Glauber Braga sobre Cláudio Castro: ‘No RJ não faltam criminosos com influência política’
Na noite desta terça-feira, o Tribunal Superior Eleitoral formou maioria para tornar o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro inelegível

Na noite desta terça-feira (24), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) formou maioria para tornar o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro inelegível. Ele é acusado de abuso de poder político e econômico, além de irregularidades em gastos de campanha e de ter adotado conduta vedada a agentes públicos durante o período eleitoral de 2022, num episódio que ficou conhecido como o escândalo da “Folha Secreta” da Ceperj e da Uerj.
Pressionado pela iminência da inelegibilidade — e por seu próprio partido, o PL — Castro adotou uma manobra política e renunciou ao cargo de governador na véspera, noite de segunda-feira (23).
Ao deixar o Palácio Guanabara, ele tentou esvaziar o objeto da cassação — já que não possuiria mais o mandato —, para tentar preservar prolongar a votação e, portanto, seus direitos políticos visando uma eventual candidatura ao Senado. No entanto, o caso prosseguiu na Corte Eleitoral.
Com a renúncia de Castro e a ausência de seu vice-governador, Thiago Pampolha — que deixou o posto para assumir uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado —, o Rio de Janeiro mergulha em um cenário de dupla vacância. Essa configuração força uma situação inédita: a convocação de uma eleição indireta pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para um “mandato tampão” até o próximo pleito. É de olho nessa reconfiguração de forças e nas eleições que a política fluminense já se movimenta.
Para entender o que muda com tudo isso em jogo, o Matinal conversou com o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ), que falou antes de sair a decisão do TSE. Segundo o parlamentar, a tentativa de fuga de Castro para evitar a inelegibilidade falhou: “O tiro saiu pela culatra”, afirma Braga, que classifica a gestão do ex-governador como baseada em um “script macabro” e aposta em um projeto de ruptura para o Rio de Janeiro.
Leia abaixo trechos da entrevista ou assista ao vídeo ao final do texto.
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Matinal: Há alguma relação que podemos estabelecer entre a operação policial que deixou 121 mortos nos Complexos da Penha e do Alemão, no ano passado no Rio de Janeiro, e o avanço do processo de Cláudio Castro no TSE?
Glauber Braga: Existe relação, e a atitude foi proposital. O julgamento já estava pautado, e Cláudio Castro imaginou que, com essa operação letal, ampliaria sua popularidade e constrangiria o tribunal a votar o seu caso. No entanto, o tiro saiu pela culatra. Nossa expectativa é de que ele seja julgado, condenado, devidamente responsabilizado e fique inelegível.
Qual é o caminho que Cláudio Castro tem daqui para frente para ter o nome nas urnas e o senhor acha que existe espaço para ele reverter essa situação?
O sucesso eleitoral de Cláudio Castro é bastante limitado. Pesquisas recentes, incluindo duas da Atlas, o apontaram como o governador mais mal avaliado do Brasil. Ele promove uma matança acreditando que o cargo de senador o blindará dos crimes cometidos, mas suas intenções de voto para o Senado estagnam na casa dos 20%. Minha avaliação é que ele nem sequer estará nas urnas, pois, logo que tentar registrar a candidatura, haverá imediata impugnação. Com a pressão política e social em torno de uma decisão já tomada pelo TSE, não acredito que seu caso se arraste por mais quatro ou oito anos. Provavelmente, ele será pressionado pelos próprios aliados a não concorrer, para que possam substituir seu nome na chapa.
Lembro que, no dia de sua diplomação, eu abri um cartaz afirmando que ele não merecia o diploma, pois já existia denúncia do Ministério Público. Isso gerou uma reação raivosa de Castro, e críticas indiretas do próprio Judiciário a mim durante a sessão. Passados quatro anos, a decisão do TSE apenas comprova que o MP e o meu protesto estavam corretos. Não é justo protelar uma condenação por tanto tempo com provas tão robustas. A legislação é clara: com condenação colegiada e provas contundentes, sem indicação de perseguição política, ele se torna inelegível e não pode ser candidato.

A renúncia do agora ex-governador influencia a sucessão no Rio de Janeiro? Ele ainda consegue manter poder político e impactar o cenário eleitoral?
Ele manterá algum nível de poder, pois o que não falta no Rio de Janeiro são criminosos com influência política. Um raio-x da Assembleia Legislativa revela um verdadeiro escândalo, com máfias formadas há muito tempo. Para 2026, vejo três campos políticos polarizando as atenções. Quase houve uma aliança formal entre Cláudio Castro e Eduardo Paes, evidenciada por aproximações de Paes com Silas Malafaia, Edir Macedo, Eduardo Pazuello e pelas críticas de seu vice ao PT e à esquerda. Essa aliança só não ocorreu porque Jair Bolsonaro escolheu Flávio Bolsonaro como candidato, o que exigiu um palanque exclusivo para o PL.
A partir daí, o grupo de Castro lançou Douglas Ruas, filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson — apontado como chefe de milícia na CPI de 2008. Assim, a base governista se dividiu entre a candidatura de Douglas Ruas e a de Eduardo Paes. A terceira força é o PSOL. Teremos candidatura própria para apresentar um programa de ruptura, de enfrentamento a essas máfias, propondo a reestatização da Cedae e a valorização dos Cieps. Enquanto Castro inaugurou apenas uma escola nos moldes de Brizola e Darcy Ribeiro e tenta usar o Senado como escudo, nós defendemos a recomposição da educação integral e apresentamos alternativas concretas a um projeto de segurança pública falido. Com consistência política, o PSOL é quem pode promover uma mudança real.
O senhor será o candidato do PSOL ao governo do estado do Rio de Janeiro?
O PSOL possui três pré-candidaturas possíveis: a vereadora Thais Ferreira, o vereador William Siri e o meu nome. No entanto, ainda não apresentei oficialmente minha intenção para deliberação partidária. Tomei a decisão de realizar uma consulta pública em todas as regiões do estado. Originalmente seriam 100 reuniões, mas o calendário foi ajustado para 50 encontros devido à minha suspensão da Câmara dos Deputados — motivada pela perseguição de Arthur Lira após denúncias do nosso mandato sobre o orçamento secreto.
Nesses encontros, debato a conjuntura, pontos de um programa de governo e a tática eleitoral, perguntando diretamente à população se devo concorrer a deputado federal ou a governador. Finalizarei essas 50 consultas em breve e anunciarei o que for deliberado. Independentemente da minha candidatura, o PSOL terá um nome próprio na disputa.
Caso a gente tenha uma eleição indireta (mandato tampão), qual é a questão em ter um candidato já buscando a reeleição e usando a máquina pública para isso?
Diante do grau de domínio político que as máfias exercem na Assembleia Legislativa, é evidente que qualquer candidatura definida por via indireta é temerária. O PSOL sempre defendeu eleições diretas. Se o julgamento de Cláudio Castro não tivesse se arrastado e ocorresse nos dois primeiros anos de mandato, teríamos eleições diretas, sem ficarmos reféns desses grupos na Alerj. Permitir que esses grupos continuem no poder, lançando candidatos que utilizam a máquina pública sem nenhum limite para seus projetos, é um grande risco.
Cláudio Castro utilizou um roteiro macabro para se reeleger: promoveu matanças, privatizou a distribuição de água, loteou a máquina pública com cargos e distribuiu verbas pelo estado. Há quatro anos, usou a chacina do Jacarezinho; recentemente, tentou o mesmo com a operação no Complexo do Alemão. Se um aliado dele assumir o cargo tampão, poderá avançar na venda da produção de água da Cedae, arrecadando bilhões para continuar manipulando a máquina pública visando a eleição de seus parceiros. É por esse motivo que afirmo que Cláudio Castro sequer deveria ter sido diplomado, muito menos ter seu processo arrastado por quatro anos diante de provas tão robustas de uso ilegal do aparato estatal.
Assista à íntegra da entrevista do deputado federal Glauber Braga ao Matinal desta terça (24):