O entreguismo de Flávio e o cálculo de Michelle na convenção do PL
Convenção do PL que marcou a homologação de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência teve presença de Milei ofendendo Lula e Alexandre de Moraes

Ao analisar a convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à presidência, o que mais saltou aos olhos não foi a política doméstica, mas, sim, o elefante estrangeiro na sala. A presença física do presidente da Argentina, Javier Milei, no palanque do senador brasileiro foi um atestado explícito de entreguismo e uma perigosa tentativa de interferência externa em nossa eleição.
Leia também: Sem vice e sem apoios, Flávio chega à convenção repetindo o Bolsonaro ‘amador’ de 2018
Milei usou o evento partidário no Brasil para atacar nossas instituições, ao chamar o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca” e o presidente Lula de “presidiário”. Esse show de horrores diplomático obrigou o Itamaraty a convocar o embaixador argentino em Brasília para expressar descontentamento.
Entreguismo não é novidade
Essa tática repete a mesma lógica das articulações que Eduardo Bolsonaro fazia com Donald Trump: usar líderes estrangeiros para atacar o sistema interno. A máquina de marketing da extrema direita tentou, inclusive com a exibição de um vídeo de Benjamin Netanyahu, criar a ilusão de que Flávio possui grande relevância internacional.
Os Bolsonaro não têm o contato de nenhum líder democrata na Europa, nas Américas, na Ásia ou na África. O trânsito deles se resume exclusivamente à extrema direita global, que tem pouco apreço pela democracia, como Trump, Netanyahu e ditadores sauditas.
Para a fatia do eleitorado de centro que efetivamente decidirá as eleições, essa subserviência internacional é um tiro no pé. O uso do palanque brasileiro por um líder estrangeiro para atacar o país não transmite força, e, sim, um entreguismo rasteiro que afasta o eleitorado moderado.
Flávio está isolado
Se a campanha tenta mascarar esse entreguismo com um verniz de internacionalização, a dinâmica interna da convenção revelou um candidato isolado. Flávio foi oficializado com a exibição de um vídeo de Jair Bolsonaro gerado por inteligência artificial, mas saiu do evento sem um vice definido e sem o apoio formal dos principais partidos do Centrão.
O Centrão, aliás, joga um xadrez: ciente de que a perspectiva de vitória de Flávio é ínfima, prefere não se aliar agora para vender seu apoio muito mais caro num eventual segundo turno.
A “cenografia” do evento também evidenciou rupturas. A direção do PL, liderada por Valdemar Costa Neto, varreu do palco figuras extremadas do “bolsonarismo raiz”, como Silas Malafaia e Luciano Hang, tentando vender um Flávio engravatado e moderado. Carlos e Eduardo Bolsonaro, enxergando nessa higienização uma tentativa do PL de roubar o espólio da marca Bolsonaro apenas para eleger senadores e deputados, recusaram-se a comparecer.
Michelle e o protagonismo feminino
No vácuo do extremismo doméstico, a campanha arquitetou um protagonismo feminino calculado. A presença e o discurso da esposa de Flávio, Fernanda, e a profusão de vídeos românticos nas redes sociais funcionam como uma “vacina” preventiva de marketing.
Há um grande temor na campanha de que surjam fotos comprometedoras do candidato em ambientes privados, a exemplo das festas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e essa imagem forçada de “homem de família” tenta blindá-lo antecipadamente.
Contudo, quem realmente capitaliza com o desenho desta convenção descaracterizada não é Flávio, mas, sim, Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama manteve uma distância cirúrgica do evento, participando apenas via vídeo pelo PL Mulher. O perdão que ela concedeu a Flávio foi estritamente formal e a livrou da obrigação de se engajar ativamente na linha de frente.
Tudo a que assistimos é, na verdade, a fundação do pós-Bolsonarismo para além de 2026. Valdemar Costa Neto e os caciques sabem que Flávio dificilmente vencerá. Ao se manter distante de uma candidatura que alienou a base raiz, entregou-se a interesses estrangeiros e carece de apoio político robusto, Michelle se protege. Quando a derrota de Flávio muito provavelmente se consumar, a culpa não recairá sobre ela. Pelo contrário, o fracasso de Flávio deixará o caminho livre para que Michelle herde, intacta, a tocha da marca Bolsonaro.
Assista ao Matinal desta segunda-feira (27/7) na íntegra: