Bad Bunny vs. Trump: o embate das visões de América no Super Bowl
No último domingo, Trump apostou em uma guerra cultural identitária contra o artista porto-riquenho e perdeu

Bad Bunny representa uma visão completamente oposta do que significa uma “América grande” em relação ao projeto do presidente Trump. No último domingo, Trump apostou em uma guerra cultural identitária contra o artista porto-riquenho e perdeu. Para contextualizar, essa irritação não começou no Super Bowl; ela vinha se acumulando desde outubro, quando a NFL, a liga do futebol americano, anunciou o artista como atração do show do intervalo. Desde então, Trump e influenciadores de direita passaram a atacá-lo por dois motivos centrais.
Primeiro, por ele ser um crítico aberto de Trump e das políticas migratórias do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega). Segundo, pelo fato de ele cantar em espanhol.
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Bad Bunny virou alvo de acusações de que representaria uma suposta “substituição” da cultura americana por latinos e passou a ser tratado como anti-americano. A ironia é que ele não é um imigrante, mas um cidadão americano. Porto Rico é um território dos Estados Unidos, muitas vezes esquecido e desprezado, e onde os cidadãos ainda são tratados como de segunda classe — não podem, por exemplo, votar para presidente — embora pertençam ao país.
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Toda essa tensão escalou a ponto de o movimento conservador Turning Point USA, fundado por Charlie Kirk, organizar um evento paralelo chamado “All american”, como uma alternativa ao show do Super Bowl. Essa transmissão alcançou 6 milhões de espectadores simultâneos no YouTube, mas o contraste foi brutal: o show do Bad Bunny foi assistido por 135 milhões de pessoas, tornando-se o intervalo mais visto da história do evento e dominando os tópicos globais. Trump reagiu ao vivo, classificando o show como “terrível” e um “insulto à grandeza da América”, alegando que ninguém entendia as letras. Essa reação não foi uma mera crítica artística, mas a continuidade de uma narrativa que tenta transformar a apresentação em um debate nacional sobre quem define e quem representa a cultura americana.
A política estava presente o tempo todo na apresentação. O show começou com a estética de um canavial, uma referência direta à exploração colonial e ao histórico de escravidão no Caribe. A apresentação celebrou a identidade porto-riquenha e a diversidade pan-americana, terminando com uma mensagem no telão: “A única coisa mais poderosa do que o ódio é o amor” — uma resposta eloquente e elegante aos ataques sofridos. Bad Bunny ainda utilizou o slogan republicano “God bless America” para celebrar a diversidade de todo o continente, citando inclusive o Brasil.
Ataque ao casal Obama e a crise republicana
Trump reagiu a tudo isso sendo Trump: não recuou nem pediu desculpas pelo episódio racista contra o casal Obama. Ele cruzou uma linha de baixeza que chocou os próprios republicanos e deixou o país indignado, ao compartilhar imagens que comparavam Barack e Michelle Obama a macacos. Trump chegou a dizer que não havia postado o conteúdo pessoalmente, embora tenha admitido que viu o material antes da publicação, alegando, de forma evasiva, que não o tinha visto “até o final” e que, por isso, não teria notado aquela parte específica.
Sabemos do histórico racista de Trump, e o caso de Bad Bunny é um exemplo disso — o racismo contra quem não representa a sua visão de mundo —, mas o nível atingido contra os Obama causou um choque que pode afetar as eleições de meio de mandato (midterms). No momento, o ex-presidente está desgastado e sofrendo críticas abertas de seu próprio partido. Resta saber como os democratas conseguirão capitalizar esse sentimento. Pesquisas mostram que muitos hispânicos estão indignados com as operações do ICE, que utilizam pessoas que falam espanhol como alvo preferencial. Dados recentes revelam que apenas 14% das detenções e deportações do ICE envolvem pessoas com histórico criminal violento, o que reforça as críticas de racismo institucional.
Neste caldeirão político, o somatório do caso racista contra os Obama e a vitória simbólica de Bad Bunny coloca Trump em um momento de baixa. Um sintoma claro desse pânico na base trumpista foi o post recente da Casa Branca intitulado “Não seja um paniquete; nós estamos vencendo”, tentando responder ao sentimento de derrota que se alastra entre os próprios republicanos. Alguns analistas acreditam que o nível de baixeza atingido nos ataques ao casal Obama pode custar caro ao ex-presidente já nas próximas eleições.
Assista à íntegra da análise de Leticia Duarte no Matinal desta terça-feira (10/2):