Entrevista

Para Sarrubbo, classificar PCC e CV como terroristas prejudica o Brasil e afeta economia

Ex-secretário nacional de Segurança Pública e ex-procurador-geral de Justiça de SP, Mário Sarrubbo avalia que medida já mostrou não funcionar com outros países

29/05/2026 às 14:02 · Atualizado há 3 meses
Operação na Penha e no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Créditos: Tomaz Silva /Agência Brasil

A recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas gerou um forte alerta no campo da segurança pública e da diplomacia. Em entrevista ao programa Matinal desta sexta-feira (29), o ex-secretário nacional de Segurança Pública, que ficou no cargo de 2024 ao início de 2026, e ex-procurador-geral de Justiça de São Paulo Mário Sarrubbo criticou duramente a medida. 

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Segundo ele, o novo enquadramento dado pelo governo americano não qualifica o combate ao crime organizado, mas abre precedentes para prejuízos econômicos e carrega riscos à soberania do Brasil. 

Sarrubbo afirmou que a classificação altera a dinâmica da cooperação internacional, transferindo o tema do âmbito estritamente policial para o da defesa nacional americana. Na prática, as negociações que ocorriam de forma fluida entre a Polícia Federal brasileira e agências como o FBI (Departamento Federal de Investigação, em português) podem passar a envolver a CIA (Agência Central de Inteligência) e as Forças Armadas dos EUA. 

Além disso, o ex-secretário defendeu que a medida falha tecnicamente por ignorar a legislação brasileira, que atrela o terrorismo a motivações ideológicas, e não exclusivamente financeiras. 

Abaixo, confira os principais trechos da entrevista: 

Por que a decisão do governo americano de classificar PCC e CV como organizações terroristas é considerada ruim para o Brasil?

Esta classificação traz uma mudança muito significativa no olhar do governo americano para as facções que atuam em território brasileiro. Até ontem, essas facções eram vistas como um caso de atribuição das forças policiais. Com essa nova classificação, isso se torna uma questão de defesa nacional. Passa para a CIA, passa para as forças armadas americanas. 

O Brasil passará a ser visto no mundo como um pária, como um país que abriga organizações terroristas. Essa nomenclatura prejudica o combate às facções no Brasil. 

Como o sistema jurídico brasileiro difere as ações dessas facções do que é considerado terrorismo?

O Brasil tem uma lei que define o que é terrorismo, (que) são ações violentas ou não, ligadas a política, religião, ideologia, etnia, raça. Ou seja, não tem absolutamente nenhuma ligação com as atividades das facções criminosas. 

Essas facções que aqui atuam, elas trabalham com um único objetivo, que é o lucro, e para atingir esse objetivo elas usam de violência, não tem nada a ver com terrorismo. Portanto, sob o prisma legal constitucional, é uma aberração.

Além do combate policial, a medida cria riscos econômicos para as empresas e abre espaço para intervenção dos EUA no Brasil?

Se uma empresa brasileira quiser investir nos Estados Unidos, ela vai ter dificuldades, porque ela é uma empresa que pertence a um país que abriga organizações terroristas, e surgem barreiras no sistema americano para esses países. 

Eu não acredito, francamente, que os Estados Unidos cheguem a intervir aqui no Brasil no sentido de realizar operações das forças armadas. Mas isso fica aberto, então não deixa de ser um risco significativo à nossa soberania.

Se operações violentas e o enquadramento como terrorismo não resolvem, qual deve ser a estratégia do Estado brasileiro?

Temos que investir na polícia civil. Faltam investigadores, falta perícia, falta tecnologia, psicologia, e a gente não consegue esclarecer um percentual razoável de crimes no Brasil. E é ali que tem que estar o investimento.

Não será subindo o morro e matando jovens negros na periferia que nós vamos melhorar a segurança pública desse país. Isso aí precisa de muito investimento social e nós precisamos, evidentemente, qualificar essa resposta com investimentos sérios em tecnologia, Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) forte, Receita Federal forte, estancando o fluxo financeiro. 

Assista ao Matinal desta sexta (29):

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