‘O quarto de empregada é a senzala moderna’, diz rapper Preta Rara
Historiadora e rapper reflete no Notas de Rodapé sobre as heranças escravocratas do trabalho doméstico e a desumanização do quarto sem janelas

A historiadora, escritora e rapper Preta Rara, autora do livro “Eu, empregada doméstica” (Editora Letramento, 212 páginas), revelou como a herança escravocrata se mantém viva na arquitetura e nas relações de trabalho do país. Em entrevista ao programa Notas de Rodapé, apresentado por Raquel Cozer, do Amado Mundo, ela contou que o espaço destinado às trabalhadoras dentro das casas brasileiras funciona como uma verdadeira “senzala moderna”.
“O que era a senzala é o quartinho da empregada, onde ela não tem horário para entrar e sair”, disse.
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Falsa afetividade e anulação de direitos
Segundo a autora, o quarto de empregada é historicamente o espaço onde a família tradicional descarta aquilo que não quer mais, armazenando restos de materiais de limpeza ou de construção ao lado do local de descanso da trabalhadora. Ela lembrou que a desumanização desse ambiente era tamanha que foi preciso criar um projeto de lei específico para obrigar a inclusão de janelas nas novas construções.
A historiadora alertou ainda para a perigosa armadilha do discurso patronal. Segundo Preta Rara, quando os patrões dizem que a trabalhadora “é como se fosse da família”, isso serve estrategicamente para invadir o campo do afeto e anular qualquer busca por direitos trabalhistas.
Preta acredita que o cenário do trabalho doméstica piorou pós-pandemia
Questionada sobre a situação atual de proteção dessas profissionais, Preta Rara afirmou que o cenário piorou após a pandemia de Covid-19. Ela relembrou que a primeira vítima da doença no Brasil foi uma trabalhadora doméstica no Rio de Janeiro, cujos patrões não permitiram que ela ficasse em casa, por não quererem limpar os próprios banheiros e fazer a própria comida.
“As empregadas domésticas são vidas que podem ser descartadas a qualquer tempo. Então, tanto faz se aquela trabalhadora doméstica vai ser contaminada ou não com a Covid, porque se ela vier a morrer, não importa, eu ponho outra no seu lugar.”
Assista à entrevista completa no Notas de Rodapé: