Entrevista

Sérgio Rodrigues: ‘Se tudo começar a ser escrito por IA, o mundo vai deixar de ser humano’

Em entrevista ao Papo Amado, o escritor e jornalista comenta a polêmica sobre o uso de inteligência artificial nas colunas escritas por Natalia Beauty para a Folha de S.Paulo

Publicado em 22/02/2026 às 06:00
Sérgio Rodrigues em entrevista ao Papo Amado – Foto: Amado Mundo

O uso confesso de inteligência artificial pela empresária e colunista Natalia Beauty na redação de textos publicados por ela no jornal “Folha de S.Paulo” provocou reação acalorada de leitores e colocou em debate os limites éticos da tecnologia na escrita jornalística.

O episódio ganhou dimensão pública após a ombudsman do jornal, Alexandra Moraes, publicar a coluna “Androides sonham com leitores de carne e osso?”, motivada pela reclamação de um leitor que apontava que os artigos de Natalia Beauty eram redigidos por IA. Questionada, a colunista não só confirmou o uso da ferramenta na elaboração dos textos, como defendeu a prática.

Para o escritor e também colunista da “Folha de S.PauloSérgio Rodrigues, a questão ultrapassa o caso específico e toca em um ponto central da escrita: a responsabilidade pelas palavras publicadas. Em entrevista ao Papo Amado, Rodrigues afirmou que escrever é, antes de tudo, escolher palavras. Quando a tarefa é terceirizada, acredita, a autoria se perde.

“Se estão escolhendo as suas palavras por você, você não é mais o autor e ponto”, declarou.

Segundo ele, ainda não existe um código de ética consolidado sobre o uso de IA na escrita profissional, mas há um princípio básico que deveria orientar jornalistas, colunistas e escritores: quem vende um texto precisa escrever as próprias palavras. 

“Ideia todo mundo tem. A formulação com uma linguagem trabalhada, que exprima algo além do óbvio, é tarefa humana e vai continuar sendo”, afirmou ele, antes de concluir: “Se o mundo inteiro começar a ser escrito por IA, o mundo vai deixar de ser humano. Não é alarmismo. É coisa séria”.

Leia a seguir um trecho da conversa entre Sérgio Rodrigues e Guilherme Amado, que irá ao ar no Amado Mundo nesta segunda-feira, 23 de fevereiro. O corte do programa pode ser assistido ao final do texto.

Colunista da Folha pode escrever com IA? A sua colega Natalia Beauty admitiu que escreve.
Eu não escrevo com IA nem que apontem uma arma para a minha cabeça. A IA tem muitas aplicações, não quero ser visto como um reacionário em relação a essa tecnologia, até porque não tem volta. Agora, quando entramos na escrita, colocar palavras numa página, tela ou papel, e ser responsável pelas palavras, temos que ter muito cuidado. A tarefa pela frente é criar um código de ética, que hoje não existe, e cada um tem sua fronteira. Com o tempo vai se sedimentar um código de ética compartilhado, uma fronteira em que se você está vendendo seu texto, portanto jornalista, colunista, escritor, com certeza você se compromete a escrever as próprias palavras. É o básico. Escrever é escolher palavras. No fim das contas, é isso o que você faz. Se estão escolhendo as suas palavras por você, você não é mais o autor e ponto. “Ah, mas a ideia era minha.” Ideia todo mundo tem. A formulação com uma linguagem trabalhada, que exprima algo além do óbvio, do basicão e da mediocridade, isso é tarefa humana, e vai continuar sendo.

No livro “Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robôs”, você fala das incapacidades da IA na escrita. Um dos problemas óbvios é a repetição. A IA não formula nada criativo. 

Hoje, os Large Language Models (LLMs) [modelos de linguagem base de ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude e DeepSeek] trabalham de modo estatístico. Se você pedir uma tarefa qualquer, a IA, no repertório acumulado pela humanidade nesses milhares de anos de escrita, vai encontrar ali as palavras que dão conta de maneira estatística e probabilística. Ela não lida com o problema que você apresentou, mas com as respostas que esse problema recebeu ao longo da história.

Onde [a Inteligência Artificial] tem mais impossibilidade de entrar é na literatura criativa, na linguagem escrita para fazer arte. Ela não tem a menor noção do que acontece ali. Você pede uma história sobre um conflito entre pai e filho. A ferramenta vai na história da literatura, faz uma misturinha e te apresenta. Talvez engane muita gente. Mas ela não sabe o que é pai, filho, conflito, não sabe absolutamente nada. A entropia de alma que isso gera é um negócio incalculável a longo prazo. Se o mundo inteiro começar a ser escrito por IA, o mundo vai deixar de ser humano. Não é alarmismo. É coisa séria. Temos essa tarefa de não deixar essas coisas morrerem. Em 20 anos ninguém mais saberá [escrever]. O nosso cérebro é adaptável. Temos uma missão nas escolas e próximas gerações: não deixar que esse saber se perca.

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