dificuldade de encontrar aliados dispostos a defendê-lo evidencia o grau de fragilidade do regime e mostra por que uma intervenção tão controversa conseguiu avançar

A aparente eficácia da ação dos Estados Unidos na Venezuela diz menos sobre a força de Donald Trump e mais sobre a fragilidade política de Nicolás Maduro. Desde a captura do presidente venezuelano, o que se vê é um isolamento quase completo: não há mobilização internacional relevante em sua defesa, nem mesmo sinais claros de lealdade dentro do próprio chavismo.
Maduro se tornou um alvo fácil. A dificuldade de encontrar aliados dispostos a defendê-lo publicamente evidencia o grau de desgaste do regime e ajuda a explicar por que uma intervenção tão controversa conseguiu avançar sem gerar, até agora, uma reação global capaz de impor custos políticos reais a Washington.
Lula tende a resgatar o discurso da soberania nacional
No caso brasileiro, a resposta tem sido marcada por cautela calculada. O discurso oficial rejeita a violação da soberania e do direito internacional, mas evita tanto o confronto direto com Trump quanto uma defesa enfática de Maduro.
É um equilíbrio delicado, que leva em conta o cenário externo e também a política doméstica, em que qualquer gesto a favor do líder venezuelano poderia alimentar tensões com a direita e a base bolsonarista.
Mas o governo deve aproveitar para resgatar o discurso da soberania nacional, bandeira que, nos últimos anos, havia sido apropriada pela direita. A defesa do princípio, sem alinhamento automático a regimes fragilizados, permite ao Planalto ocupar esse espaço sem romper pontes diplomáticas estratégicas.
Cenário que se desenha na Venezuela é ambíguo
A posse da vice de Maduro, Delcy Rodríguez, como presidente interina revela sinais contraditórios: ao mesmo tempo em que condena a ação americana em nome da soberania, acena para a manutenção do diálogo com Washington. Trata-se menos de uma redefinição ideológica e mais de uma tentativa de sobrevivência política.
O caso venezuelano segue, portanto, longe de uma resolução. Ele continuará produzindo efeitos políticos, econômicos e diplomáticos nos próximos meses e servirá como teste tanto para os limites da política externa americana quanto para a capacidade de países, a exemplo do Brasil, de defender princípios sem se tornarem reféns de um mundo cada vez mais regido pela correlação de forças.
Assista ao comentário de Talita Fernandes no Matinal desta terça-feira (6):