Reportagem

HPV e o preventivo: biologia molecular e novas vacinas redefinem o combate à infecção

No Março Lilás, nova tecnologia de detecção e vacinação masculina tornam-se armas estratégicas para erradicar o câncer de colo do útero

por Luiza Barufi
30/03/2026 às 18:30 · Atualizado há 5 meses
Março Lilás – Foto: Freepik

O combate ao HPV no Brasil acaba de ganhar um avanço tecnológico que promete mudar o destino de milhares de pessoas. Em 2026, a campanha Março Lilás — que combate o câncer de colo do útero, quarta maior causa de morte por câncer entre mulheres no país — marca um ponto de virada histórico. A transição da ginecologia reativa para uma medicina preditiva, baseada em biologia molecular e vacinas de última geração, coloca o Brasil na rota estratégica da OMS para eliminar o câncer de colo do útero como um problema de saúde pública.

O tradicional exame preventivo papanicolau, embora ainda essencial, está ganhando um parceiro de alta precisão: o teste de DNA-HPV. Ao contrário do método convencional, que busca células já alteradas, essa tecnologia de biologia molecular detecta a presença do vírus antes mesmo de qualquer lesão surgir.

Ginecologista da Febrasgo, Susana Aidé explica que essa mudança para o SUS é um divisor de águas: “O teste do HPV é muito mais sensível. Ele nos permite identificar quem está sob risco real muito antes, garantindo que a intervenção seja feita no momento exato para evitar o câncer”.

Escudo ampliado: a vacina Gardasil 9

Outro salto tecnológico é a vacina Gardasil 9 (nonavalente). Recentemente, a Anvisa aprovou sua indicação para prevenir cânceres de orofaringe, cabeça e pescoço. Essa é uma vitória estratégica, especialmente para o público masculino, já que o vírus circula silenciosamente nessas regiões.

Aidé detalha a diferença tecnológica entre as opções disponíveis: a vacina quadrivalente (oferecida gratuitamente no SUS) protege contra os tipos 16, 18, 6 e 11. Já a nonavalente adiciona proteção contra mais cinco tipos de alto risco (31, 33, 45, 52 e 58).

“Embora a tecnologia de produção seja a mesma, o escopo é maior. Dependendo da região, falamos de uma proteção 15% a 20% superior. No entanto, o impacto epidemiológico real vem da alta cobertura vacinal no PNI (Programa Nacional de Imunização)”, explica a especialista.

Vacina contra HPV também é coisa de homem

O oncologista e pesquisador Fernando Maluf reforça que a proteção precisa ser sistêmica:

“A vacinação não é apenas um ato individual, é um bloqueio de rede. Quando vacinamos meninos e meninas, cortamos o elo da infecção. Hoje, a ciência nos permite prevenir não apenas o câncer de colo de útero, mas tumores de orofaringe e pênis que antes não tinham uma estratégia de prevenção tão clara”.

Um dos maiores desafios da campanha de 2026 é desmistificar que o HPV é uma “questão feminina”. Com a cobertura vacinal entre meninos ainda estagnada em 67%, abaixo dos 82% atingidos pelas meninas, o elo de transmissão continua ativo:

“Como a via de transmissão é sexual, quando você vacina meninos e meninas antes do início da vida sexual, você corta o elo da infecção. A proteção contra o câncer de colo de útero, gerando resposta imune, é da ordem de 97%. Mas, além disso, a vacina previne cânceres de orofaringe, canal anal e pênis, que muitas vezes são negligenciados no debate público”, reforça Maluf.

Desafio: informação e acesso

Apesar de termos a tecnologia disponível — com a vacina quadrivalente gratuita no SUS para jovens de 9 a 14 anos — o desafio agora é a adesão. Precisamos entender que a tecnologia só é eficaz quando alcança a população. O Brasil já possui as ferramentas para mudar o cenário de 7 mil mortes anuais, como ressalta a ginecologista.

“O Brasil, por meio do Ministério da Saúde e de sociedades como a Febrasgo, está empenhado em tirar essas estratégias do papel. É uma luta para mudar o cenário de 19 mil diagnósticos por ano. Temos as ferramentas; precisamos agora garantir que a informação chegue e que as pessoas usem o que a ciência disponibiliza”, acredita Aidé.

Confira a entrevista com a especialista Susana Aidé, no Tech Tech Tech Saúde:

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