Copa digital e hiperconectada testa infraestrutura do Brasil, aponta diretor do ITS Rio
Carlos Affonso Souza destaca que a transmissão 100% digital da Copa de 2026 expõe desigualdades de acesso à internet e amplia o poder das plataformas de streaming

A Copa do Mundo de 2026 não é apenas um teste para as seleções em campo, mas também para a infraestrutura digital brasileira. É a avaliação do diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), Carlos Affonso Souza, que participou do Matinal desta quinta-feira (25/6), ao lado da repórter Domitila Becker, enviada especial do Amado Mundo à Copa do Mundo 2026.
Pela primeira vez, todos os 104 jogos do torneio são transmitidos gratuitamente apenas pela internet, via YouTube, sem a tradicional paridade com a TV aberta. Para Souza, esse modelo coloca a infraestrutura de rede no centro do evento.
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“Não há dúvida de que essa é a Copa tanto da cultura digital quanto a Copa em que a infraestrutura digital sobe para o palco principal desse grande evento esportivo global”, afirmou.
Da palma da mão ao protagonismo da transmissão
Segundo o especialista, a internet esteve presente em Copas anteriores, mas como complemento à experiência, nas redes sociais e no compartilhamento de vídeos, enquanto o conteúdo bruto da transmissão vinha da televisão. Agora, a lógica se inverteu: o material original passou a vir diretamente das plataformas de streaming.
Esse novo modelo gera pelo menos dois efeitos práticos, segundo Souza. O primeiro é a pressão sobre a infraestrutura de rede, com um volume inédito de pessoas conectadas simultaneamente à mesma transmissão. Como exemplo internacional, ele citou o lançamento da série sul-coreana “Round 6” pela Netflix, que gerou debate no país sobre uma eventual cobrança extra das operadoras de telecomunicação para sustentar o tráfego gerado por produções de grande demanda. No Brasil, avalia, esse tipo de cobrança encontraria obstáculos no princípio da neutralidade de rede, previsto no Marco Civil da Internet.
O segundo efeito é cultural: a forma como o público reage e produz conteúdo a partir da Copa, intensificando memes e interações nas redes sociais — fenômeno que, segundo Souza, mostra como a cultura digital se incorporou definitivamente à experiência do torneio.
Domitila Becker observou que essa transição também reconfigura o poder antes concentrado nas grandes redes de televisão, agora disputado pelas plataformas digitais. Souza confirmou a leitura e citou o Brasil como um “laboratório” relevante para esse embate, dada a alta conectividade da população — apesar dos desafios de acesso de qualidade ainda existentes.

TV não vai acabar, mas papel do aparelho muda
Questionado pela repórter Domitila Becker sobre se a internet decretaria o fim da televisão — repetindo discussões já vividas com o surgimento do rádio e, depois, da própria internet —, Souza defendeu que o aparelho de TV não desaparece, mas sua função se transforma.
“No final das contas, o que traz valor aqui é o conteúdo, o que se busca é o acesso ao conteúdo. A maneira pela qual esse acesso vai se dar é que vai ser transformada”, disse.
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Para ele, a expressão “smart TV” tende a perder sentido à medida que a conexão à internet se torna padrão em qualquer dispositivo. “Talvez não faça mais sentido em pouco tempo a gente falar que os aparelhos são inteligentes (…). Conexão à internet vai ser parte essencial de todos os dispositivos que nós utilizamos ao longo do dia”, projetou.
Big techs herdam poder das emissoras de TV
O diretor do ITS Rio mencionou ainda a polêmica recente envolvendo a transmissão da CazéTV e a forma como casas de apostas ganharam destaque na cobertura, o que já motivou investigação sobre os patrocínios exibidos durante os jogos.
“É importante entender que o debate vai além de quem pode transmitir. É como transmite, de que maneira transmite, como as pessoas recebem essa transmissão e quem são os anunciantes que estão embarcando junto nessa”, avaliou.

Desigualdade de acesso ainda limita a experiência digital
O apresentador Guilherme Amado citou números que ilustram o protagonismo do futebol no consumo digital: a modalidade representa 50% de todas as visualizações de conteúdo esportivo no Google e no YouTube, superando outras, como esportes de combate e basquete. Globalmente, 82% dos fãs de esporte interagem com outros torcedores compartilhando experiências em eventos esportivos ao menos uma vez por mês no YouTube.
Apesar dos recordes de audiência simultânea — a CazéTV registrou 17,8 milhões de dispositivos conectados ao mesmo tempo durante a partida entre Brasil e Escócia —, Souza alertou que o acesso à internet de qualidade ainda é desigual no país. Segundo ele, a expansão de tecnologias móveis no Brasil costuma esbarrar em obrigações não cumpridas de gerações anteriores de conectividade.
“Quando se faz o leilão do 4G, a gente tem que estar de olho na expansão do 3G que não foi feita (…). Foi a mesma coisa com o leilão do 5G”, explicou.
Ele destacou que, sobretudo na região Norte do país, a conexão via internet móvel é proporcionalmente mais relevante do que a banda larga fixa. O que, somado à maior demanda de banda exigida por vídeo em tempo real, pode gerar frustração entre torcedores que não conseguem assistir aos jogos com qualidade.
Delay ainda pesa a favor da TV aberta
Questionada pela apresentadora Beatriz Bulla sobre por que, mesmo com a transmissão concentrada no digital, parte do público brasileiro ainda prefere assistir aos jogos pela TV, Souza apontou tanto o hábito cultural quanto problemas técnicos como explicação — em especial o atraso (delay) da transmissão via internet em relação à TV aberta.
“Em especial em partidas decisivas, e especialmente partidas do Brasil, em que a questão do gol é o grande momento, em que as pessoas não querem viver aquela expectativa sendo frustradas, isso tem feito com que as pessoas prefiram a TV aberta nessa dinâmica de transmissão”, afirmou.
Para o especialista, a disputa entre TV e internet pela atenção do público deve se intensificar ao longo do torneio, à medida que o conteúdo digital oferece uma diversidade de abordagens que a TV aberta dificilmente reproduziria durante um mês inteiro de cobertura ininterrupta.
Assista ao Matinal desta quinta-feira (25/6) na íntegra: