Como sustentar suas resoluções de ano novo e treinar a disciplina
Psicóloga Cíntia Alleixo explica por que a motivação de janeiro é passageira, ensina como 'fatiar' grandes objetivos para o cérebro não desistir, e defende que 'chutar o balde' antes do carnaval não é uma boa ideia
Luiza Barufi

Janeiro é, oficialmente, a temporada das resoluções. As academias lotam, as agendas ganham novas cores e a sensação de que “agora vai” domina o pensamento. No entanto, conforme o calendário avança para fevereiro, esse entusiasmo costuma evaporar, dando lugar à frustração e ao abandono dos planos.
Para muitos, a maior parte das metas ambiciosas de janeiro, principalmente às relacionadas a saude, são difíceis de sustentar. A psicóloga Cíntia Alleixo esclarece que o segredo não está na “força de vontade”, mas, sim, em entender como nosso cérebro processa a novidade e a satisfação. E é possível transformar a euforia passageira em hábitos sólidos.

A armadilha da motivação
Muitas pessoas acreditam que precisam “estar motivadas” para agir. Cíntia explica que essa é a primeira barreira. “Para estarmos motivados, precisamos de novidade. E é difícil ter novidade o tempo todo para sustentar um desejo ou uma empolgação”, afirma.
Psicologicamente, a dependência da motivação pode ser perigosa. “Isso causa uma sensação de vazio e de fracasso quando a empolgação acaba.”
O mais garantido é trocarmos a palavra “motivação” por “tentativas”. Tentar todos os dias cria um padrão novo de comportamento. “É mais saudável e viável pensar assim.”
O cérebro e o ‘fatiamento’ das metas
Se você planejou perder 10kg ou correr uma maratona sem nunca ter treinado, saiba que o seu cérebro pode interpretar isso como um sinal para parar. “O ‘não conseguir’ desmotiva, isso é um fato do funcionamento mental”, explica a psicóloga.
A estratégia para não cair nessa armadilha é o que Cíntia chama de “fatiar” as metas:
“É muito mais fácil pegar uma meta grande e transformá-la em fatias. Você não vai perder 10kg em um mês, mas pode conseguir 500g em uma semana. Quando você alcança essa micro-meta, a sensação é muito boa. O cérebro entende que você está conseguindo, e esse bem-estar te impulsiona para o próximo passo.”
Disciplina é treino, não talento
Uma das frases mais ouvidas em consultórios é: “Eu não tenho disciplina”. Cíntia desmistifica essa ideia de que nascemos ou não com essa característica. Embora existam traços de personalidade que facilitem a organização, a disciplina é, essencialmente, algo treinável.
“O fazer todo dia, toda semana ou todo mês gera uma satisfação pelo resultado. Essa satisfação é o que ajuda a criar a rotina. O resultado é o que faz você criar a disciplina.”
Mas como saber se o esforço virou hábito? Segundo a especialista, o hábito está instalado quando a atividade deixa de ser um objeto de “negociação mental”.
“O hábito não tem a ver com amar o que se faz. Você pode treinar todos os dias e reclamar todos os dias, mas se você faz sem precisar de uma justificativa ou sem recusar a tarefa, o hábito já está ali.”
O recomeço é agora (e não após o Carnaval)
Para quem já sente o peso das falhas de janeiro e pensa em “chutar o balde” até o Carnaval, Cíntia é enfática: o momento de limpar o quadro mental é agora.
“Não dá para esperar. Se você ainda não começou ou se já desistiu, a hora é amanhã de manhã. A perfeição não vai chegar: não existe o horário perfeito, a academia perfeita ou a companhia ideal”, alerta.
A psicóloga também reforça a importância de evitar a comparação, especialmente em tempos de redes sociais. “Existem várias realidades sociais no Brasil. Eu não posso me comparar com ninguém, nem competir. Devo entrar em uma demanda nova de acordo com o que eu consigo sustentar dentro da minha realidade. Bancar essa verdade é o que nos faz não parar.”
Confira sobre a entrevista no vídeo do Tech Tech Saúde.