Entrevista

Defesa das mulheres deveria pautar o debate, diz Sâmia Bomfim sobre ataques a Erika Hilton

Deputada do PSOL detalha bastidores da escolha de Erika Hilton, uma mulher trans, para presidir Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres na Câmara, e diz que direita quer 'lacrar' e causar 'pânico moral'

18/03/2026 às 12:47 · Atualizado há 5 meses
Ao ser escolhida presidente da Comissão, Hilton enfatizou: “Minha gestão tratará de todas as mulheres”. Crédito: Kayo Magalhães/ Agência Câmara de Notícias

Tradicionalmente encarado como um rito protocolar, fruto de acordos entre líderes partidários, a nomeação da presidência da Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres na Câmara dos Deputados virou um inflamado campo de batalha ideológico diante da escolha da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), uma mulher trans, para chefiar o colegiado.

O que começou com uma disputa entre os parlamentares, — nitidamente opondo os de direita e os da esquerda — extrapolou o Congresso, dominou das redes sociais e também chegou à televisão aberta. Um dos casos que mais repercutiu foram as declarações do apresentador Ratinho, do SBT, que afirmou em rede nacional que “para ser mulher tem que ter útero” e “menstruar”. Em resposta, Hilton acionou o Ministério Público Federal pedindo uma indenização de R$ 10 milhões por transfobia

Enquanto atores da direita utilizam o episódio para mobilizar bases conservadoras, a esquerda enfrenta o debate interno sobre a conveniência estratégica da indicação em pleno ano eleitoral.

Para destrinchar o cenário, o Matinal recebeu a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP). Segundo ela, a escolha de Hilton seguiu decisão interna do partido de realizar um revezamento em postos ao longo da legislatura.

Bomfim classificou o debate como “lamentável”.

“Vínhamos de semanas de uma onda de luta feminista diante da revolta com tantos casos de feminicídio. Agora, a extrema-direita está conseguindo transformar todo esse caldo de indignação em uma disputa sobre se uma mulher trans tem o direito ou não de defender outras mulheres.”

A deputada também comentou as declarações do apresentador Ratinho, pai de Ratinho Jr, governador do Paraná e pré-candidato à presidência da república, e dos possíveis símbolos que a atitude representa, mirando nichos eleitorais importantes.

Confira os principais trechos da entrevista ou assista ao vídeo ao fim do texto.

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Matinal: Deputada, como se deu a definição do nome da Erika pelo PSOL para ocupar a presidência da Comissão e como vocês avaliam a resistência ocorrida na votação?

Sâmia Bomfim: A vaga [da presidência] era do PSOL. Houve um acordo este ano de repetir o partido que já estava na presidência das comissões. Internamente, fazemos uma discussão de acordo com a proporcionalidade dos grupos políticos que compõem o partido e com o revezamento das posições ao longo da legislatura. Diante dessa discussão, a Erika Hilton foi para a presidência. Eu imaginei que haveria algum tipo de questionamento e repercussão, obviamente. Até porque isso não é uma questão exclusiva do Brasil; é um fenômeno, sobretudo nos Estados Unidos, de onde boa parte da extrema-direita brasileira se inspira para criar suas narrativas e pânicos morais. Este é um tema para a extrema-direita a nível mundial. Acho extremamente lamentável tudo o que está acontecendo, porque vínhamos de semanas de uma onda de luta feminista diante da revolta com tantos casos de feminicídio. Agora, a extrema-direita está conseguindo transformar todo esse caldo de indignação em uma disputa sobre se uma mulher trans tem o direito ou não de defender outras mulheres. Se houvesse ali uma mulher cis de extrema-direita, ela não defenderia mais outras mulheres do que a deputada Erika pelo fato de ela ser uma mulher trans. A discussão não tem que ser sobre a identidade, nem sequer é sobre o gênero; a discussão tem que ser sobre o compromisso em defender mulheres ou não.

Como a senhora analisa a fala do apresentador Ratinho e a repercussão do caso na Justiça?

Ele cruzou uma linha, sim. Quando figuras públicas fazem comentários preconceituosos em TV aberta para milhões de pessoas, você autoriza e forma opinião. Por isso o pedido de indenização de R$ 10 milhões é alto: primeiro porque ele pode pagar, e também pela gravidade do que disse.

Acho também que há intenções eleitorais. O filho dele, Ratinho Jr., que é pré-candidato à Presidência, apresenta-se como um moderado. Mas, através da figura do pai, ele sinaliza diretamente para o público mais conservador e para uma base eleitoral bolsonarista. Ele já está preparado para sinalizar para esse público através de uma figura que atinge milhões de pessoas.

Existe uma preocupação no campo progressista de que este debate fortaleça a direita em ano eleitoral. Houve essa cobrança ao PSOL?

Alguns comentaram comigo, em off ou mesmo ali na Câmara: “Vocês acham que ano eleitoral é ano para isso?” Há uma cobrança ao PSOL por ter feito isso. Mas nós não fizemos esse cálculo baseado se é ano eleitoral ou não. Como eu disse, há questões internas de revezamento de postos. Entendo quem tem essa visão, mas, se não fosse a presidência da Comissão da Mulher, seria algum outro tema relativo à população trans que a extrema-direita traria à tona para construir um pânico moral ou distrair dos temas fundamentais. Fugir desses temas não é uma opção, porque eles não vão desaparecer. A deputada Erika não pode ser abandonada agora porque alguém avalia que isso atrapalha o processo eleitoral. Isso é um desrespeito com o que a gente acredita, um desrespeito com ela e com todas as mulheres que ela representa.

É possível ter um ambiente de trabalho saudável na Comissão da Mulher este ano?

Espero que a gente consiga retomar o caldo de indignação para canalizar para o que realmente importa, que é aprovar bons projetos e ouvir a sociedade civil para defender a vida das mulheres. Vi a deputada Erika dizendo que vai buscar uma pauta por consenso. Foi assim que funcionou no ano passado. Já trabalhamos por consenso no último ano; o que impediria de tentarmos novamente, se não o preconceito ou a disposição em “lacrar” e ganhar o holofote em cima de um tema tão sério?

Assista à íntegra da entrevista de Sâmia Bomfim ao Matinal desta quarta (18):

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