Raphael Montes: mundo das aparências e pressão por ‘performar’ são vilões de qualquer ‘família feliz’
No Notas de Rodapé, o escritor e a psicóloga Ediane Ribeiro analisam a necessidade de aceitação e os impactos na saúde mental

A pressão para sustentar a imagem de uma vida perfeita atravessa o romance “Uma família feliz” (ed. Companhia das Letras), do escritor carioca Raphael Montes, e está no centro do episódio do Notas de Rodapé. Para discutir a obra, o programa reuniu o autor e a psicóloga Ediane Ribeiro em uma conversa mediada pela jornalista Raquel Cozer sobre o mundo das aparências, as expectativas em torno da maternidade e os efeitos desse modelo de vida sobre a saúde mental.
No livro, a personagem Eva aparenta ter tudo sob controle. Vive em um condomínio fechado de classe média alta na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, é casada com um advogado em ascensão, tem duas filhas gêmeas e trabalha como “cegonha” de bebês reborn – ela confecciona as bonecas ultrarrealistas que fazem sucesso nas redes sociais.
A estabilidade começa a ruir quando Eva descobre uma nova gravidez e passa a ser observada e julgada por vizinhos, amigos e pelo próprio marido. A história inspirou o filme de mesmo nome, lançado em 2023, dirigido por José Eduardo Belmonte e estrelado por Grazi Massafera e Reynaldo Gianecchini.
Conhecido por histórias policiais e de suspense, Montes é autor de livros como “Suicidas”, “Dias Perfeitos”, “O Vilarejo, “Jantar Secreto” e “Bom Dia, Verônica”, além de roteirista da série homônima da Netflix e da novela “Beleza Fatal”, da HBO Max. Ediane Ribeiro é autora do livro “Os tesouros que deixamos pelos caminhos” (ed. Paidós).

Como surgiu a ideia de fazer da preocupação com as aparências a grande vilã de ‘Uma família feliz’?
Raphael Montes: Sem dúvidas, o mundo das aparências é um dos temas que mais me interessa. Tudo que faço é um pouco sobre isso. O meu interesse por essa diferença vem do fato de que nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, no Méier, em uma família tradicional suburbana. Em vários aspectos, quando queria ser alguma coisa, me falavam “mas não precisa contar por aí”. Por exemplo, quando falei “quero ser escritor”, [falaram] “escreve à noite, mas seja advogado, engenheiro”. Quando contei para os meus pais que era gay, a minha mãe, no auge do desespero, virou para mim e falou “tudo bem, mas você não pode casar e dar as suas aprontadas às escondidas?” Uma coisa do pensamento de que o problema não é o que você é, mas o que os outros vão pensar. Isso foi maximizado pelas redes sociais, em que a gente vende uma espécie de vida perfeita e isso é o ideal. Você sempre vê as pessoas viajando, felizes, como se isso fosse a vida o tempo inteiro.
Escolhi o cenário de um condomínio fechado. Um trecho do livro fala algo do tipo todo mundo se ama, se ajuda e se vigia. Você é uma boa mãe para que as outras comentem como você é uma boa mãe. É um aspecto muito comum no nosso dia a dia, essa pressão para performar.
“Escolhi o cenário de um condomínio fechado. Um trecho do livro fala algo do tipo todo mundo se ama, se ajuda e se vigia. Você é uma boa mãe para que as outras comentem como você é uma boa mãe. É um aspecto muito comum no nosso dia a dia, essa pressão para performar” — Raphael Montes, escritor
A personagem Eva, ao longo do livro, vai entrando em um estado de ‘burnout’, não só por conta do trabalho, mas por cuidar da família e das aparências. A gente pode dizer que a necessidade de aceitação é um dos fatores que causam o ‘burnout’?
Ediane Ribeiro: Não sei se diria que a necessidade de aceitação causa o burnout, porque nós necessitamos aceitação. É uma coisa importante para o humano. É a primeira necessidade humana. Antes da alimentação, dos cuidados básicos, a criança precisa de vinculação. A necessidade de pertencer e do olhar do outro é essencial, biológica. A grande questão é o que a gente transformou nisso. Que é a necessidade de aceitação padronizada pelos scripts sociais, o que o Raphael trabalha extremamente bem no livro. Aí você começa a negociar uma outra necessidade, que é a autenticidade em função do pertencimento e da aceitação. Começa a se criar essa fragmentação entre o que aparento e o que sou de verdade e, às vezes, entre o que aparento e o que está acontecendo no meu mundo interno. Aí vai levando ao adoecimento.
É um tipo de sofrimento psíquico que vem da sobrecarga da necessidade de aceitação, de assumir algo que não é coerente com o que você sente e como você pensa. As condições clínicas, dentro de saúde mental, são muito atravessadas por como nós nos organizamos como sociedade, como nos relacionamos e o que exigimos uns dos outros.
Raphael: O ambiente que você escolhe te adoece às vezes, as pessoas ao seu redor, os padrões.